Suzano e Eldorado pagaram mais de R$ 5 bilhões em terras que eram da pecuária
Negócio levou a transformação da economia do Leste de MS
O fazendeiro Hélcio Kamano, de 65 anos, tornou-se personagem da transformação que redesenhou o Leste de Mato Grosso do Sul nas últimas duas décadas e meia. Em 1998, ele descobriu, na Fazenda Alvorada, de sua propriedade, no distrito de Garcias, em Três Lagoas, uma mina de água mineral que deu origem à Água Labor, marca que, durante cerca de 12 anos, abasteceu aproximadamente 50 municípios de Mato Grosso do Sul e São Paulo.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Fazendeiro do Leste de Mato Grosso do Sul, Hélcio Kamano, 65 anos, simboliza a transformação regional impulsionada pelo avanço do eucalipto, que substituiu a pecuária pela cadeia global da celulose. Suzano e Eldorado controlam juntas 1,249 milhão de hectares, geridos por fundos ligados ao BTG Pactual e Wall Street. O modelo concentra terras, acelera êxodo rural e levanta suspeitas sobre o secamento de nascentes, investigadas pelo Ministério Público estadual.
Anos depois, a nascente secou, o empreendimento foi encerrado e parte da propriedade, a partir de 2005, passou a ser arrendada para o cultivo de eucalipto por uma das gigantes da celulose, a Eldorado. Convencido de que a expansão da monocultura contribuiu para o desaparecimento da água, Kamano hoje vive uma contradição: obtém parte da renda da mesma atividade que acredita ter mudado para sempre a paisagem, os recursos hídricos e o modo de vida da região.
- Leia Também
- Vale da Celulose inicia produção de eucalipto que consome menos água
- Êxodo rural, fauna e abelhas sentem avanço dos eucaliptais em Mato Grosso do Sul
Nova fronteira florestal
A trajetória de Kamano percorre as mudanças investigadas por pesquisadores e, agora, pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul, que apuram os impactos da expansão do complexo florestal sobre nascentes, córregos, comunidades rurais e urbanas e a fauna.
Ele é também personagem-símbolo da passagem de uma economia local que historicamente se movimentou pelas patas do boi para uma cadeia global da celulose, cuja engrenagem inclui arrendamento e parcerias com antigos pecuaristas para o controle do território, transformado em ativos financeiros geridos por grandes fundos de investimento.
Entre eles estão o TTG Brasil, ligado ao banqueiro André Esteves e seus sócios no BTG Pactual, a Lacan Florestal e a Valor Florestal, todos conectando a monocultura do eucalipto em Mato Grosso do Sul a centros financeiros como a Faria Lima e Wall Street, em Nova York.
O modelo de uso do solo vem redesenhando comunidades e a vida dos habitantes da região, deixando como saldo o êxodo rural crescente, relatos de degradação ambiental com o secamento de nascentes, pressão sobre a fauna, ainda em fase de investigação oficial, e uma nova lógica econômica que coloca no topo da pirâmide a produção de celulose para exportação, lastreada em investimentos de fundos globais.
Um estudo do geógrafo Joser Cleyton Neves, na tese de doutorado da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), levantou pistas sobre o que está por trás da nova ordem que gerou a denominação oficial de Vale da Celulose.
O novo polo mundial, conforme o estudo, decorre de uma bem elaborada engenharia financeira em que terra, capital industrial e capital financeiro passaram a atuar em conjunto para subordinar um vasto território que ambientalistas já chamam de "deserto verde" à cadeia global da celulose. Terras disponíveis ou o eucalipto como espécie competitiva representam apenas a camada mais visível do empreendimento na troca do boi pelo reflorestamento.
A terra como ativo financeiro

Com a chegada da Suzano e da Eldorado à região, a terra deixou de ser valorizada apenas como suporte para a produção pecuária. Passou a produzir ganhos por meio do arrendamento para o plantio de eucalipto: antigos fazendeiros, como Hélcio Kamano, passaram a arrendar ou vender áreas às gigantes da celulose.
Mas Kamano é considerado pequeno proprietário. Sua fazenda tem 490 hectares, dos quais arrendou 290 hectares para a Eldorado, o que rende, descontados os 27,5% do Imposto de Renda, R$ 24 mil mensais, pouco mais do necessário para a subsistência.
Conforme o plano de manejo ao qual o pesquisador teve acesso, a Suzano controla atualmente 856 mil hectares. Eram 618.924 em 2022, período em que, somadas às 412.844 da Eldorado, as duas controlavam 1.031.768 hectares. Hoje, Suzano (808 mil hectares) e Eldorado (441 mil hectares) exploram, sozinhas, 1,249 milhão de hectares.
A distribuição é mais ou menos a registrada em 2021: 109 mil hectares por arrendamento, 53 mil em parcerias e outros 76 mil comprados. "A curva dos arrendamentos e dos valores pagos aos donos das terras é sempre ascendente na região", afirma Joser. A Eldorado tem área própria bem menor que o estoque de terras arrendadas ou exploradas em parceria.
Segundo o geógrafo, a expansão do eucalipto ocorreu mais pelo controle da terra do que necessariamente pela compra. Para se ter uma ideia da expansão, em 2005 havia 113 mil hectares de eucalipto; já em 2022, a área plantada alcançou 1.186.894 hectares, cujo aumento do estoque, segundo o levantamento, é resultado direto de contratos de arrendamento e parcerias com grandes proprietários. Em 2024, o volume chegou a 1,452 milhão de hectares. Como o avanço é contínuo, especialistas estimam que a silvicultura já alcance cerca de dois milhões de hectares no Estado.
"A expansão da silvicultura no Leste, chamado de Vale da Celulose, está vinculada às microbacias de Três Lagoas e Paranaíba, onde estão os nove municípios da região", diz Joser.
Juntos, esses municípios (Três Lagoas, Água Clara, Aparecida do Taboado, Bataguassu, Brasilândia, Inocência, Ribas do Rio Pardo, Santa Rita do Pardo e Selvíria) têm 6.147.587 hectares, dos quais, pelos números até aqui consolidados, 1,7 milhão de hectares formam uma área quase contínua do maciço florestal com a monocultura do eucalipto. É uma superfície 11 vezes o tamanho da cidade de São Paulo ou cerca de três vezes a extensão territorial do Distrito Federal, com seus quase três milhões de habitantes.
Esse modelo mudou radicalmente o perfil econômico regional. Entre 2020 e 2023, conforme dados obtidos pelo pesquisador nos balancetes das empresas, apenas Eldorado e Suzano pagaram R$ 5,14 bilhões em arrendamentos.
A Suzano desembolsou a maior parte, R$ 4,099 bilhões, enquanto a Eldorado distribuiu R$ 1,041 bilhão a proprietários da região, o que alavancou a transformação do território, seja pelo cultivo do eucalipto, seja pelo forte fluxo de recursos destinado aos proprietários rurais.
O volume da Suzano inclui também outras unidades no país, mas, em relação ao Leste do Estado, embora a empresa não tenha discriminado os valores por unidade, o montante é bem superior ao da Eldorado. Isso significa que o proprietário, em vez de manter uma atividade pecuária sujeita a custos e riscos, passou a buscar remuneração pela posse da terra, enquanto as empresas assumiram a produção. Por outro lado, mostra que as duas gigantes da celulose não dependem apenas de terras próprias.
Modelo econômico
O estudo coloca na pauta uma pergunta incômoda: se a produção é quase integralmente destinada ao exterior, o que ficará de legado para a população do antigo Bolsão sul-mato-grossense? "Falam em sequestro de carbono, mas não seria também sequestro de água?", cutuca Kamano. O levantamento mostra, em outra linha, que os grandes proprietários, que abocanham as maiores fatias dos arrendamentos, das parcerias ou da venda de terras, têm raízes fora de Mato Grosso do Sul.
Os registros mostram também altas taxas de absenteísmo na região: para ficar nos principais, 90% em Água Clara, 88% em Selvíria e 80% em Inocência. Historicamente, o pecuarista do Leste, como Kamano, que chegou a Garcias em 1982, vindo de Mirandópolis (SP), mas se instalou na região, tem majoritariamente origem paulista, o que reforça o caráter patrimonial da terra, vista sobretudo como ativo econômico gerador de renda.
O estudo demonstra que a estrutura fundiária na região Leste já era extremamente concentrada antes da explosão do eucalipto, que apenas agravou o monopólio da terra. Na ponta do lápis, apenas 13,9% das propriedades possuem mais de 1.000 hectares, volume considerado latifúndio, mas controlam 75,8% de toda a área.
Quando se consideram apenas propriedades acima de 500 hectares, somente 24,2% dos estabelecimentos concentram 88,3% das terras, o que ajuda a explicar por que a expansão ocorreu tão rapidamente: as empresas não precisaram negociar com milhares de pequenos produtores. Bastou firmar contratos com relativamente poucos grandes proprietários, cujos lucros aquecem economias longe do território sul-mato-grossense, na mesma lógica da celulose produzida quase exclusivamente para o mercado externo.



