No caminho das aves do mundo, Campo Grande reúne cerca de 400 espécies
Às vésperas da COP15, especialistas destacam que cerca de 20% das aves da capital são migratórias

Quando cruzam oceanos, desertos e continentes inteiros, muitas aves encontram em Campo Grande algo raro nas grandes cidades: um lugar para respirar.
RESUMO
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Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, abriga cerca de 400 espécies de aves em sua área urbana e periurbana, das quais 20% são migratórias. A cidade se destaca por sua infraestrutura ecológica natural, com parques urbanos, corredores verdes e cursos d'água, que servem como pontos de descanso e alimentação para as aves. A importância da cidade para a conservação das espécies será reconhecida internacionalmente ao sediar a COP15 da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Selvagens em março de 2026. Entre as espécies visitantes, destacam-se aves migrantes neárticas da América do Norte e espécies austrais da América do Sul.
Entre parques urbanos, corredores verdes, árvores espalhadas pelos bairros e cursos d’água que cortam a cidade, a capital de Mato Grosso do Sul tornou-se um verdadeiro refúgio para espécies que percorrem milhares de quilômetros em rotas migratórias pelo planeta.
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Levantamentos indicam que cerca de 400 espécies de aves vivem ou passam pela área urbana e periurbana de Campo Grande. Desse total, aproximadamente 20% são migratórias, aves que utilizam a cidade como ponto de descanso, alimentação ou até reprodução durante suas longas jornadas.
A riqueza natural ganha ainda mais destaque neste momento em que a cidade se prepara para sediar a COP15 da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Selvagens (CMS), conferência internacional da Organização das Nações Unidas (ONU) que ocorrerá entre 23 e 29 de março de 2026.
Mais do que palco do evento, Campo Grande surge como um exemplo de como áreas urbanas podem conviver com a biodiversidade.
Uma cidade no caminho das rotas migratórias
A pesquisadora e educadora ambiental Maristela Benites, do Instituto Mamede de Pesquisa Ambiental e Ecoturismo, explica que a diversidade de aves na capital impressiona até mesmo especialistas.
“Campo Grande tem aproximadamente **400 espécies de aves somente na área urbana e periurbana e podemos afirmar que cerca de 20% delas são migratórias”, afirma.
A migração, segundo ela, é um fenômeno biológico que move populações inteiras de animais pelo planeta.
“A migração é um fenômeno natural que dirige o movimento populacional periódico e cíclico de várias espécies ao redor do mundo. Esse deslocamento acontece entre áreas reprodutivas e não reprodutivas e resulta em uma ausência temporária e previsível das espécies em determinados locais”, explica.
Na prática, isso significa que aves podem passar por Campo Grande apenas em determinados períodos do ano — e retornar no ciclo seguinte.
Visitantes vindos de longe
Entre os visitantes mais impressionantes estão as aves migrantes neárticas, que deixam a América do Norte para fugir do inverno rigoroso do hemisfério norte.
Essas espécies costumam ser observadas em Campo Grande principalmente entre agosto e abril.

Entre elas estão:
Maçaricos, comuns em áreas alagadas
Sovi-do-norte
Águia-pescadora, especialista em capturar peixes
Falcão-peregrino, considerado o animal mais rápido do planeta, capaz de atingir cerca de 300 km/h em mergulho
Essas aves percorrem milhares de quilômetros e utilizam diferentes pontos do continente como estações de descanso durante a jornada.
Migrantes da própria América do Sul
Outro grupo importante é formado pelas chamadas aves austrais, que migram dentro da própria América do Sul em busca de temperaturas mais amenas.
Essas espécies costumam aparecer em Campo Grande entre abril e novembro.
Entre elas estão:
Príncipe
Calhandra-de-três-rabos
Há ainda aves que se reproduzem na região Centro-Sul do Brasil e depois seguem para o norte do continente, muitas vezes até a Amazônia.
Entre os exemplos mais conhecidos estão:
Tesourinha
Bem-te-vi-rajado
Suiriri
Essas espécies são frequentemente observadas na cidade entre julho e março ou abril.

Por que Campo Grande é tão importante
Segundo especialistas, o que torna Campo Grande estratégica para essas aves é a infraestrutura ecológica natural presente na cidade.
Árvores espalhadas pelos bairros, parques urbanos, áreas de preservação permanente e cursos d’água criam corredores verdes capazes de sustentar a fauna mesmo em ambiente urbano.
Para a gerente de Arborização da Semades, Dayane Zanela, esses elementos funcionam como uma verdadeira rede de suporte para as espécies.
“Árvores, parques e corredores verdes oferecem abrigo, locais de repouso, suporte alimentar e condições ambientais favoráveis durante os deslocamentos das espécies migratórias”, explica.
Segundo ela, o planejamento urbano também vem incorporando estratégias para ampliar esse patrimônio natural.
“O município vem estruturando sua política de arborização com planejamento técnico, ampliação das áreas verdes e valorização de espécies nativas, integrando a conservação da biodiversidade às estratégias de planejamento urbano e de resiliência climática”, afirma.
Esse conjunto de iniciativas também contribuiu para que Campo Grande fosse reconhecida como Capital do Turismo de Observação de Aves.
Natureza sem fronteiras
Para Maristela Benites, acompanhar os caminhos dessas aves ajuda a compreender um princípio fundamental da natureza.
“Compreender o movimento das espécies migratórias é um bom exercício para entender que, para a natureza, não existem fronteiras políticas. O que define os deslocamentos são as condições de sobrevivência e qualidade de vida”, destaca.
Por isso, a preservação das áreas verdes urbanas tem impacto direto na sobrevivência dessas espécies.
Árvores, rios e parques funcionam como ilhas de descanso em rotas que podem atravessar continentes inteiros.
Campo Grande no centro do debate ambiental global
Toda essa riqueza natural estará no centro das discussões da COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias, que reunirá em Campo Grande cientistas, governos, ambientalistas e organizações internacionais.
Durante a conferência, devem ser debatidos temas como:
combate à captura ilegal de animais
proteção de corredores ecológicos
criação de planos de conservação para espécies ameaçadas
impactos das mudanças climáticas sobre a fauna
perda de habitat em escala global
Para a pesquisadora, sediar um evento dessa magnitude representa um marco para o município e para Mato Grosso do Sul.
“É um momento histórico para o município e o estado. A COP15 coloca Campo Grande no centro das discussões sobre ciência e política ambiental, além de permitir mostrar nossa biodiversidade e nossos biomas”, afirma.
Ela lembra que o estado reúne quatro biomas importantes — Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica e Chaco —, o que amplia o interesse científico internacional.
Além das discussões políticas e científicas, o encontro também deve mobilizar escolas, pesquisadores, universidades e a população em geral.
“É uma vitrine político-científica que permite que gestores, pesquisadores e estudantes do mundo todo conheçam de perto nossa realidade, nossos desafios e nossas belezas naturais”, destaca.
Durante a COP15, o Instituto Mamede também participará da programação científica com uma mesa temática sobre observação de aves e espécies migratórias, além do lançamento do livro “Aves do Caminho da Escola”, que conecta educação ambiental ao cotidiano das cidades.
No céu de Campo Grande, enquanto isso, a vida segue em movimento — guiada por instintos antigos, ventos favoráveis e uma cidade que, entre árvores e rios, continua oferecendo pouso seguro para viajantes alados que cruzam o planeta.


