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Meio Ambiente

Pouco conhecidos, peixes peçonhentos podem ajudar na descoberta de medicamentos

Estudo mostra 63 espécies em MS, acidentes em rios e potencial farmacêutico das toxinas

Por Kamila Alcântara | 06/03/2010 15:52
Pouco conhecidos, peixes peçonhentos podem ajudar na descoberta de medicamentos
Arraia-de-rio-de-manchas-grandes capturada por pescadores no Rio Brilhante (Foto: D.A. Lopes)

Uma pesquisa científica, conduzida por biólogos ligados a universidades de Mato Grosso do Sul, revelou a importância das 63 espécies de peixes peçonhentos, entre arraias e bagres, distribuídas nas bacias do Rio Paraguai e do alto Rio Paraná. O estudo também chama atenção para algo pouco discutido: os acidentes com esses animais são frequentes entre pescadores e comunidades ribeirinhas, mas ainda são pouco estudados pela ciência.

RESUMO

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Pesquisa realizada por biólogos de Mato Grosso do Sul identificou 63 espécies de peixes peçonhentos nas bacias dos rios Paraguai e alto Paraná, sendo 7 arraias e 56 bagres. O estudo revela que acidentes com esses animais são frequentes entre pescadores e ribeirinhos, com os bagres responsáveis por 40% das ocorrências. Os venenos desses peixes, ainda pouco explorados pela ciência, apresentam potencial para desenvolvimento de medicamentos devido a seus efeitos neuromusculares, cardiovasculares e inflamatórios. A pesquisa destaca a importância do conhecimento tradicional das comunidades ribeirinhas para o avanço dos estudos científicos na região.

O trabalho integra um capítulo do livro sobre venenos animais, assinado pelos pesquisadores Karina Keyla Tondato-Carvalho, Vinicius Renner Lampert e Douglas Alves Lopes. Segundo o levantamento, sete espécies são arraias e 56 pertencem ao grupo dos bagres, que concentra a maior diversidade desses peixes no Estado.

“São consideradas válidas para o território de Mato Grosso do Sul 63 espécies de peixes peçonhentos, caracterizadas por possuírem ferrões ou raios de nadadeiras transformados em espinhos associados a glândulas secretoras de toxinas”, descreve o estudo.

Quem conversou com o Campo Grande News foi o pesquisador Douglas Alves, professor da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul). Ele diz que essa diversidade reflete a riqueza biológica dos rios da região. “Os peixes constituem o grupo mais diversificado de vertebrados do planeta e a região neotropical concentra uma das maiores riquezas de espécies de água doce”, explica o capítulo científico.

Embora a maioria das pessoas associe acidentes apenas às arraias, os pesquisadores apontam que os bagres são responsáveis pela maior parte das ocorrências. Estudos citados no trabalho indicam que, em rios e lagos do Brasil, cerca de 40% dos acidentes envolvem mandis e bagres e menos de 5% estão ligados às arraias.

Os acidentes ocorrem principalmente durante a pesca ou ao manipular os peixes presos em redes e anzóis. “O envenenamento por peixes é comum em ambientes de água doce mundo afora”, destaca o estudo, lembrando que as lesões geralmente provocam dor intensa, inchaço e inflamação.

Pouco conhecidos, peixes peçonhentos podem ajudar na descoberta de medicamentos
Exemplar de Bagre-pintado e espinhos em posição dorsal e peitoral (esquerda) e edema e lesões causados por esta espécie (direita) (Fotos: Haddad Júnior e Lopes-Ferreira, 2023)

Mesmo com a baixa letalidade, as consequências podem ser graves. Infecções secundárias são frequentes e podem levar a complicações médicas. “As infecções bacterianas são comuns nos ferimentos e podem levar a complicações graves como amputação e sepse”, cita a pesquisa ao mencionar estudos da área médica.

No Pantanal e em regiões onde a pesca é base da economia local, esses acidentes são considerados rotina. “Os acidentes causados por peixes ocorrem especialmente em comunidades de pescadores, relacionados ao manuseio das espécies junto às redes e anzóis”, descreve o capítulo científico.

Durante a entrevista, Douglas destacou que muitos conhecimentos utilizados pela ciência partem da observação de quem vive nos rios. Segundo ele, pescadores e comunidades ribeirinhas acumulam um saber que muitas vezes antecede a própria pesquisa acadêmica.

“Essas pessoas vivem em contato direto com os rios e acabam percebendo mudanças nas populações de peixes, nos acidentes e no comportamento das espécies. Esse conhecimento tradicional ajuda a levantar novas perguntas científicas”, explica.

Para o pesquisador, esse diálogo entre ciência e saber tradicional é essencial. “Muitas vezes essas comunidades fazem observações e hipóteses a partir da experiência diária. Isso também é ciência, ainda que de uma forma diferente da ciência formal.”

Outro ponto que chama a atenção no estudo é o potencial farmacêutico dessas toxinas. Os autores destacam que os venenos de peixes são pouco explorados pela ciência, apesar de conterem compostos biologicamente ativos. “Os venenos de peixes são uma fonte amplamente inexplorada de compostos biologicamente significativos”, afirma o capítulo científico.

Pouco conhecidos, peixes peçonhentos podem ajudar na descoberta de medicamentos
Espinho peitoral bem desenvolvido de uma Jurupoca (Foto: D.A. Lopes)

Essas toxinas podem ter efeitos neuromusculares, cardiovasculares e inflamatórios, o que abre caminho para pesquisas biomédicas. “A diversidade de toxinas observada até aqui representa uma área de pesquisa ainda pouco explorada, mas com elevado potencial de bioprospecção”, destaca o estudo.

Para Douglas Lopes, o estudo também mostra o avanço da pesquisa científica em Mato Grosso do Sul. Segundo ele, universidades públicas e centros de pesquisa têm ampliado concursos e atraído novos cientistas para o Estado. “Nos últimos anos as universidades têm aberto vagas e trazido novos pesquisadores. Isso fortalece a produção científica local e aumenta o conhecimento sobre a biodiversidade da região”, afirma.

O pesquisador destaca que o Estado tem grande potencial para pesquisas em biologia e ecologia devido à diversidade ambiental, que inclui Pantanal, Cerrado e importantes bacias hidrográficas.

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