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Educação fiscal também se aprende jogando

Por Alexandre Evaristo Pinto (*) | 26/08/2026 07:30

Educação fiscal significa compreender como o Estado arrecada recursos, como esses recursos são transformados em políticas públicas, como são definidas as prioridades orçamentárias e de que maneira o cidadão pode acompanhar e controlar essas escolhas. Em última análise, trata-se de uma dimensão importante da própria educação para a cidadania.

Há, entretanto, uma pergunta que vem logo depois: como ensinar tudo isso?

Tributos, orçamento público, arrecadação, gasto público e controle social não estão entre os assuntos que, à primeira vista, despertam maior entusiasmo em crianças e adolescentes. Além disso, boa parte da linguagem tradicionalmente utilizada nessas áreas é técnica e distante da experiência cotidiana dos estudantes.

Termos como alíquota, base de cálculo, receita tributária, despesa pública, orçamento e equilíbrio fiscal podem parecer abstratos quando apresentados isoladamente. O desafio da educação fiscal é justamente transformar conceitos aparentemente distantes em experiências que façam sentido para quem está aprendendo.

Uma interessante experiência apresentada recentemente na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP mostra um dos caminhos possíveis.

Entre os dias 22 e 24 de julho de 2026, a FEA recebeu a 26ª edição do Congresso Internacional USP de Contabilidade, evento que reúne anualmente professores, pesquisadores, estudantes e profissionais para discutir alguns dos principais temas contemporâneos da contabilidade e do qual tenho a honra de ser o atual coordenador.

Na programação da área de Educação e Pesquisa em Contabilidade, foi apresentada uma experiência desenvolvida pela Secretaria da Fazenda do Estado do Paraná: a Vila do Ed, jogo criado dentro da plataforma Roblox para trabalhar conceitos de educação fiscal.

A atividade, intitulada Jogos como estratégia educacional: experiência da Sefa/PR com a Vila Ed – Jogo em Roblox para Educação Fiscal, foi apresentada por Victor de Morais Cayres e mediada pelos professores Alison Martins Meurer, da Universidade Federal do Paraná, e Eduardo Bona Safe de Matos, da Universidade de Brasília.

A escolha do Roblox é especialmente interessante. Em vez de exigir que os estudantes abandonem as linguagens e os ambientes digitais que já fazem parte de seu cotidiano para aprender educação fiscal, a experiência faz justamente o movimento contrário: leva a educação fiscal para dentro de um ambiente com o qual eles já estão familiarizados.

Segundo o Grupo de Educação Fiscal do Paraná, pesquisa realizada com mais de 17 mil estudantes da rede pública estadual apontou o Roblox entre as plataformas mais utilizadas pelo público jovem. A Vila do Ed foi desenvolvida justamente a partir da necessidade de aproximar a educação fiscal das linguagens consumidas por esses estudantes.

No jogo, os participantes precisam construir e desenvolver coletivamente uma pequena comunidade. Isso permite que questões que normalmente seriam apresentadas apenas de maneira teórica apareçam sob a forma de decisões.

Uma cidade precisa de infraestrutura. Precisa de serviços. Precisa organizar recursos. As escolhas individuais possuem consequências coletivas. E aquilo que cada participante decide fazer influencia as possibilidades de desenvolvimento da comunidade.

A tributação deixa, assim, de aparecer apenas como uma obrigação abstrata para ser percebida como parte do mecanismo de financiamento da vida coletiva. Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes da experiência.

Quando explicamos simplesmente que o Estado cobra tributos para financiar suas atividades, transmitimos uma informação. Todavia, quando colocamos o estudante diante de uma situação na qual ele precisa decidir como uma comunidade obterá recursos e como esses recursos serão utilizados, criamos uma experiência.

E informação e experiência não são exatamente a mesma coisa. A educação pode se beneficiar enormemente dessa diferença.

Jogos permitem experimentar escolhas, observar consequências, formular estratégias, errar, tentar novamente e comparar decisões. Conceitos que seriam apresentados em uma aula expositiva passam a ser percebidos dentro de determinado contexto.

Por óbvio, isso não significa substituir professores por videogames. Tampouco significa imaginar que todos os temas complexos possam ser reduzidos a jogos. Gamificação não deve ser confundida com simplificação.

O verdadeiro potencial dessas ferramentas está justamente em utilizar os recursos dos jogos, tais como objetivos, desafios, escolhas, consequências, cooperação e feedback, para estimular a aprendizagem.

No caso da educação fiscal, isso possui uma vantagem adicional. Grande parte dos conceitos que pretendemos ensinar envolve relações entre decisões individuais e resultados coletivos.

• Por que existem tributos?
• Quem financia os serviços públicos?
• Como são escolhidas as prioridades?
• O que acontece quando os recursos disponíveis são insuficientes?
• Por que determinadas despesas precisam ser financiadas coletivamente?
• Como as decisões tomadas hoje afetam as possibilidades existentes amanhã?

Essas perguntas podem ser explicadas por meio de textos e aulas. Mas também podem ser experimentadas por meio de simulações.

É nesse ponto que a iniciativa apresentada no Congresso USP de Contabilidade dialoga diretamente com a pesquisa em educação contábil. A própria área de Educação e Pesquisa em Contabilidade do congresso inclui entre seus objetos de interesse as estratégias e metodologias de ensino, as tecnologias aplicadas à educação e o desenvolvimento de novas formas de aprendizagem.

Há, portanto, um campo bastante promissor para a aproximação entre universidades e administrações públicas. As administrações tributárias acumulam conhecimento prático sobre tributação, arrecadação e educação fiscal. As universidades, por sua vez, podem contribuir com pesquisas capazes de avaliar metodologias, medir resultados de aprendizagem e aperfeiçoar instrumentos pedagógicos.

Uma experiência como a Vila do Ed não precisa terminar quando o jogo fica pronto. Ela pode se transformar em objeto de pesquisa.

• Os estudantes efetivamente ampliam sua compreensão sobre a função social dos tributos depois de jogar?
• Passam a compreender melhor a relação entre arrecadação e serviços públicos?
• Conseguem distinguir interesses individuais e coletivos?
• A experiência produz resultados diferentes de acordo com a idade dos participantes?
• Quais elementos do jogo são mais eficientes para promover aprendizagem?

Responder a essas perguntas é uma tarefa tipicamente universitária. E talvez seja justamente aí que se encontre uma das principais contribuições que as universidades podem oferecer à educação fiscal.

Não apenas produzir conteúdo, mas também investigar como esse conteúdo pode ser ensinado. Não apenas afirmar que determinada iniciativa é inovadora, mas avaliar seus resultados. Não apenas desenvolver novas tecnologias, mas compreender em quais situações elas efetivamente contribuem para a aprendizagem.

Há ainda outro aspecto importante. Durante muito tempo, educação fiscal significou predominantemente cartilhas, palestras e materiais impressos. Esses instrumentos continuam tendo sua utilidade. Mas a sociedade mudou.

As crianças e os adolescentes que hoje estão nas escolas cresceram em um ambiente marcado por vídeos, redes sociais, plataformas digitais, jogos eletrônicos, interação em tempo real e experiências imersivas.

Se desejamos que a educação fiscal alcance esse público, precisamos compreender também suas formas de comunicação. Isso não significa que a escola deva simplesmente reproduzir todos os hábitos digitais dos estudantes. Significa reconhecer que a linguagem também faz parte do processo educativo.

Um dos principais desafios da educação fiscal continua sendo romper a barreira que separa o conhecimento técnico da vida cotidiana. Como sustentei anteriormente, termos tributários e orçamentários não podem permanecer confinados aos especialistas; democratizar esse conhecimento é parte da própria missão da universidade.

A experiência paranaense mostra que essa tradução pode assumir formas inesperadas. Até mesmo um videogame pode se transformar em espaço para discutir tributação, orçamento, serviços públicos e cidadania.

Talvez uma criança não se interesse imediatamente por uma aula intitulada “Financiamento das políticas públicas”. Mas certamente compreende que uma cidade precisa de escola, hospital, ruas, iluminação e segurança. E pode compreender também que tudo isso precisa ser financiado. A partir daí começa a educação fiscal.

O grande mérito de iniciativas dessa natureza está em mostrar que ensinar sobre tributos não precisa significar decorar nomes de impostos ou conhecer regras de legislação tributária. Significa compreender a lógica da vida em sociedade. Se a educação fiscal pretende formar cidadãos, precisa encontrar formas de conversar com eles.

Às vezes, essa conversa ocorrerá em uma sala de aula. Em outras, em uma universidade. E, como mostra a Vila do Ed, pode começar até mesmo dentro de um jogo eletrônico.

(*) Alexandre Evaristo Pinto, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP (Universidade de São Paulo).

 

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