Antigos ferroviários viram guardiões de patrimônio que se deteriora na Esplanda
Complexo tem sinais de degradação, enquanto antigos trabalhadores defendem preservação do espaço histórico
Em meio à improvisação, a memória da área que iniciou o desenvolvimento de Campo Grande é guardada por um guia de turismo e um antigo maquinista. Nesta terça-feira (25), o Campo Grande News foi até a Esplanada Ferroviária e encontrou sinais visíveis de degradação causada pelo tempo.
RESUMO
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A Esplanada Ferroviária de Campo Grande apresenta sinais graves de deterioração, com telhados danificados e vagões históricos isolados devido ao apodrecimento da madeira. Antigos ferroviários e guias turísticos lutam para preservar a memória do local, que impulsionou o desenvolvimento regional, mas enfrentam o abandono de estruturas como a rotunda. A prefeitura aguarda recursos do Novo PAC para projetos de restauração, enquanto moradores lidam com a burocracia para manter as casas tombadas.
Parte do telhado estava no chão, próximo aos trilhos, após a calha ceder. O vagão que ficava exposto precisou ser isolado devido ao seu estado. Quem o observa vê com facilidade que a madeira apodreceu.
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Quando chegou ao espaço, a reportagem encontrou uma equipe da Sisep que realizava uma visita técnica. Com drone, eles avaliavam o telhado da esplanada para verificar os reparos necessários, já que o teto está com goteiras.
Durante a visita, a reportagem encontrou o guia de turismo Carlos Iracy Coelho Netto, de 67 anos. Ele cresceu escutando as histórias do avô, que por muito tempo foi ferroviário. “Meu pai faleceu muito cedo e o meu avô foi a minha referência, e ele foi até 97. E nesse convívio, as histórias dele eram em cima da ferrovia. Acaba que passa para o coração da gente, e a gente se torna essa alma do ferroviário também”.
Mesmo com a atual estrutura encontrada na Esplanada e nem sempre encontrando o museu dos ferroviários aberto, ele faz questão de manter o local no roteiro dos seus passeios. No entanto, a rotunda precisou ser retirada do trajeto.
“Se você for ali na rotunda, aquilo está abandonado há muito tempo. Um local que teria que ter sido super preservado e utilizado. Você poderia estar usando aquilo ali como um local para fazer eventos. [...] Então, isso é muito triste. Isso aqui também. Há anos que está desse jeito destelhado. Quem cuida são eles aqui [integrantes da associação dos ferroviários]. Se não tivesse essa associação aqui, talvez estaria muito mais abandonado”.
Apesar de ter morado por muitos anos na Vila dos Ferroviários, a família deixou a região em 1959. “Quando meu avô saiu em 1959 da casa, ele tentou comprar, mas naquela época a rede ferroviária não vendia. Era patrimônio da rede ferroviária, não venderia de jeito nenhum. Então ele acabou não conseguindo comprar. Ele foi para um outro local, mas ele trabalhou quase 40 anos na rede ferroviária”.
Segundo ele, o desejo de quem conviveu com o espaço enquanto ele era ativo é que seja realizado um memorial. “Tem muitas peças que estão no Iphan, tem peças que estão aqui. Sem muito investimento você pode ter um espaço onde a gente possa estar preservando. E o turista paga se tiver um ingresso, eles pagam”.

Monumento vivo
Outro que trabalha na conservação da memória dos ferroviários é Nelson Pereira de Araújo, de 66 anos. Ele foi durante anos auxiliar de maquinistas e hoje é o presidente da Associação dos Ferroviários.
“Meu pai trabalhou como troqueiro revisando os vagões, depois ele passou para a parte escriturária e aí faleceu. Eu entrei na ferrovia como auxiliar de maquinista em 84 e aposentei em 2009, 26 anos de serviço como maquinista”.
Colecionando memórias, ele compartilha que, durante seu tempo de ferroviário, participou de intercâmbios realizados na Bolívia, além das olimpíadas realizadas com os trabalhadores.
“Tivemos também na ferrovia momentos tristes, e alguns acidentes que tiraram a vida de alguns colegas, e o momento mais triste, mais triste mesmo para mim como ferroviário, para Campo Grande, foi a privatização em 96, que acabou de decretar o final, a falência da ferrovia no nosso Estado”, comenta.
Segundo ele, com a privatização, iniciou-se o processo de degradação da malha ferroviária. Em 2009, quando houve a volta do Trem do Pantanal, ele disse que a volta gerou grande expectativa entre os trabalhadores, mas que logo isso mudou.
“Com o passar do tempo, dos anos, nós começamos a enxergar que foi um trem meramente político, na época. Quando inaugurou, inaugurou o trem de passageiro, o trem do Pantanal, com a velocidade de 35 km por hora, e aí, ao longo do tempo, dos meses, foram deixando de fazer as manutenções, consequentemente, a velocidade foi caindo”.
Confira a galeria de imagens:
Outro projeto que voltou a dar esperanças foi a revitalização da Malha Oeste. “Eu fui em umas cinco audiências, com orçamento, com pessoal do governo e nada acontece. O que temos esperança, é um projeto de 2011, fazer um trenzinho de turismo daqui até o Belas Artes”, desabafa.
Enquanto os projetos não saem do papel, Nelson realiza palestras em escolas municipais e estaduais, sempre que convidado. Para que os alunos possam ter contato com a história da ferrovia, ele leva equipamentos mais leves que eram usados no trabalho.
“A ferrovia, ela era importante em qualquer setor que você pensasse de economia, passageiros, alimento, diesel, a questão do gado, era tirado de trem, que antigamente não tinha estradas, então quando enchia o Pantanal, tirava o gado, trazia aqui para o interior de São Paulo, levava aqui para o lado de Ponta Porã, quando as águas baixavam, voltava o gado para lá, então assim, a ferrovia, ela movimentou a economia do estado, ela fez alavancar, cresceu a cidade”.
Sobre o vagão deteriorado, Nelson explica que ele já foi documentado e regularizado e agora está sob a posse do Estado. “O Estado já está com projeto de reformar esse vagão. É uma expectativa muito grande, porque quando estava em perfeito estado a gente levava e trazia quando tinha evento, enfeitava com led e os turistas entravam para tirar foto”.
Enquanto aguarda a liberação do espaço, Nelson conta que os artigos históricos ficam guardados em salas da esplanada, no Dnit, no Iphan e até na Sisep. Outros itens estão alocados no museu, que recebe visitação em horário comercial de segunda a quinta-feira. Já às sextas-feiras, as visitas ocorrem por meio de agendamento.

Muita burocracia
O complexo ferroviário também tem casas tombadas que hoje são ocupadas, em sua maioria, por ex-trabalhadores da ferrovia. Em uma das casas, a reportagem encontrou Eunice Nunes, de 67 anos, esposa de um eletricista que atuava na esplanada.
Segundo ela, o maior desafio para a família manter a casa preservando a estrutura tombada é a burocracia. “Às vezes alguma coisa tem que ser mais flexível. Porque as pessoas que moram aqui são ex-ferroviários que não têm condições de vida financeira abundante. Hoje eu sou aposentada, meu esposo ainda trabalha, ele é caminhoneiro, mas não tem renda extra. [...] E a mão de obra quando se fala em patrimônio tombado é difícil você encontrar alguém para trabalhar e é difícil pagar”.
Entre as medidas para as quais ela pede flexibilização está a possibilidade de instalar equipamentos de segurança. “Aqui não posso colocar cerca elétrica. Coloquei esses arames e o Iphan não implicou, as grades eles também não implicaram”.
A aposentada relata que mora na casa há 30 anos e deve quitar o parcelamento no próximo ano. “As casas são bem antigas, é difícil para manter, para reformar. Você vai fazendo um pouquinho aqui e um pouquinho ali. Vontade de reformar e manter preservado não falta”, explica.
Eunice afirma que, para o futuro, espera que a região seja vista com mais cuidado cultural. “Eu acho que tem como melhorar. Tem pessoas interessadas aí, que estão querendo mexer. Os moradores estão bastante entusiasmados, todo mundo correndo atrás, fazendo o que é preciso fazer. Esperança, né?”
Reforma
A recuperação do Complexo Ferroviário ainda depende de etapas burocráticas. A Prefeitura de Campo Grande conseguiu prorrogar até janeiro de 2027 o convênio com o Iphan, que prevê R$ 800 mil do Novo PAC para a contratação dos projetos executivos de restauração.
A licitação, porém, ainda não foi aberta e, segundo a Sisep, o processo está em fase de ajustes técnicos. A verba não será usada diretamente nas obras, mas nos projetos que vão definir as intervenções, os serviços e os custos da futura restauração. O projeto contempla estruturas históricas como a antiga estação ferroviária, os galpões e a Rotunda.
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