Lucien Rezende defende Estado mais presente e revisão de benefícios fiscais
Candidato do PSOL também propõe ampliar serviços públicos e priorizar investimentos sociais
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Lucien Rezende, de 62 anos, produtor rural e candidato do PSOL ao Governo de Mato Grosso do Sul, defende revisão dos incentivos fiscais, equiparação salarial de professores, regionalização da saúde, implantação de cinturões verdes para pequenos produtores e maior investimento em segurança pública na fronteira. O candidato participou do Frente a Frente, iniciativa jornalística que reúne Campo Grande News, SBT/MS, TV Guanandi, A Crítica, JD1 Notícias e Correio do Estado.
O produtor rural Lucien Rezende, de 62 anos, é o candidato do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) ao Governo de Mato Grosso do Sul. Natural de Campo Grande, ele defendeu mudanças na política de incentivos fiscais, ampliação dos serviços públicos e maior investimento em educação, saúde, segurança e apoio aos pequenos produtores.
- Leia Também
- Delcídio critica gestão fiscal e aposta em tecnologia para desenvolver MS
- Trad promete rever incentivos fiscais e diz que riqueza não chegou às famílias
Lucien participou do Frente a Frente, rodada de entrevistas com os candidatos ao Governo do Estado nas eleições de 2026. A iniciativa reúne Campo Grande News, SBT/MS, TV Guanandi, A Crítica, JD1 Notícias e Correio do Estado.
A sabatina foi mediada pelo jornalista Alexandre Giachetto e contou com perguntas de Daniel Pedra, Maristela Brunetto, Marcos Anelo, Nathalia Pelzl, Carlos Guilherme e Edir Viegas. Confira a entrevista:
Alexandre Giachetto - Por que o senhor deseja ser governador de Mato Grosso do Sul?
Lucien Rezende - Primeiramente, quero agradecer pelo convite e dizer que hoje é o dia em que se comemora a democracia. É dentro dessa democracia que colocamos a nossa candidatura para fazer esse debate sobre o Governo do Estado. Queremos governar Mato Grosso do Sul para mudar a lógica existente hoje, na qual são concedidos muitos privilégios aos ricos e há muito pouco a oferecer na área social. Queremos fazer o debate para construir um governo mais humanizado, mais próximo do povo e que atenda melhor às demandas sociais.
Arrecadação e finanças públicas
Daniel Pedra, do Correio do Estado - O senhor defende uma presença maior do Estado e a ampliação dos serviços públicos. Como financiaria esse aumento de despesas em Mato Grosso do Sul, caso seja eleito?
Lucien Rezende - É uma boa pergunta. Vivemos um momento em que o próprio governo afirma que o orçamento não é suficiente. O que estamos vendo é apenas o custeio do Estado. Não encontramos obras que causem impacto ou deixem um legado.
A única obra que vemos é a ponte sobre o Rio Paraguai, que, aliás, é feita pelo Governo Federal. Isso mostra a situação das finanças.
Para melhorar, temos que discutir seriamente as isenções fiscais concedidas aos ricos. Eram R$ 8 bilhões e agora já estão chegando a R$ 12 bilhões. Se esse governo continuar, chegarão a R$ 16 bilhões em isenções.
Acredito que muitas dessas empresas não precisam de incentivos fiscais. São multinacionais. Vou dar o exemplo da empresa de celulose que foi para Ribas do Rio Pardo. O setor de papel e celulose faz planejamento. Se a projeção indica que faltará papel no mundo daqui a dois ou três anos, constroem outra fábrica.
De qualquer forma, essa fábrica viria para Mato Grosso do Sul. Viria porque Ribas do Rio Pardo tem terras propícias para a plantação de eucalipto e terras baratas. Era um conjunto de fatores que já atraía a empresa.
Conceder incentivos dessa natureza e nesse volume, dos quais até o município deixa de arrecadar, é um crime contra o Estado diante das demandas sociais que temos. Estamos percorrendo Mato Grosso do Sul e vendo as reclamações das pessoas. A riqueza produzida no Estado não está chegando à ponta, onde as pessoas vivem e onde realmente acontece a vida do sul-mato-grossense.
Daniel Pedra - E os benefícios fiscais concedidos às empresas de papel e celulose?
Lucien Rezende - Acredito que esses benefícios precisam ser revistos, porque tem que existir contrapartida. Agora, a contrapartida não pode ser o governante voar em um jatinho de luxo da JBS. Você concede um benefício à empresa e, em contrapartida, usa um jatinho dela para viajar. Isso é falta de ética, é imoral.
As contrapartidas precisam estar relacionadas às questões sociais, para atender à população em alguma demanda, como saúde e educação. Não estamos vendo isso. Eu gostaria de ver as contrapartidas, porque participei recentemente de um processo em Ribas do Rio Pardo e a contrapartida é praticamente zero.
Maristela Brunetto, do Campo Grande News - O senhor contou que sua experiência no Poder Executivo ocorreu como secretário em Ribas do Rio Pardo. Sem subestimar essa experiência, trata-se de uma cidade pequena. Assumir um Estado, com um orçamento infinitamente maior, representa um desafio também muito maior. Como o senhor imagina administrar esse orçamento? O senhor recebe apoio de lideranças nacionais do PSOL para estudar o orçamento e a distribuição da arrecadação, considerando que o custeio e a folha de pagamento absorvem praticamente tudo o que é arrecadado?
Lucien Rezende - Não é difícil, Maristela, porque toda secretaria municipal ou estadual tem um corpo de funcionários públicos de carreira espetacular. São eles que conduzem a parte burocrática.
O gestor que assume politicamente é quem dará o tom da política. Ele decidirá se será uma política para atender aos ricos, como faz o governo atual, ou para atender à área social e à grande parcela de pessoas vulneráveis que existe no Estado.
Com o corpo de funcionários públicos que temos em Mato Grosso do Sul, com bons servidores em todas as secretarias, não é muito difícil administrar.
Difícil é administrar uma farmácia ou uma pequena loja na periferia. Esses comerciantes enfrentam concorrência e pagam os impostos até antecipadamente. Isso, sim, considero difícil de administrar.
No Estado, existe todo um corpo de servidores e ainda é possível convocar pessoas com experiência para ocupar cargos comissionados e participar do processo. Portanto, não vejo dificuldade para administrar.
Meio ambiente e sustentabilidade
Edir Viegas, do JD1 Notícias - O senhor defende maior fiscalização das mineradoras na região de Corumbá, mas não estabelece quais impactos seriam considerados inaceitáveis. Seu governo estaria disposto a suspender ou impedir a expansão de uma atividade minerária se estudos apontassem risco relevante para o Pantanal ou para os recursos hídricos?
Lucien Rezende - Acompanhamos essa situação. Nos últimos anos, com o aumento do preço do ferro e do aço, vemos a BR-262 impactada por centenas de carretas transportando minério de Corumbá.
Temos conversado muito com companheiros de Corumbá, que fazem alertas sobre isso. Acredito que ninguém tenha visto fiscalização nessas mineradoras. Suspeitamos que existam muitas questões que precisam ser tratadas com transparência e apresentadas à população.
Se houver alguma situação envolvendo o meio ambiente que possa provocar algo semelhante ao que ocorreu em Minas Gerais, em Brumadinho e Mariana, não tenho dúvida de que será necessário suspender a atividade.
Se algo semelhante acontecer ali, poderá comprometer todo o Rio Paraguai e o sistema ambiental do Pantanal. Portanto, se for necessário suspender uma atividade para fazer uma revisão, isso terá que ser feito.
Sem o meio ambiente e sem essa beleza que temos, que é o Pantanal, não podemos focar apenas na riqueza e nos recursos financeiros enquanto a degradação ambiental avança.
É o que está sendo feito no Alto Taquari. Passei por lá recentemente e estão colocando máquinas até na beira do rio para plantar. Quem conhece a região sabe que, de Coxim para baixo, o rio está assoreado até chegar ao Rio Paraguai.
Isso é um crime que poucos denunciam. Em nome dos recursos, do progresso ou da produção, a situação está passando despercebida e muitas pessoas estão passando pano. Mas a realidade é séria e virá à tona. Não há como esconder porque a própria natureza mostrará o que está acontecendo.
Edir Viegas - Mesmo que fosse contra um empreendimento que gera empregos, o senhor suspenderia a atividade? Caso suspendesse, de que forma enfrentaria o desemprego até que a situação ambiental fosse resolvida?
Lucien Rezende - É o que acabei de dizer. Não podemos penalizar o meio ambiente em nome do lucro ou da produção, geralmente para proteger grandes empresários.
Sem dúvida, os trabalhadores seriam amparados e teriam proteção. Porém, não podemos, em hipótese alguma, permitir que a degradação ambiental continue avançando da forma como ocorre atualmente.
Quando eu era mais jovem, não víamos incêndios com tanta frequência no Pantanal. Hoje, percebemos que muitos desses incêndios são criminosos. Portanto, é um conjunto de fatores. Temos o fogo, as usinas que existem na região e outras atividades. Precisamos estar muito atentos a tudo isso.
Marcos Anelo, do SBT/MS - O senhor mencionou o assoreamento. Talvez o caso mais grave seja o do Rio Taquari. O que faria para resolver o problema?
Lucien Rezende: Existem estudos propondo a retirada do material que foi depositado dentro do rio pelas atividades produtivas, como terra e sedimentos.
Acredito que é necessário fazer um levantamento. Temos hoje uma atuação muito boa da PMA (Polícia Militar Ambiental). Ela trabalha e fiscaliza, mas, quando a fiscalização se transforma em valores e multas, não vejo essas penalidades serem efetivamente cobradas. Sempre aparece um padrinho político ou alguém para passar pano, e a multa não é paga.
Também precisamos valorizar o trabalho da PMA. Os policiais fazem a fiscalização, mas precisamos reunir especialistas na área ambiental para levantar as medidas necessárias para resolver o assoreamento.
Não tenho dúvida de que alguma coisa precisa começar a ser feita. A distância do Alto Taquari até o encontro com o Rio Coxim é muito grande, mas precisamos iniciar os estudos e apresentar soluções. Acredito que seria importante ter uma parceria com o Governo Federal para resolver o problema.
Carlos Guilherme, de A Crítica - Ao longo de sua trajetória e nas últimas entrevistas, o senhor afirmou que pretende valorizar os professores e realizar mais concursos. A maioria dos professores da Rede Estadual de Ensino é formada por temporários. O que faria de diferente? Essa situação é resultado da falta de prioridade política ou o governo se acomodou com a realidade atual?
Lucien Rezende - Muitas coisas estão se tornando normais em Mato Grosso do Sul. O feminicídio está sendo normalizado. Quando se fala em corrupção, as pessoas também estão se acostumando com a situação. Entendemos que precisamos fazer diferente.
Na educação, foi prometida a equiparação salarial. Todos os profissionais da educação sabem que isso foi prometido, mas não aconteceu. Agora, novamente, não haverá acordo para contemplar os profissionais com essa equiparação.
A diferença é muito grande. Um professor efetivo ganha em torno de R$ 11 mil a R$ 12 mil, enquanto o professor temporário recebe a metade. Isso não é justo.
Vou além. Não são apenas os professores. Os servidores administrativos também ganham mal. E ainda nem estou falando sobre os alunos. Basta observar o Ideb para verificar a situação de Mato Grosso do Sul. O resultado é ruim, e isso faz parte de todo um conjunto.
A população precisa começar a analisar as promessas feitas pelo governo e verificar se foram cumpridas. Na educação, no que diz respeito aos professores, a promessa não foi cumprida e não será.
Em nosso governo, queremos fazer a equiparação salarial e realizar concursos públicos, para que todos possam ter os mesmos direitos dentro da educação e as condições que o Estado pode oferecer. Não é justo tratar de forma diferente profissionais que realizam o mesmo trabalho.
Carlos Guilherme - O senhor pertence a um partido de esquerda. Um governo de esquerda pode aumentar os salários e manter uma rede com essas características sem prejudicar os alunos e os professores efetivos?
Lucien Rezende - Se você equiparar os salários, não estará prejudicando o professor efetivo. Parabéns ao efetivo, que fez o concurso e foi aprovado.
Acredito que equiparar os salários é ser justo com quem trabalha e ministra a mesma quantidade de aulas. Tanto o professor efetivo quanto o contratado trabalham. Não vejo disparidade nisso.
O que vejo é falta de vontade política para melhorar o salário de quem ensina e oferecer uma educação de qualidade, para podermos avançar no Ideb.
Tudo passa pela educação. Se você não valoriza a educação e o profissional que está ali, chegamos à situação atual. Temos muita violência e agressões. Principalmente a questão do feminicídio passa pela educação. Portanto, acredito que todos os profissionais da educação precisam ser valorizados.
Nathalia Pelzl, da TV Guanandi - O senhor defende a ampliação das escolas em período integral. Como pretende garantir que os alunos tenham atividades permanentes nesse período adicional e que esse tempo contribua efetivamente para a formação, em vez de representar apenas mais horas dentro da escola? Como viabilizaria investimentos, recursos, tecnologia e profissionais diante do impacto na folha de pagamento do Estado?
Lucien Rezende - Há cerca de 20 anos começamos a fazer esse debate e a apresentar a proposta de educação em período integral. A direita e a extrema direita sempre afirmaram que isso seria inviável devido ao custo.
Hoje, já vemos um candidato ao Senado ligado ao governo defendendo a educação em período integral em sua propaganda eleitoral. Portanto, eles já perceberam que é possível e que existem condições para fazer. Mas não queremos isso em meia dúzia de escolas. Pensamos em implantar em todas.
Morei nos Estados Unidos e pude acompanhar a rotina de crianças que saíam de casa por volta das 7h ou 8h e voltavam às 16h30 ou 17h, alimentadas e após terem realizado atividades escolares.
Não vejo isso como gasto. Vejo como investimento. Investir em educação é levar cultura, esporte e uma grade adicional de atividades.
Nathalia Pelzl - Uma de suas propostas é o programa Saúde em Casa. Na sua visão, qual problema da saúde pública de Mato Grosso do Sul esse modelo conseguiria resolver que não poderia ser enfrentado por meio do fortalecimento da estrutura que já existe?
Lucien Rezende - Foi prometida a regionalização da saúde, mas ela não foi cumprida. Assim como ocorreu na educação, o atual governo não cumpriu a promessa de regionalização.
Estamos percorrendo o Estado e conversando com as pessoas. Vemos a dificuldade de acesso e as reclamações pela falta de atendimento, inclusive de alta complexidade, nos municípios.
Imagine uma pessoa sair de Miranda e viajar em uma ambulância até Campo Grande. Acredito que a regionalização é o primeiro passo para chegar ao outro modelo que pretendemos implantar.
Não é um projeto novo. Podemos aproveitar uma experiência que já funcionou. O programa foi implantado pelo governador Eduardo Campos, em Pernambuco, e teve um resultado ótimo naquele estado.
Acredito que levar o atendimento de saúde para dentro de casa, principalmente para as pessoas com mais de 60 anos, que já são quase 400 mil em Mato Grosso do Sul, ajudaria a desafogar os postos.
Também reduziria o impacto no transporte coletivo. Hoje, a pessoa precisa sair de casa e ir ao posto de saúde de ônibus, carro ou outro meio de transporte.
Com o atendimento em casa, conseguiríamos diminuir o fluxo nos hospitais e nas unidades de saúde. É um conjunto de ações. A regionalização precisa sair do papel para podermos também implantar o Saúde em Casa e atender essa população.
Nathalia Pelzl - Como o senhor pretende implantar o programa sem retirar profissionais das unidades de saúde, que muitas vezes já enfrentam superlotação?
Lucien Rezende - Como disse no início, é necessário fazer parcerias políticas. Hoje vemos muitos prefeitos sendo atendidos por meio de parcerias eleitorais, e não políticas.
Com o Governo Federal não é diferente. Independentemente de quem seja o presidente, é preciso manter diálogo para construir parcerias políticas.
Temos um programa maravilhoso, que é o Mais Médicos. É possível utilizar esse programa, contratar mais profissionais e fortalecer o SUS (Sistema Único de Saúde), que é o melhor sistema de saúde existente.
Existem várias medidas que podem ser adotadas para chegar a esse modelo de atendimento. Se Pernambuco fez, por que Mato Grosso do Sul não pode fazer?
Daniel Pedra - Com quais recursos o senhor faria isso?
Lucien Rezende - Com os recursos que já existem. Acredito que o que está faltando é gestão.
Vou dar um exemplo. Um prefeito do interior perde a eleição e, no dia seguinte, é nomeado na Governadoria, ganhando R$ 25 mil, R$ 30 mil ou R$ 35 mil por mês. E não é apenas um.
Se o governador chamar hoje todos os comissionados para comparecer à Governadoria, eles não caberão no prédio. Parecerá que está ocorrendo uma manifestação ou uma confusão.
Só nisso, muito dinheiro vai para o ralo. Tenho certeza de que, em sua fazenda, para tirar leite, o governador não contrataria três pessoas. Contrataria uma. Mas, como o dinheiro é público, meu, seu e de todos, são contratadas centenas de pessoas com salários altíssimos.
Esse já é um recurso que poderíamos utilizar para ajudar não apenas a saúde, mas outras áreas que estão deficitárias no Estado.
Segurança pública
Marcos Anelo - “Não viaje” é uma orientação do governo norte-americano para uma faixa de 150 quilômetros na fronteira com Paraguai e Bolívia, em Mato Grosso do Sul. A frase está sendo repercutida por veículos de imprensa devido à atuação de facções criminosas nessa região. O senhor concorda com esse alerta?
Lucien Rezende - Não concordo nesses termos, vindo dos Estados Unidos. Mas precisamos cuidar da nossa fronteira, que é extensa.
Isso precisa ser feito com inteligência, aplicação de recursos e mais equipamentos para os nossos policiais. Diga-se de passagem, temos excelentes policiais civis e militares em Mato Grosso do Sul. Isso não significa que o gestor seja bom. Os policiais são bons por natureza.
Acredito que precisamos investir mais. Atualmente, existem recursos de inteligência e drones que podem ser utilizados para auxiliar os policiais na fiscalização e no combate ao crime organizado.
Nosso Estado ocupa, pelo terceiro ano, a 15ª posição na área de segurança em nível nacional. O resultado é fraco. Precisamos melhorar, investir mais e buscar equipamentos e estrutura de trabalho para os profissionais da segurança.
Não adianta ficar apenas no discurso e apresentar números na televisão. O Governo do Estado é profissional em apresentar números, mas esses dados não chegam à ponta. Quando verificamos a realidade, aquilo que é anunciado não existe.
Precisamos sair do papel e do discurso e investir de verdade na segurança. Do jeito que está, a posição de Mato Grosso do Sul poderá piorar.
As facções não param de crescer nem de agir. Precisamos agir rapidamente enquanto ainda há tempo.
Marcos Anelo - São 45 municípios total ou parcialmente localizados na região de fronteira. São 1,5 mil quilômetros de fronteira, sendo 700 quilômetros de fronteira seca. Em quais municípios o senhor agiria mais rapidamente?
Lucien Rezende - Acredito que o maior fluxo esteja em Ponta Porã, Amambai e naquela região que vai até Mundo Novo. É onde vemos uma presença maior do tráfico de drogas e uma situação mais pesada.
Existem outros municípios em que a situação não é tão perigosa. A própria polícia sabe quais são os locais mais críticos e já realiza o monitoramento.
A partir desses estudos e do conhecimento dos profissionais, podemos identificar o que precisa ser melhorado. Não tenho dúvida de que precisamos investir mais em equipamentos e inteligência. Isso é fundamental.
Carlos Guilherme - Quando se fala no PSOL e na história política de Mato Grosso do Sul e do Brasil, existe uma relação de amor e ódio por parte de alguns eleitores e até de profissionais da segurança pública. No senso comum, muitos dizem que o PSOL e outros partidos de esquerda costumam “passar a mão na cabeça de criminosos”. Como o senhor analisa essa afirmação? Qual seria o papel de um governador do PSOL diante dos problemas de segurança na fronteira?
Lucien Rezende - Acredito que isso seja folclore. Não se deve passar a mão na cabeça de pessoas que cometem atos errados e prejudicam a população.
A polícia precisa agir com rigor, dentro da lei e da democracia, respeitando os direitos humanos. Isso é importante.
Mas não podemos ignorar que somente quem está na linha de frente enfrenta a tensão de realizar esse trabalho e consegue avaliar determinadas situações.
Acredito que precisa ser um trabalho sério, respeitoso e sempre atento à defesa da população.
Desenvolvimento econômico, tecnologia e inovação
Maristela Brunetto - O senhor menciona em seu plano de governo que o Estado recebeu grandes fábricas, mas ainda apresenta muita desigualdade. Qual seria o modelo de desenvolvimento ideal? Seria necessário distribuir projetos em outras cidades, especialmente naquelas que possuem poucas iniciativas geradoras de emprego? Qual é a sua perspectiva de desenvolvimento econômico para Mato Grosso do Sul?
Lucien Rezende - Quando falamos em desenvolvimento econômico, também precisamos falar em infraestrutura.
Desde 2010, já se dizia que grandes fábricas de celulose seriam instaladas em Mato Grosso do Sul. O governo que estava no poder teve tempo para fazer um planejamento e, pelo menos, duplicar a BR-262. Isso não foi feito.
As fábricas chegaram, foram construídas e já estão em operação, mas a BR-262 está completamente impactada. Isso mostra que não houve planejamento.
Também estamos discutindo a Rota Bioceânica. Mato Grosso do Sul será um corredor dessa rota, mas não vemos, do lado brasileiro, qualquer planejamento do Estado sobre a logística necessária para atender esse corredor e atrair empresas de fora, principalmente as ligadas à tecnologia.
Santa Catarina, por exemplo, é um estado extremamente tecnológico e possui um campo maravilhoso nessa área. Em Mato Grosso do Sul, não estamos vendo isso.
Temos estradas vicinais e pontes que, em pleno ano de 2026, ainda são feitas de madeira. Basta chover para que sejam levadas pela água. Não sou eu quem está dizendo. Toda a imprensa noticia isso. Aconteceu recentemente em Corguinho, Rochedo e agora em Anhanduí.
Temos um imposto pago especificamente para atender às estradas vicinais e às pontes. É um imposto que gera uma arrecadação significativa. Quando uma pessoa vende algumas cabeças de gado, o valor já é descontado.
Portanto, existem recursos para aplicar, melhorar a infraestrutura e atrair grandes empresas. Como atrairemos empresas se não temos infraestrutura nem planejamento? Quando há planejamento, são criadas oportunidades. Não estamos vendo isso.
Mato Grosso do Sul é um Estado maravilhoso e rico, mas não está sendo contemplado com planejamento.
Maristela Brunetto - O que o Estado poderia induzir? O senhor contou que é pequeno produtor. O poder público poderia incentivar setores que dessem mais autonomia aos pequenos produtores de gado e alimentos e movimentassem a economia local, reduzindo a dependência das grandes fábricas?
Lucien Rezende - Pode. Nosso programa prevê a instalação de cinco áreas verdes, que seriam polos de produção. Queremos implantá-las em Três Lagoas, Campo Grande, Dourados, Corumbá e Ponta Porã.
O objetivo é atender aos pequenos produtores. A implantação desses cinturões verdes geraria mais renda, oportunidades e empregos.
Se você for hoje à Ceasa, verá centenas de carretas vindas do Paraná, de São Paulo e de Goiás com produtos desses estados.
Temos terras iguais ou melhores do que as desses estados, mas não existe fomento à agricultura familiar por parte do atual governo.
Por isso afirmo que é um governo cuja política está direcionada aos ricos, e não aos pobres. Queremos inverter essa lógica e valorizar o pequeno produtor com a implantação dos cinturões verdes.
Edir Viegas - Existem atualmente diversos programas de formação de trabalhadores, mas vemos pouca oferta na área tecnológica. Mesmo com iniciativas do Sebrae, da Fundação Social do Trabalho e das agências municipais, a demanda por mão de obra continua alta. Há vagas sobrando em supermercados, na construção civil e em outros setores. Como o Estado pode ajudar para que essas vagas sejam ocupadas?
Lucien Rezende - A pergunta é muito importante. Temos hoje a UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), que, acredito, está presente fisicamente em 16 ou 18 dos 79 municípios. Com a educação a distância, chega a cerca de 30 polos.
Acredito que essa presença precisa ser ampliada para levar formação à nossa juventude.
Vou dar um exemplo. Quando a fábrica foi instalada em Ribas do Rio Pardo, passou a gerar cerca de 3,5 mil empregos. Se 200 dessas vagas forem ocupadas por moradores de Ribas do Rio Pardo, já será muito.
Por que não existem mais trabalhadores locais empregados? Porque o Estado não se antecipou para oferecer formação aos jovens e trabalhadores.
Vieram profissionais de outros estados e ocuparam as vagas com melhores salários. Não sou contra esses trabalhadores. Quem trabalha precisa ganhar bem. Mas as oportunidades foram aproveitadas por pessoas de fora, enquanto os trabalhadores de Mato Grosso do Sul não tiveram acesso a elas.
Isso ocorreu porque não houve planejamento nem visão para formar os trabalhadores do Estado e oferecer a eles melhores condições de inserção no mercado de trabalho.
Alexandre Giachetto - O senhor tem um minuto para as considerações finais.
Lucien Rezende - Quero chamar o eleitor sul-mato-grossense para uma reflexão. O que mudou em sua vida nos últimos 20 anos com esse grupo político no poder?
Se sua vida melhorou, se você tem boa saúde e boa educação, se conseguiu formar seus filhos, se tem a casa que desejava e o emprego com que sonhou, continue votando neles.
Agora, se a sua situação não está assim, vote diferente. Teremos uma eleição em dois turnos. No primeiro turno, você pode votar na proposta que mais se aproxima do seu perfil. No segundo, poderá escolher entre os dois projetos que avançarem.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.

