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Fundado pela fé de costureira há 59 anos, Bazar São Gonçalo cresceu no Carnaval

Primeira loja chegou a fechar, mas reabriu na época em que a folia nos clubes era forte em Campo Grande

Por Cassia Modena | 26/01/2026 12:25
Fundado pela fé de costureira há 59 anos, Bazar São Gonçalo cresceu no Carnaval
À esquerda, a primeira placa do Bazar São Gonçalo, e à direita, a fachada instalada enquanto a loja crescia (Fotos: Arquivo da família)

Devota de São Gonçalo, protetor dos violeiros e conhecido por arranjar casamentos felizes, a costureira campo-grandense Maria Almeida Metello abriu um bazar de tecidos em fevereiro de 1967 e botou nele o nome do santo. Por coincidência, Gonçalo também era o nome de seu marido, um representante comercial que viajava bastante.

RESUMO

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O Bazar São Gonçalo, fundado em 1967 pela costureira Maria Almeida Metello em Campo Grande, começou como um pequeno negócio de tecidos e serviços de costura. A loja, que leva o nome do santo protetor dos violeiros, cresceu significativamente após abraçar o mercado carnavalesco, expandindo seu catálogo para aviamentos e artigos festivos.Atualmente, o estabelecimento está em sua terceira geração, com duas unidades na cidade. A loja original, na Rua Maracaju, ganhou um segundo piso e é administrada por Thiago, filho do atual proprietário Adilson Metello. Uma filial na Rua 14 de Julho, aberta em 2011, é gerenciada pelos irmãos Rafael e Ana Carolina, consolidando a tradição familiar no comércio local.

Entre serviços de costura e os quatro filhos do casal para cuidar, a mulher teve a coragem necessária para tocar o negócio sozinha. Tinha talento para o que era feito com as próprias mãos e para lidar com gente. Começou em casa mesmo, onde já atendia os clientes que pediam ajuste de roupas.

A residência da família ficava na Rua Maracaju, bem em frente ao Córrego Maracaju, que depois teve as águas canalizadas em Campo Grande. Mais tarde, surgiu ali um supermercado da rede Extra, hoje fechado, mas que por muitos anos foi uma referência para encontrar o Bazar São Gonçalo.

Maria passou a contar com a ajuda de Gonçalo em 1972 e as coisas ficaram mais fáceis. A parceria no comércio durou quase uma década e terminou com a morte do companheiro, em 1981. Com uma mistura de luto e cansaço, decidiu fechar a loja por alguns meses e liquidar os produtos, mas a história não termina aqui.

Reabertura

O filho caçula, Adilson Almeida Metello de Assis, resolveu reabrir o negócio por conta própria. Ele já havia aprendido várias habilidades com a mãe enquanto ajudava na loja ao lado dos irmãos. Era bom em forrar botões, por exemplo, serviço requisitado desde que virou moda, na década de 60.

Fundado pela fé de costureira há 59 anos, Bazar São Gonçalo cresceu no Carnaval
Adilson atrás do balcão da loja depois da reabertura (Foto: Arquivo da família)

O novo proprietário foi ampliando o comércio, primeiro para a área que era a varanda da casa, depois para um salão de beleza que ficava ao lado e era alugado. Continuaram morando nos fundos enquanto o bazar crescia e precisava de cada vez mais espaço.

Carnaval

A maior virada para o São Gonçalo foi o Carnaval. A folia era forte nos clubes de Campo Grande e todo mundo queria garantir a fantasia ou qualquer adereço, simples que fosse. "A gente fabricava flor, saia para o baile do Havaí, essas coisas. Aí é que inserimos essa parte de aviamentos na loja e não só os insumos, mas produto pronto também", conta.

Outro ponto importante foi a parceria de Rosane Aguni Metello, esposa de Adilson. Ela confeccionava produtos artesanais como ninguém. "Ela tem dom de fazer artes. Começou com arquinho para a primeira comunhão e foi um sucesso", relembra o marido.

Fundado pela fé de costureira há 59 anos, Bazar São Gonçalo cresceu no Carnaval
Clientes na loja colorida que desde o começo a São Gonçalo é (Foto: Arquivo da família)

Depois do Carnaval, todas as datas festivas viraram grandes oportunidades. No Natal, a loja era decorada e tinha enfeites para vender. Festas juninas e Dia das Bruxas tinham vendas especiais também.

Terceira geração

Adilson e a esposa tiveram três filhos: Thiago, Rafael e Ana Carolina. Todos cresceram na loja da Rua Maracaju.

Thiago hoje trabalha com o pai e a mãe no comércio original, que segue o mesmo endereço e ganhou um segundo piso. O filho foi se familiarizando com o negócio desde pequeno, quando ainda brincava com os botões nos corredores. Já os irmãos Rafael e Ana Carolina cuidam de uma filial aberta na Rua 14 de Julho em setembro de 2011.

Fundado pela fé de costureira há 59 anos, Bazar São Gonçalo cresceu no Carnaval
Da esq. para a dir.: Rafael, Rosane, Adilson, Maria com 93 anos, Thiago e Ana Carolina (Foto: Arquivo da Família)

No início, o medo foi que as unidades fossem concorrentes, mas o resultado o surpreendeu. "Por meio da loja do Rafael e da Ana, muita gente passou a conhecer a loja da Maracaju. Tem quem nem sabia desse endereço tradicional. Nós não perdemos clientes depois e o bazar da 14 de Julho atraiu novos clientes, foi interessante para nós", conta o proprietário.

Pandemia e produtos chineses

A emergência sanitária em torno da Covid-19 acabou por ajudar o negócio a crescer mais. Como vendem tecido e elástico, foram bastante procurados por quem confeccionava a proteção para nariz e boca no período em que não havia máscaras descartáveis à disposição no mercado.

"Foi difícil a adaptação no começo. A gente pegava os pedidos de todo mundo, saía às 16h nos carros e só parava depois das 20h. Depois é que começaram a surgir motoboys disponíveis", conta Thiago.

Fundado pela fé de costureira há 59 anos, Bazar São Gonçalo cresceu no Carnaval
Estoque de fantasias para o Carnaval 2026, na loja da Rua Maracaju (Foto: Henrique Kawaminami)
Fundado pela fé de costureira há 59 anos, Bazar São Gonçalo cresceu no Carnaval
Clientes escolhendo produtos para confecções no setor de aviamentos (Foto: Henrique Kawaminami)

As vendas por WhatsApp começaram a ser feitas durante a pandemia e foi uma praticidade que chegou para ficar. Cada loja passou a ter um funcionário dedicado às vendas on-line. Hoje, no período de crise para o Centro da cidade, onde estão as duas lojas, elas se tornaram aliadas ainda mais importantes para garantir o rendimento.

Uma dificuldade importante e anterior à Covid-19, que ainda é sentida, é com relação aos produtos chineses. Mais baratos que os nacionais, eles foram incorporados ao estoque da São Gonçalo, mas sem que os produtos artesanais e de revendedoras nacionais deixassem de ser expostos como opções, ainda que mais caras. Há público para todos eles.

Atualmente, o bazar se beneficia da valorização de produtos originais e artesanais. Aviamentos e outras matérias-primas lideram as vendas. Ao mesmo tempo, a loja vai acrescentando outras opções na prateleira, como essências para casa, por exemplo.

Próxima sucessão

Adilson destaca que nunca forçou os filhos a seguirem seus mesmos passos. "Pedi para todos estudarem e cada um se formou numa área. Vieram trabalhar comigo porque quiseram, porque gostam do que fazem", afirma.

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Filho de Thiago, o pequeno João Vicente é promessa para a quarta geração da empresa (Foto: Arquivo da Família)

Ele defende que os netos também não tenham que lidar com essa pressão. Espontaneamente, um provável sucessor da quarta geração desponta: é o pequeno José Vicente, de 6 anos, filho de Thiago. Na formatura da pré-escola, ele declarou que quer ser dono do Bazar São Gonçalo quando crescer. O avô acredita que será possível que o negócio de quase 60 anos continue caminhando por mais décadas, inclusive com a família mantendo gerações fiéis na clientela.

É gratificante continuar trabalhando aqui, em família é melhor ainda. A gente vive isso aqui. Tudo saiu daqui", finaliza Adilson.

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