Receita de família mistura churrasco e comida árabe há 39 anos na Capital
Libanês apostou em restaurante unindo tradição de seu país ao que o campo-grandense gosta
“Tem que ter churrasco com mandioca se quiser agradar o campo-grandense”, avisou a irmã do libanês Munir Saad. Ele estava na cidade há pouco tempo e planejava abrir o próprio restaurante.
RESUMO
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O Manura Churrascaria e Comida Árabe completa 38 anos em Campo Grande (MS), fundado em 1987 pelo libanês Munir Saad, que uniu o churrasco à gastronomia árabe. Administrado hoje pela esposa Neusa e pelos filhos Munir Júnior e Elias, o restaurante superou crises econômicas e a pandemia mantendo cardápio e tradição intactos. Com 30 funcionários fixos, a família planeja preservar a receita original que conquistou gerações de clientes.
Só que o imigrante sabia que coalhada, esfiha, babaganuche e toda a variedade de comida árabe servida na antiga lanchonete do Nagibão, seu irmão, também conquistaram o paladar local. Os dois chegaram a trabalhar como sócios lá.
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Com a ideia ousada de unir as duas gastronomias, Munir abriu a Manura Churrascaria e Comida Árabe em 13 de fevereiro de 1987, na Avenida Mato Grosso. A região já era bastante movimentada por comércios, escolas, vila de casas e pela Santa Casa.

Como a lanchonete do irmão adotou o apelido “Nagibão”, por causa do porte físico dele, a ideia foi seguir o mesmo estilo no nome do restaurante.
Munir também tinha um apelido: “Manura”, recebido ainda no Líbano por ser mais franzino que Nagibe. Ele veio para o Brasil com a família aos oito anos.
Pais, esposa e filhos
O novo empresário e a esposa Neusa Maria Martins Saad já tinham quatro filhos quando chegaram em Campo Grande. Antes, eles trabalhavam como professores de escola pública em Francisco Alves (PR).

A companheira conta que o motivo da mudança foi a busca por um bom lugar onde os filhos pudessem estudar e se formar. “Eles estavam crescendo e a gente tinha essa preocupação”, ela lembra.
Parte da família de Munir já morava na capital de Mato Grosso do Sul, o que animou o casal. O desafio maior veio depois, quando começaram a empresa do zero.
A esposa conseguiu uma transferência do Paraná e manteve o emprego na educação por meio período por alguns anos. Se dedicava ao restaurante nas horas restantes do dia.
Mais tarde, os pais de Munir se juntaram ao casal nos negócios. Com a matriarca libanesa Josephine, Neusa aprendeu a fazer diversas receitas árabes e se especializou em escolher a dedo os melhores ingredientes para os pratos.

“Aprendi muito também sobre a cultura árabe, toda essa tradição no comércio que veio dos fenícios”, diz Neusa, que é natural do interior de São Paulo e hoje tem 75 anos.
Crise, recuperação e outra crise
A inflação durante o Governo Collor impactou o caixa do Manura e obrigou a família de Munir a vender bens para manter o negócio aberto. Outra saída para escapar da crise foi deixar a Neusa chefiando tudo enquanto ele trabalhava como juiz de classe. Extinta anos depois, essa função se resumia a representar bares, restaurantes e hotéis em audiências e julgamentos na Justiça do Trabalho.
A esposa encarou a responsabilidade e seguiu acumulando diversas tarefas no Manura, além do cuidado com os filhos. Seu trabalho foi essencial para manter o restaurante de pé naquele período e dali em diante.
“Meu pai ajudava no horário em que podia, nós filhos também já estávamos crescidos e ajudávamos, mas praticamente quem carregou o restaurante na época foi ela”, reconhece hoje o filho Munir Saad Junior, aos 42 anos.
Quando a economia do País se estabilizou, o fundador voltou a trabalhar no restaurante. A simpatia que faz parte da personalidade do libanês retornou às mesas dos clientes. Inclusive, muitos viraram seus amigos.
“Sempre muito carismático, tratava a todos muito bem. Passava nas mesas para perguntar se estavam sendo bem atendidos, se estava faltando alguma coisa. Quando o cliente pedia alguma coisa, ele não chamava o garçom, ia buscar. Fez muitos amigos entre os clientes que tem até hoje”, atesta também Munir Junior.
O pai decidiu se aposentar em 2020, pouco antes da pandemia de covid-19 começar. Munir Junior, o irmão Elias e Neusa seguiram tocando o Manura. Os tempos de restrição vieram em seguida e impuseram uma nova crise.

A família seguiu unida nos negócios. Após mais aquele período turbulento passar, avaliam que se saíram bem. Para Munir Junior, a receita foi manter todas as operações do restaurante como eram, sem mudar nada no cardápio e no buffet de saladas e comida árabe, além de não alterar em nada a forma de servir. As únicas mudanças foram na quantidade de comida feita por dia e na ampliação do serviço de entrega em casa.
Nostálgicos com a experiência de sair para almoçar ou jantar nos tempos pré-pandemia, os clientes chegavam a elogiar. “Falavam para nós: ainda bem que vocês mantiveram tudo como era”, diz Munir Junior.
Manter a tradição
O pai segue descansando na aposentadoria, mas de vez em quando aparece no restaurante para rever os amigos clientes. Está com 82 anos e trata problemas de saúde.
Enquanto isso, Neusa segue firme no Manura. Ela continua a responsável por escolher os ingredientes, acordando cedo para isso. Na cozinha, ela é o "controle de qualidade", provando tudo e auxiliando no que é necessário.
Elias cuida da churrasqueira, deixando a carne do jeito que o campo-grandense gosta. Munir Junior compra a carne e cuida da parte administrativa. São cerca de 30 os funcionários contratados atualmente, além de outros 30 fazendo diárias em dias de maior demanda.
O principal plano para o futuro é manter a tradição. A família não pretende abandonar nem o churrasco nem a comida árabe, confiando que a mistura continuará conquistando novas gerações de clientes.
A dedicação total à única unidade que a Manura tem na cidade é outro foco. "Em 39 anos, o restaurante nunca abriu sem a presença de pelo menos uma pessoa da família aqui. Somos muito presentes no negócio. Nosso objetivo é permanecer", finaliza Munir.
Confira a galeria de imagens:
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