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Uma história de vitórias encerrada na Terra pela covid, mas não no céu

Que a homenagem à minha mãe, Luzia Morel, sirva para honrar as 2.160 vidas também levadas pela doença, até agora, no Estado

Por Lucia Morel | 25/12/2020 07:32
Minha mãe, Luzia Morel, semanas antes de ser dignosticada com covid-19. (Foto: Arquivo Pessoal)
Minha mãe, Luzia Morel, semanas antes de ser dignosticada com covid-19. (Foto: Arquivo Pessoal)

Mãe de duas filhas e seis irmãos, Luzia Morel foi levada pela covid-19 no último dia 11 de dezembro, quando outras 13 pessoas morreram em decorrência da mesma doença. Ela é uma entre outras 2.160 pessoas mortas por causa do novo coronavírus até o último dia 24 de dezembro.

Mas para mim, que escrevi a história de tantas pessoas que não resistiram à covid, escrever esta homenagem tem uma dor especial. Luzia é minha mãe. Sim, desta repórter que resolveu homenageá-la depois de ter ouvido e escrito sobre tantas famílias que sofreram a mesma perda e que vão, neste fim de ano, se alegrar menos diante de um 2020 tão trágico.

Contei um pouco sobre a vida e a morte de 36 pessoas que morreram e ouvi lamentos e choro das famílias, mas nunca pensei que em algum momento escreveria sobre minha própria mãe, com a mesma dor e o mesmo pesar que acolhi nas entrevistas de familiares.

Aos 73 anos e sem nenhuma comorbidade, minha mãe era só alegria. Nos últimos tempos era só sorrisos com a chegada da netinha mais nova, de 1 ano. Gostava de falar que “não parava de sorrir” depois que ela nasceu e foi sorrindo que a levei até o hospital no dia em que foi internada.

No dia 14 de novembro tudo já indicava que ela teria sido infectada pela covid, mas nada demonstrava que o final do tratamento terminaria com uma despedida tão dolorosa. Já internada eu a vi, conversamos e rindo, ela tentava descobrir como e onde poderia ter sido infectada. Tínhamos certeza que ela se recuperaria e passaria o Natal deste ano em família.

Com minha filha, Sara Rebeca, em outubro. (Foto: Arquivo Pessoal)
Com minha filha, Sara Rebeca, em outubro. (Foto: Arquivo Pessoal)

Não há certeza, mas tudo indica que uma única ida ao mercado, após sete meses enclausurada, a infectou. Usava máscara? Sim. Passava álcool 70%? Sim. O que pode ter havido então? Não sabemos, apenas que apesar de toda tentativa de entender como e porquê, ela se foi, após uma saída desnecessária.

Ela queria muito voltar a fazer as compras dela, escolher os produtos certos e as frutas e verduras do seu jeito. Duas semanas antes do dia 14 havia voltado a fazer caminhadas na Praça do Papa, onde não ia desde março, quando a pandemia chegou. Foi quando, antes de chegar em casa, passou em atacadista próximo e fez as suas tão desejadas compras por conta própria.

Até então, apenas eu e meu marido saíamos para as compras. Nos encharcávamos de álcool antes de entrar na casa dela e mesmo lá, não a abraçávamos ou beijávamos. Apenas após um banho.

Ocorre que numa segunda-feira, 9 de novembro, alguns sinais da covid começaram a aparecer. Na terça, ida ao médico, que receitou medicamentos para resfriado. A semana foi entre altos e baixos e no sábado, uma fraqueza generalizada e então, nova ida ao hospital e internação.

Foram 26 dias. Vinte e seis sofridos dias, sendo 5 em leito clínico, estável e com uso de oxigênio. A ida para UTI (Unidade de Terapia Intensiva) foi em 18 de novembro, sem intubação, que ocorreu apenas no domingo, após piora do quadro respiratório.

A partir daí foram derrotas e vitórias, até que Deus decidiu chamá-la, contrariando nossos pedidos e desejos egoístas para que ela permanecesse entre nós.

Filhas e filhos – Viúva por três vezes, a primeira delas enquanto cuidava dos seis irmãos mais novos, por volta dos 26 anos. A luta sempre foi para manter a família unida e não deixou, por exemplo, que os irmãos fossem adotados, mesmo passando por situações difíceis emocional e financeiramente.

A primeira filha biológica veio em 1975, que nasceu dois meses depois de enfrentar a segunda viuvez. Oito anos depois eu nasci, período em que a vida começava a se estruturar. Para ela, a mudança radical foi no final da década de 80, quando as dificuldades financeiras começaram a dar lugar à certa fartura, nunca antes vivida.

Com isso, ela conseguiu ajudar os irmãos e dar estudo para as filhas. Os anos de necessidade acabaram e ela conseguia projetar a realização de sonhos até então inalcançáveis e a desfrutar, com a família, de estabilidade. Isso foi vitória, conquistada com muito trabalho e empenho.

Com a neta, Anna e minha irmã, Luzimar. (Foto: Arquivo Pessoal)
Com a neta, Anna e minha irmã, Luzimar. (Foto: Arquivo Pessoal)

Mulher forte e de garra, ensinou a família a lutar pelo que se quer e a não abandonar os seus. A não desistir mesmo sendo muito difícil e sempre, sempre acreditar em Deus.

Cheia de fé, foi Ele quem a sustentou ao perder o terceiro marido em 2015, dois meses antes do meu casamento. “Como o Dilson me faz falta!”, sempre dizia, ao que emendava que “ele está bem”, crendo que o encontraria no céu.

E foi para lá que ela foi, depois de tantos sofrimentos e alegrias. A mim, como filha, dói não tê-la perto para ver minha filha crescer, mas me conforta saber que ela está bem, perto do Deus que, ainda em vida, ela tanto amou.

Memorial – o Natal certamente tem um quê de tristeza este ano para você, se, assim como eu, perdeu algum querido pela covid-19 – ou outra doença. Mas aqui, enquanto escrevo, homenagear minha mãe me dá um certo alento. E espero que você também o tenha.

Escrevi, neste ano, ao todo, sobre a morte por covid e a vida de 36 pessoas e espero que além de homenagem à minha mãe, esse material também sirva para honrar, nem que seja um pouquinho cada uma delas, além das demais 1.224 vítimas desse vírus.

Confira abaixo os materiais produzidos para homenageá-las. Feliz Natal!

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