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13/10/2012 19:15

A qualidade do médico no Brasil

por Florentino Cardoso e José Bonamigo

O Brasil é medalhista no número de escolas médicas. Temos a medalha de prata, com 196 escolas em atividade. Perdemos apenas para a Índia. China e Estados Unidos, países com população bastante superior a nossa - e no caso dos EUA, muito mais rico - contam com 150 e 137 escolas médicas cada. A expansão se acentuou desde a década de 90, principalmente no ensino privado, mas também no público, seja pela abertura de novas escolas, pela abertura de cursos em campi avançados de universidades públicas e a ampliação de vagas em cursos já existentes.

Muitos cursos, inclusive de instituições públicas, abrem sem hospital escola ou mesmo uma rede básica de ambulatórios para o treinamento prático. Não bastasse a expansão desordenada, vivemos uma invasão de médicos formados no exterior - vários brasileiros - estudando principalmente em Cuba e na Bolívia. Segundo estimativas do Colégio Médico da Bolívia, existem 25.000 brasileiros em cursos de medicina naquele país. Ausência de vestibular, mensalidades irrisórias e o baixo custo de vida comparado com o Brasil atraem os jovens para o eldorado boliviano.

O problema é que estas escolas têm centenas de alunos por turma e falta tudo, inclusive pacientes para o treinamento prático. A tentativa de revalidação de diploma destes candidatos a médicos revelam números alarmantes. Nossas universidades estatais tem autonomia para realizar a avaliação de egressos de universidades estrangeiras. Devido a baixa qualidade das avaliações feitas por algumas universidades e por pressão das entidades médicas o INEP criou em 2010 o Revalida, exame para unificar esta avaliação. Aderiram ao projeto piloto 37 instituições públicas de ensino superior. Na primeira edição, de 517 inscritos somente 2 foram aprovados. Na segunda edição em 2011, de 677 inscritos apenas 65 foram aprovados (9,6%). Ainda não temos data para o exame em 2012, por quê?

Hoje as escolas médicas no Brasil oferecem 16.892 vagas por ano. Nos programas de Residência Médica, padrão para formação de especialistas, temos cerca de 10.196 vagas de acesso direto disponíveis para os recém-formados.

Desconsiderando a ociosidade nos programas de residência e as desistências durante o curso, podemos inferir que apenas 60% dos médicos têm acesso à especialização. Entram no mercado de trabalho, sem treinamento adicional, mais de 6.000 médicos por ano.

O exame realizado desde 2005 pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) é prova da péssima qualidade da formação médica no Brasil. Em 7 anos 46,7% dos 4.821 alunos que realizaram o exame foram reprovados.

Como a adesão era voluntária é cabível supor que os alunos que se consideravam mais bem preparados prestaram o exame. Aguardamos os números do exame de 2012, que será obrigatório para os formados no estado de São Paulo, porém ainda não restringirá o exercício profissional em caso de reprovação.

Cabe ressaltar que o Revalida e o exame do Cremesp são provas básicas, que avaliam a capacidade de diagnóstico e tratamento de doenças frequentes. Muito diferentes dos exames de seleção para a Residência, que têm caráter eliminatório e são mais abrangentes e complexos.

Este contingente de médicos mal formados, sem especialização, entra no mercado de trabalho e nele permanece exercendo a profissão por cerca de 40 anos. Muitas vezes não sabe coletar a história clínica nem examinar o paciente. Solicita exames além do necessário, pois não soube chegar ao diagnóstico durante a consulta.

São médicos que não sabem interpretar os exames e terminam por encaminhar o paciente para recursos de maior complexidade, superlotando hospitais e pronto-socorro, abarrotados de casos que deveriam ter sido resolvidos no posto de saúde.

Não existem duas medicinas. Os que defendem a abertura indiscriminada de novas faculdades de medicina com o argumento de ampliar o acesso da população aos médicos, ou como ouvimos frequentemente para “formar médicos para o SUS”, são os responsáveis pela precarização da saúde dos brasileiros e pelo desperdício dos insuficientes recursos que nosso sistema de saúde dispõe.

Está instalado o SUS pobre de resolubilidade para os mais carentes. Enquanto isso os políticos vão consultar nos hospitais privados e nos grandes hospitais públicos universitários, onde só entra médico com título de especialista.

*José Bonamigo, clínico e hematologista, é tesoureiro da Associação Médica Brasileira.
*Florentino Cardoso, cirurgião oncológico, é presidente da Associação Médica Brasileira.

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