O dia em que a morte perdeu o argumento
Caro(a) conviva,
Existe um domingo que mudou tudo. E a maioria de nós acorda nesse mesmo domingo, todo ano, pensando no almoço.
Não estou reclamando do almoço. A mesa farta, a família reunida, o chocolate que sobra para o dia seguinte, tudo isso tem o seu valor. Mas há algo acontecendo por cima da festa que a gente deixa escapar entre um prato e outro. Algo que, se a gente parasse um instante para olhar de frente, mudaria não apenas o domingo, mudaria a semana inteira. Transformaria o modo como a gente acorda na segunda-feira.
A Páscoa não é uma data. É uma afirmação.
E é a afirmação mais ousada que o Ocidente já ouviu.
Deixe-me tentar dizer isso com a simplicidade que o tema merece.
Em algum momento, num domingo de manhã há dois mil anos, um homem que havia sido executado publicamente, humilhado, abandonado, enterrado, não estava mais no túmulo.
Isso é tudo.
E ao mesmo tempo, isso é demais.
Porque muda a gramática da existência. Transforma o que a gente pode esperar da vida. Modifica o peso do sofrimento, o sentido da perda, a última palavra sobre qualquer história que parece ter terminado mal.
A ressurreição não é um detalhe teológico reservado aos estudiosos. É uma declaração sobre a realidade. Sobre o que é possível. Sobre o que vence no final.
Confesso que já deixei esse acontecimento encolher dentro de mim.
Não de uma vez, aos poucos, como acontece com tudo que a gente deveria guardar com cuidado. A Páscoa foi virando calendário. O calendário foi virando feriado. O feriado foi virando folga. E a folga, como se sabe, a gente preenche com qualquer coisa para não ter que ficar parado demais.
Parado demais é perigoso. Porque quando a gente para, começa a pensar. E quando começa a pensar de verdade, a pergunta aparece sozinha:
Eu estou vivendo como alguém que acredita na ressurreição?
É uma pergunta incômoda. O melhor tipo de pergunta.
Porque há uma diferença enorme entre conhecer o evento e deixar o evento te conhecer.
Dostoiévski colocou na boca do príncipe Míchkin, em O Idiota, uma observação que nunca me saiu da cabeça: que a beleza salvará o mundo. A frase é estranha. Parece ingênua. Mas Dostoiévski não era ingênuo, era alguém que havia sido condenado à morte, levado ao pelotão de fuzilamento, e perdoado no último segundo. Ele sabia, na carne, o que significa receber vida onde só havia morte.
Eu penso nisso quando me pego vivendo como se o medo fosse o argumento final. Como se a última palavra sobre mim já estivesse dada. Como se certas histórias não pudessem ser reescritas.
A ressurreição de Jesus é, antes de qualquer coisa, um protesto contra essa lógica.
É o anúncio de que a morte, em todas as suas formas, não apenas a biológica, não tem a última palavra. Que o fim que parecia definitivo não era o fim. Que existe uma força operando na realidade que é maior do que o túmulo.
E o túmulo, conviva, assume muitas formas na vida cotidiana.
É o relacionamento que a gente já declarou morto e não sabe mais como tocar.
É o projeto que ficou engavetado porque uma derrota convenceu a gente de que não valia a pena.
É a alegria que foi murchando devagar, tão devagar, que um dia a gente olhou para dentro e achou normal não sentir quase nada.
É a fé que virou hábito. O amor que virou rotina. A vida que virou gestão e performance.
Isso tudo é túmulo. E a Páscoa fala diretamente para cada um desses lugares.
Machado de Assis, que nunca foi muito cristão, escreveu, com a ironia suave que só ele tinha, sobre a nossa tendência de nos acostumarmos com aquilo que deveria nos surpreender. A gente se acostuma com o extraordinário até que ele pareça ordinário. E aí vive o extraordinário como se fosse burocracia.
É o que fazemos com a ressurreição.
Transformamo-la em doutrina e doutrina, por mais verdadeira que seja, não aquece. Não move. Não tira ninguém de dentro do próprio túmulo.
O que move é o encontro. E o Evangelho da Páscoa é cheio de encontros. Maria Madalena no jardim, chamada pelo nome. Os discípulos na estrada de Emaús, com o coração ardendo sem saber por quê. Tomé, que precisava de provas e as recebeu sem julgamento.
Em cada um desses encontros, a ressurreição não é anunciada como argumento.
É reconhecida como presença.
Essa é a diferença que quero deixar aqui, antes do chocolate acabar e a segunda-feira chegar.
Há uma distância enorme entre saber que Jesus ressuscitou e viver como alguém que foi tocado por isso. Entre celebrar a Páscoa e deixar a Páscoa celebrar algo dentro de você.
A ressurreição não é uma informação para ser arquivada. É um fogo para ser mantido aceso, no meio da semana, no meio do cansaço, no meio das histórias que ainda parecem estar no sábado, naquele tempo suspenso entre a morte e a vida nova.
O domingo chega. Sempre chegou.
A pergunta é se a gente está desperto quando ele aparece.
Feliz Páscoa, não apenas de chocolate e almoço, mas de vida que recomeça onde você menos esperava.
Se te incomodar, funcionou.
Pense nisso!
(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e psicólogo.
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