Perdoar para existir
Há experiências que não apenas nos ferem - elas nos reorganizam. Depois delas, algo muda na forma como habitamos o mundo: o tempo se torna mais pesado, as relações mais cautelosas, o futuro menos aberto. Não se trata apenas de dor, mas de uma reconfiguração silenciosa da existência.
É nesse nível que o perdão precisa ser pensado hoje: não como gesto moral, nem como virtude religiosa, mas como possibilidade existencial. Porque há um ponto em que a questão deixa de ser o que nos fizeram - e passa a ser o que isso fez de nós.
A vida contemporânea, com sua velocidade e exposição constantes, intensifica esse problema. Tudo é registrado, lembrado, compartilhado. As feridas não desaparecem; elas circulam. E, nesse movimento, corremos o risco de nos tornarmos aquilo que nos aconteceu. A identidade começa a se fixar na dor, como se ela fosse o último critério de verdade. Mas o sujeito não se reduz à sua ferida.
Como lembra Paul Ricoeur, filósofo contemporâneo, a identidade humana é narrativa: ela se constrói na forma como interpretamos nossa própria história. Isso significa que o passado não é um bloco imóvel. Ele permanece aberto a reconfigurações de sentido. E é justamente aí que o perdão se torna possível - não como esquecimento, mas como transformação daquilo que lembramos.
Perdoar, nesse horizonte, não é absolver o outro. É libertar-se de uma posição na qual o outro continua a nos determinar. Pode parecer estranho, mas há uma espécie de vínculo invisível que nos prende àquilo que nos feriu. A repetição mental, o retorno constante à cena, o desejo - às vezes silencioso - de que tudo tivesse sido diferente. Esse movimento cria uma forma de dependência: seguimos ligados ao acontecimento, mesmo quando queremos superá-lo.
A psicanálise descreve bem esse fenômeno. O sujeito não sofre apenas pelo que aconteceu, mas pela impossibilidade de simbolizar plenamente o ocorrido. Algo insiste, retorna, ocupa espaço. E, nesse ponto, o perdão pode ser entendido como um trabalho de reinscrição: dar outro lugar ao que não pôde ser elaborado.
Não se trata de negar a gravidade da experiência. Há feridas que são profundas, injustiças que são reais, danos que não podem ser revertidos. O perdão não apaga isso. Ele não corrige o passado. Ele opera em outro nível: o da relação que mantemos com o que aconteceu. Por isso, perdoar não é obrigatório. Há tempos distintos para cada sujeito. Há processos que não podem ser apressados sem se tornarem ainda mais violentos. O perdão imposto é apenas mais uma forma de silenciamento. Mas quando ele acontece - e isso não pode ser programado - algo se desloca.
O passado deixa de ocupar o centro absoluto. Ele não desaparece, mas perde sua função dominante. O sujeito recupera uma margem de liberdade diante da própria história. E essa liberdade não é abstrata: ela se manifesta na possibilidade de desejar novamente, de confiar, de construir. Perdoar é, nesse sentido, uma decisão sobre o futuro.
Não no sentido de um ato voluntarista ou heroico, mas como um movimento pelo qual o sujeito recusa ser definido exclusivamente pelo que sofreu. É um gesto discreto, muitas vezes silencioso, mas profundamente transformador: a passagem de uma existência organizada pela ferida para uma existência aberta ao possível.
Em um tempo que tende a absolutizar a memória - e, com ela, o ressentimento -, o perdão aparece como um gesto contraintuitivo. Ele não nega a justiça, mas a desloca. Não ignora a dor, mas recusa sua tirania. Talvez seja isso que torna o perdão tão raro - e tão necessário. Não porque resolva tudo, mas porque permite algo fundamental: que a vida não se encerre naquilo que a interrompeu.
(*) René Dentz, psicanalista, Pós-Doc pela Freiburg Universität, na Suíça, Professor de Filosofia da PUC-Minas, Autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, Comentarista da Rádio Itatiaia e Pai da Sofia e da Beatriz.
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