ACOMPANHE-NOS    
ABRIL, DOMINGO  05    CAMPO GRANDE 28º

Artigos

Por favores, não me bajule!

Por Por Fabiano Ricardo de Oliveira Bellesia* | 18/01/2012 11:30

A bajulação e o favoritismo se fazem presentes em todos os setores da sociedade ao redor do mundo, particularmente nas organizações públicas. A verdade é que nunca foi feita uma estimativa do prejuízo causado por tais práticas, seja pela dificuldade de sua aferição, seja pela maneira velada em que são desempenhadas. Nas palavras irretocáveis de François La Rochefoucauld: "A bajulação é a moeda falsa que só circula por causa da vaidade humana". Em outras, palavras o bajulador alimenta-se da soberba dos homens.

A definição dos termos faz-se necessária para que tenhamos a precisa noção do significado tratado neste texto. De acordo com o dicionário, favoritismo é a "inclinação a acolher ou amparar favores injustos, ilegais. Proteção por influências escusas ou pessoais." Já o termo bajulação vem do Latim bajulare, de bajulus, “o que leva a carga para outro, mensageiro”.

Falando em outros povos, o povo romano utilizava-se do brocardo arcaico: obsequium amicos, veritas odium parit que significa que “a adulação faz amigos, a verdade inimigos”. Mesmo em épocas tão remotas já se constatava que há maior dificuldade para se entender com as pessoas usando apenas a verdade. Mas também sabiam que veritas filia temporis, “a verdade é filha do tempo”. Ou seja, que o decorrer do tempo acaba revelando a realidade e deixando os bajuladores expostos.

Destarte que o artífice da bajulação vale-se de múltiplos comportamentos para perpetrar seu intento. Cite-se o cenário em que um verdadeiro corajoso insurge sua voz contra a opinião da maioria, contra a massa que a corrobora [a opinião formada] de maneira frenética. Certamente neste momento, o bajulador se levantará e com ele, seu tom. Começará a evocar princípios, por vezes, caducos, sem muita elaboração, mas que se fazem de domínio popular: frases feitas, de efeito; bordões, clichês. Na mente bajuladora a endossar velhas idéias, um só intuito: o de auferir parco reconhecimento sob a forma de aplausos mecanizados. Não há em seu comportamento nenhum compromisso com a busca pela verdade real, existe tão somente o interesse de agradar àqueles que futuramente favorecer-lhe-ão.

Entre bajulador e bajulado há um círculo vicioso: o bajulado, por ser destinatário dos afagos do bajulador e sentindo-se na obrigação de retribuir a atenção dispensada, unge o bajulador com premiações sutis: os favores. O bajulador, na ânsia de angariar mais benessies, intensifica sua atitude de apologia junto ao bajulado. Assim, bajulação e favoritismo conspiram em uma síntese sinérgica contra o novel princípio da eficiência, trazido pela Carta da República de 88. Neste ponto, o leitor mais atento atinge a constatação lógica de que esse binômio maligno é um câncer que corrói a qualidade dos serviços públicos e privados; produz implacavelmente seus efeitos mesmo sobre àqueles alheios à relação, trazendo desmotivação, insegurança e alienação funcional nas repartições.

Enganam-se aqueles que acreditam serem esses os únicos prejuízos causados por condutas tendenciosas dessa natureza. A senda ilegítima da bajulação passa necessariamente pela preterição e, não raras vezes, apropriação de idéias. O valor das idéias é aferido não por seu conteúdo, viabilidade ou inovação; idéias são acatadas ou rejeitadas de acordo com a sua origem. Se a mente genitora pertencer a um favorito será acatada com louvor, senão é sumariamente rejeitada sem maiores considerações. Ocorre que tal rejeição atinge sua configuração mais demoníaca quando se dá somente em caráter temporário; até cair no esquecimento a sua origem verdadeira, momento em que o bajulador poderá apropriar-se dela livremente para então reapresentá-la com alguma modificação para tentar descaracterizar o plágio. É aqui que fica mais evidente a necessidade de se registrar as idéias bem como seus idealizadores, a fim de evitar condutas tão danosas ao serviço público e à iniciativa privada.

Outro fenômeno a reportar é o que se dá pelo princípio conservativo da austeridade, criação didático-pedagógica aqui utilizada com o único condão de facilitar o entendimento. Segundo este princípio ficto, a soma de todas as ações positivas no campo da generosidade de uma pessoa tende a uma constante. Se o bajulador em sua conduta esperada direciona vultosas quantias de generosidade a um único destinatário, geralmente um superior hierárquico, o que ocorrerá com os demais agentes, mormente clientes e colegas de serviço, além de eventuais subordinados? Haverá generosidade para eles também?

Longe de serem "filantropos do ego", esses parasitas acabarão, mais cedo ou mais tarde, cobrando o pagamento pelos serviços prestados. Impossível acreditar que tal manifestação de apreço, sem qualquer justificativa lógica, é despretensiosa, desprovida de interesses secundários. É certo que, durante a leitura dessas linhas, algumas pessoas identificaram-se com um ou outro lado. Ora por se colocarem na posição de bajuladores, ora por detectarem em seu círculo profissional arautos de suas próprias pessoas. Lamento, mas está é a precisa intenção deste texto. Olhem-se, percebam a patética situação ilustrada e, se cabível, riam de si mesmos, pois ridend o castigat mores, "com o riso se castigam os [maus] costumes".

(*) Fabiano Ricardo de Oliveira Bellesia, 33, é analista de sistemas pela UFMS, mestre em Ciência da Computação e acadêmico de Direito.