ACOMPANHE-NOS    
JUNHO, DOMINGO  26    CAMPO GRANDE 25º

Beba das Crônicas

Primavera entre os dentes, narrativa sobre o pai que não tive

Por André Alvez | 15/08/2021 12:25

O que restou não foi o silêncio, mas o som triste de um piano fúnebre. Quando meu pai morreu, senti não apenas a perda de um ente querido, mais a do companheiro e meu melhor amigo.

Aprendi tanto com ele que agora sinto obrigação de passar adiante para meus filhos e para quem mais quiser ouvir.

Meu pai me ensinou a andar, agarrou meus braços suspensos pelo ar e arrastou meu corpo, fazendo meus pés sentirem a segurança necessária para os primeiros passos.

Foi ele que não se importou com meu choro quando caí da bicicleta. Calmo e sereno, manteve no rosto o riso perene, apoiou minhas mãos junta às suas e enxugou as lágrimas que insistiam rolar no meu rosto infantil; não reclamou nem deu bronca, apenas me ergueu do solo e insistiu para que continuasse, até aprender, e eu sorri um riso de criança, satisfeito ao me deparar com o orgulho estampado em seu semblante tão logo terminei a primeira volta.

Ah, o seu semblante feliz diante da minha conquista ainda vive na minha memória. Meu pai falava com os dois olhos e ouvia o som exato do meu pensamento.

Com o punho fechado, tentei sua mesma manobra ao empinar a pandorga; um leve toque para baixo, puxando a linha, primeiro para o horizonte, depois na vertical, com força, dando linha depois e puxando novamente, conduzindo no ar a guerreira de seda, rabiola e bambu e ele satisfeito ao meu lado, mais que um pai, um amigo criança.

Quando caí doente, não saiu do lado da minha cama, não despregou os olhos de mim, vigilante, cuidadoso, amoroso. Até hoje sinto suas mãos passeando em meu rosto de um lado para o outro e essa simples lembrança ainda hoje me causa conforto.

Já na adolescência, de repente tudo se transformou, o rosto fervia, a puberdade ganhava espaços a cada palmo do meu corpo. Antes do desespero, ouvi dele palavras que me trouxeram a calma necessária para absorver entender todas aquelas mudanças.

Nem mesmo na fase rebelde ele deixou de me acompanhar. E o fazia de forma voluntária, sem queixas, por prazer. A primeira namorada gostou mais dele do que de mim e eu não sabia de qual dos dois sentia mais ciúmes.

Achava estranho seu jeito de se vestir: calça jeans surrada e camisa de algodão, das mangas curtas e com bolsos, exatamente iguais às que hoje uso.

Aos domingos jogávamos bola de manhã e à tarde íamos ao Morenão ver o Operário jogar, bem perto da piscina da Universidade Federal onde ele, com total apego e paciência, me ensinou a nadar.

O avanço da idade não lhe retirou a juventude, a vontade de viver. Meu pai sempre foi jovial, tanto que não reparei quando ele começou adoecer. Pra mim era impossível que qualquer doença ousasse enfrentá-lo. Acho que ele também pensava assim, “vai passar”, dizia no sorriso de sempre, sorriso que aos poucos foi se apagando, como o sol no entardecer.

Da última vez que conversamos, não falamos sobre a doença, mas não pude deixar de perceber um riso estranho nos seus olhos, algo de despedida, como se confessasse que o maior temor que sentia não era ir embora, mas me deixar sozinho.

E uma força estranha se apossou de mim, não sai mais de perto do seu leito, só queria que ele não sentisse dor. Ouvi o último suspiro como uma sentença de breve adeus e depois fechei seus olhos para nunca mais. Restou a escuridão das noites vazias e escuras, sem a presença do meu pai.

E agora as paredes da nossa casa me apertam, um silêncio monstruoso invade as frestas da porta indo de encontro à dor que arde no meu peito.

O que sinto, versos não conseguem descrever: imensa saudade, vazio, dor de solidão e uma lágrima de fogo descendo pela minha face...

Encerro aqui a história que gostaria que fosse verdadeira.

Para meu desapontamento, o pai acima descrito não é o meu, já que o destino, na forma de impenetráveis mistérios, nos separou logo que nasci. Ele ainda vive e nos vemos com pouca frequência, relação muito mais de amigos distantes do que de pai e filho.

Restou-me a lição de como não agir. Tento criar meus filhos para quando eu me transformar em poeira, se lembrem de mim com saudade e carinho.

Do meu pai, não restaram mágoas (embora ainda entre os dentes seguro a primavera), revoltas ou traumas, apenas o vazio e o desejo escondido que as coisas fossem diferentes, que ao menos um pouco do acima descrito tivesse de fato acontecido.

Não foi assim, jamais será, o tempo não volta.

Que pena pai, que pena.

Nos siga no Google Notícias