A comida queimada
Toda família tem a comida queimada da mãe.
Aquele prato que chega à mesa com gosto de queimado, e que ninguém, nem o pai, nem os filhos, nem o convidado de ocasião, tem coragem de comentar. Come-se calado. Elogia-se o tempero.
Repete-se, inclusive, para provar que não queimou. E o que se protege ali não é o jantar: é a ficção de que a mãe nunca erra. Uma família só dura enquanto sustenta essa ficção. No dia em que alguém disser “está queimado”, a mesa inteira desaba, e não sobra prato, não sobra mãe, não sobra casa é o fim do confort food.
O Supremo Tribunal Federal serviu, na terça-feira, o prato mais queimado dos últimos anos. E por quase quatro horas, onze pessoas comeram, ruminaram aquilo.
Reparem no que a câmera pegou, porque a câmera não perdoa ninguém. A mão que amassa uma folha que não precisava ser amassada. O copo d’água levado à boca tarde demais, quando a voz já tinha falhado.
O dedo apontado na cara de um colega. Dedo apontado na cara é coisa de cozinha, de briga de irmão, não é coisa de tribunal. E aquele silêncio de três segundos, longo como reza, em que um ministro olhou para o outro e os dois souberam, ao mesmo tempo, que a mentira tinha acabado.
Porque houve mentira. Cinco vezes se negou. Cinco notas oficiais. Cinco vezes a palavra “ilação mentirosa”, e reparem na escolha do adjetivo, porque ninguém enfeita uma negativa que seja verdadeira. Verdade não precisa de enfeite. Verdade é seca.
E aqui eu preciso ser honesto, e a honestidade sempre estraga a piada: eu queria rir. Passei o dia querendo rir. Mas um homem que nega cinco vezes não é um homem forte. É um homem apavorado. Ninguém nega cinco vezes por arrogância; nega-se cinco vezes porque, entre a primeira e a segunda, já se percebeu que não há mais volta, e cada negativa nova é só o tropeço de quem corre no escuro de uma casa que conhece bem.
Depois veio o tio.
Toda ceia tem o tio. Aquele que, contrariado, vê que a discussão vai fechar contra ele, empurra a cadeira, agarra a travessa com as duas mãos e anuncia que vai embora, levando o pavê. E aqui a língua faz sozinha a piada que nenhum cronista teria a ousadia de inventar: o tio pediu vista. Pediu, literalmente, o pavê, que todos sabem, desde criança, ser para ver, não para comer.
Levou embora a sobremesa da Corte sob a desculpa de examiná-la melhor, e os que tinham vindo para comer ficaram olhando o lugar vazio na mesa, de garfo na mão, com fome marcada para sei lá que data. Não houve grito. Houve só o som da cadeira arrastando, que é o som mais violento que existe numa casa.
E havia, como há sempre, a irmã, a de sangue, que cresceu naquela casa, comeram daquela mesa e carrega o mesmo sobrenome de todos os que ali gritavam. É por isso que a vergonha dela era a mais abissal de todas: ninguém se envergonha de estranho. Envergonha-se de sangue.
Ela votou, hesitou, mudou de posição, procurando a palavra que devolvesse a compostura à mesa, e o que se via no seu rosto não era constrangimento de quem não pertence, mas a lucidez terrível de quem pertence e, justamente por isso, enxerga a família inteira como ela de fato é.
Era a única, entre os onze, que parecia envergonhada não do que os outros pensariam. Envergonhada do que eles eram. E, embora nada dissesse, tinha nos olhos a expressão de quem já havia entendido, antes de todos, a verdadeira natureza daquela cena. Só que ainda não é hora de dizer o que ela viu.
Mas eu menti para você. Ou melhor: contei só metade, que é a forma educada de mentir.
Porque nenhuma família abastada, como a do SFT, briga assim por causa de comida. Ninguém arrasta uma cadeira daquele jeito, ninguém aponta o dedo na cara de um irmão, por conta de um pavê, ou de um prato queimado. O que está na mesa não é o jantar. É o inventário.
Entre 2028 e 2030, três daquelas onze cadeiras vagam. Talvez quatro. E com ela o inventário, o espólio que dependerá de quem se sentar na cabeceira em janeiro de 2027 e assinará a partilha. Não importa de que lado venha; importa que virá, e que todos ali sabem a data.
E aqui, enfim, posso dizer o que a irmã viu, e por que baixou os olhos. Aquilo não era um jantar estragado, um pavê mal-comido. Era um velório. Um velório de defunto vivo, porque a mãe daquela família, a instituição que os pariu a todos e cujo sobrenome todos carregam, ainda respira no quarto ao lado, e respira alto o bastante para ouvir cada palavra.
O que estava sobre a mesa não era comida: era o corpo, era a república. E os irmãos, em vez de comer, mediam o caixão. Choravam, brigavam e repartiam a herança de alguém que ainda escutava, pela parede, o próprio choro. A comida não tinha queimado por descuido. Tinha queimado porque ninguém, na cozinha, estava mais preocupado com o jantar; estavam todos ocupados demais dividindo o que sobraria depois dele.
Não há indecência maior do que essa: chorar um morto que ainda respira. E a única que teve a coragem de se envergonhar foi a irmã, resignado pela voracidade da cena.
O jantar foi adiado. Os pratos continuam servidos, o queimado continua no fundo da panela, e todos nós, duzendo e quatroze milhões de convidados de ocasião, que vamos sentar-nos de novo, pontualmente, para elegantemente comer o jantar queimado e nos conformarmos. Porque no Brasil o melhor antídoto para o erro não é a verdade ou a correção, mas a amnésia. Vivemos de polêmica em polêmica sem perder o entusiasmo.
E é aqui, meu caro leitor, que eu preciso lhe fazer a única pergunta que interessa, agora que estamos só nós dois e a mesa está posta. Em quantos jantares você já esteve?
Quantas vezes você mastigou o queimado, elogiou o tempero e repetiu o prato, no escritório, na diretoria, na sala de reunião, na sua própria casa, sabendo exatamente o gosto que aquilo tinha? Nós não assistimos ao Supremo. Nós nos reconhecemos nele. A tragédia daquela vida privada é também a nossa!
E o escândalo verdadeiro não é que eles tenham comido calados, nem que estivessem repartindo a herança de uma mãe que ainda respira. É que nós continuamos sentados à mesa até o fim, não por respeito, não por educação. Mas porque também estávamos esperando a partilha e, para alguns, a sua parte.
(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e doutor em psicologia.
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