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Cidades

De antibióticos a analgésicos, famílias peregrinam atrás de medicamentos em MS

Entre os motivos, estão a guerra na Ucrânia, licitações desertas e também falta de matéria-prima

Por Lucia Morel e Cleber Gellio | 21/04/2022 12:25
Desabastecimento ocorre tanto na rede privada quanto na pública. (Foto: Henrique Kawaminami)
Desabastecimento ocorre tanto na rede privada quanto na pública. (Foto: Henrique Kawaminami)

A falta de medicamentos de primeira utilidade como antibióticos e analgésicos está latente tanto na rede pública quanto na privada. Seja amoxicilina, azitromicina ou dipirona injetável, o quadro é o mesmo: quase zeradas nas unidades de saúde e também nas farmácias.

Nesta semana, o Cosems (Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Mato Grosso do Sul) alertou sobre a ausência de alguns remédios considerados essenciais, citando ibuprofeno, nimesulida, amoxicilina com clavulanato, losartana, dexametasona injetável e loratadina.

Na cidade de São Gabriel do Oeste, a 140 km de Campo Grande, por exemplo, o estoque está bem reduzido de amoxicilina com clavulanato e azitromicina. “Procuramos outros fornecedores, mas também não possuem. Já recebemos um comunicado do Conselho de Farmácia sobre o desabastecimento. Estamos fazendo o que está ao nosso alcance, mas os fornecedores não possuem”, comentou a secretária de Saúde, Francine Basso.

Entre os motivos apontados para o desabastecimento, estão licitações desertas, interrupção do fornecimento pela empresa licitada, que alegam falta de matéria-prima e também a guerra na Ucrânia. Esta última causa dificuldade nas importações e aumento no valor dos insumos usados na fabricação das medicações.

Nacionalmente, a situação também é crítica e o Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde) encaminhou ofício ao Ministério da Saúde relatando o caso e nele, apontou a falta de três medicamentos específicos: dipirona injetável, ocitocina e neostigmina, isso em 23 estados do Brasil.

Aqui em Campo Grande, o pai Lucas Castro, de 24, peregrinou em busca de azitromicina para a filha Marina, de 9 anos de idade. Com Srag (Síndrome Respiratória Aguda Grave), a pequena precisava do medicamento que não foi encontrada na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) da Vila Almeida, nem da do Bairro Nova Bahia. Somente no posto 24 horas do Bairro Tiradentes é que Lucas conseguiu o antibiótico.

Várias pessoas com receitas de medicamentos em mãos em frente à farmácia do posto 24 horas do Bairro Tiradentes. (Foto: Henrique Kawaminami)
Várias pessoas com receitas de medicamentos em mãos em frente à farmácia do posto 24 horas do Bairro Tiradentes. (Foto: Henrique Kawaminami)

“Moramos no Jardim Carioca. Saímos cedo de casa atrás do medicamento e só encontramos agora”, disse à reportagem por volta das 11h de hoje.

Na farmácia em frente ao local, o técnico farmacêutico Antônio Martins de Souza Filho, de 54 anos e há 35 atuando na área, confirmou a falta dos remédios. “Principalmente os antibióticos amoxixcilina e azitromica começam a faltar. Percebemos isso há cerca de 40 dias”, comentou, lembrando que os principais substitutos também acabam ficando com baixo estoque, como o Cefaclor, que pode ser usado no lugar da amoxicilina.

A mãe Cristina Fai, 39, procurou várias farmácias em busca de amoxicilina para a filha de dois anos de idade e encontrou o medicamento em apenas uma. "Procurei em três lugares e só achei na última, que foi onde a pediatra disse para eu ir", comentou, lembrando que a médica já havia dito que o medicamento estava em falta.

Complexo - Segundo o presidente do Cosems, Rogério Leite, que é secretário de saúde de Corumbá, a situação é complexa. “Além de ser um reflexo da pandemia de covid-19, que exigiu altas demandas na indústria farmacêutica, muitos medicamentos estão com baixa produção, pois há componentes que são importados e a importação do medicamento supera o valor máximo de venda, ou seja, o custo da produção supera o da arrecadação”, analisa.

Sobre a dipirona monoidratada injetável, usada em ambiente hospitalar, Leite comentou que já está em falta em vários hospitais, inclusive, particulares. “Há um risco iminente de desabastecimento nacional. Realizamos um levantamento e cerca de 94% dos municípios de MS já estão com falta de determinadas medicações.”

A Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) de Campo Grande informou que “hoje, o estoque de medicamentos do município está 90% abastecido”. Também informou que “existem algumas faltas pontuais em decorrência da indisponibilidade no mercado, atraso de entrega, entre outros problemas licitatórios”. Especificamente sobre os antibióticos, “há uma indisponibilidade generalizada por conta da alta procura e indisponibilidade de matéria-prima”.

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