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Cidades

Governo quer meio bilhão do Discord após morte de adolescente em MS

Ação foi anunciada nesta quarta-feira após tentativa frustrada de acordo para aumentar proteção na plataforma

Por Ângela Kempfer | 26/08/2026 16:28
Governo quer meio bilhão do Discord após morte de adolescente em MS
Policiais durante Operação Lívia, contra crimes cometidos na plataforma Discord (Foto: Divulgação)

O Governo Federal decidiu levar à Justiça ação contra o Discord e pede R$ 500 milhões por danos morais coletivos à plataforma, que passou a ser alvo de investigação nacional após a morte de Lívia, de 13 anos, em Naviraí, a 359 quilômetros de Campo Grande.

RESUMO

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O Governo Federal ajuizou ação civil pública contra o Discord exigindo R$ 500 milhões por danos morais coletivos, após fracassar a tentativa de firmar um acordo extrajudicial com a plataforma. O caso teve origem na morte de Lívia, de 13 anos, em Naviraí (MS), em julho, e na posterior Operação Lívia, que revelou uma rede nacional de recrutamento e manipulação de crianças em plataformas digitais.

A ação civil pública foi anunciada nesta quarta-feira (26) pelo ministro Jorge Messias, da AGU (Advocacia-Geral da União). Além da indenização, o governo quer obrigar a empresa a mudar procedimentos para cumprir as regras brasileiras de proteção de crianças e adolescentes.

Pouco mais de um mês depois da morte da adolescente em Naviraí, o caso que começou como uma investigação policial no interior de Mato Grosso do Sul agora está na origem de uma disputa judicial de meio bilhão de reais entre o governo brasileiro e uma das maiores plataformas de comunicação digital do mundo.

Segundo Messias, o valor de R$ 500 milhões considera dez infrações que o governo atribui à plataforma, calculadas em R$ 50 milhões cada. A ida à Justiça ocorre depois de fracassar a tentativa de fechar um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com a empresa.

O caminho até a cobrança milionária começou em Mato Grosso do Sul. Lívia foi encontrada morta em 22 de julho, em Naviraí. Mensagens encontradas após a morte levantaram a suspeita de que a menina estivesse sendo pressionada e manipulada por integrantes de um grupo virtual. Naquele momento, a própria autenticidade das conversas ainda estava sob investigação.

A apuração policial avançou e revelou algo maior. Em 4 de agosto, a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul deflagrou a Operação Lívia, que identificou uma organização com atuação nacional suspeita de recrutar crianças e adolescentes em plataformas digitais, submetê-los a violência psicológica, incentivar automutilação e induzir vítimas ao suicídio.

Integrantes do grupo chegaram a criar uma chave Pix para Lívia e enviaram dinheiro para que ela comprasse uma gilete usada em automutilação, sem conhecimento da mãe. Computadores, celulares e outros equipamentos foram apreendidos para identificar novos envolvidos e possíveis vítimas.

A investigação de Mato Grosso do Sul ganhou dimensão nacional e passou a alimentar também o debate sobre a responsabilidade das plataformas.

Governo quer meio bilhão do Discord após morte de adolescente em MS
Uma das mensagens encontradas no celular da adolescente após a morte em Naviraí (Foto: Reprodução)

Em 12 de agosto, a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) determinou a suspensão das transmissões ao vivo e de recursos semelhantes de vídeo do Discord em todo o Brasil. A agência afirmou ter encontrado falhas nas medidas usadas pela empresa para prevenir violações graves contra crianças e adolescentes.

A decisão atingiu justamente uma das ferramentas relacionadas aos episódios investigados. Desde 17 de agosto, recursos como o "Go Live" e chamadas de vídeo em tempo real estão indisponíveis aos usuários brasileiros. Mensagens de texto e comunicação por voz continuam funcionando.

O Discord reagiu. A empresa classificou a suspensão como "prematura" e afirmou que já havia retirado do ar o servidor privado relacionado ao caso de Lívia antes da determinação da ANPD.

A plataforma também argumentou ao governo que parte dos acontecimentos que antecederam a morte da adolescente poderia ter sido articulada em outros aplicativos, citando Telegram e TikTok. A alegação não afastou, porém, as cobranças sobre os mecanismos de segurança existentes dentro do próprio Discord.

Governo quer meio bilhão do Discord após morte de adolescente em MS
Itens apreendidos mostram teor supremacistas de grupo que usava a plataforma (Foto: Divulgação)

De negociação a processo

Antes de recorrer à Justiça, governo e Discord negociavam mudanças nas regras de funcionamento da plataforma.

A proposta era estabelecer obrigações por meio de um TAC, incluindo medidas para melhorar a verificação de idade e impedir que crianças e adolescentes fossem expostos a conteúdos ligados a automutilação, suicídio e outras formas de violência.

Os planos apresentados pela empresa foram consideradas insuficientes pelo governo, e a negociação terminou sem acordo nesta quarta-feira. Com isso, a AGU optou pela ação civil pública.

Messias afirmou que a iniciativa foi tomada por orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e acusou a plataforma de oferecer proteção insuficiente a usuários vulneráveis.

Enquanto essa disputa começa em Brasília, a investigação criminal que deu origem à pressão sobre a plataforma segue outro caminho. Ela busca identificar quem participou da rede descoberta a partir da morte de Lívia e se há outras vítimas.