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Capital

“Extremamente cruel”, diz irmão após indiciamento de médico por feminicídio

Polícia concluiu que Fabíola Marcotti foi assassinada e marido segue preso preventivamente

Por Anahi Zurutuza e Clara Farias | 17/08/2026 18:05
“Extremamente cruel”, diz irmão após indiciamento de médico por feminicídio
João Jazbik Neto, de 78 anos, ao deixar o Fórum de Campo Grande preso, depois de passar por audiência de custódia no sábado (15) (Foto: Juliano Almeida)

José Flávio Marcotti, irmão da fisioterapeuta Fabíola Marcotti, classificou como “extremamente cruel” o crime que terminou com a morte dela, em Campo Grande. A declaração foi feita após a Polícia Civil concluir o inquérito e apontar que a mulher de 51 anos foi vítima de feminicídio, afastando a hipótese inicial de suicídio.

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A Polícia Civil de Campo Grande concluiu o inquérito sobre a morte da fisioterapeuta Fabíola Marcotti, 51 anos, e apontou feminicídio, afastando a hipótese inicial de suicídio. O marido, o cardiologista João Jazbik Neto, 78 anos, foi preso preventivamente. Laudos do Instituto de Criminalística e do Imol confirmaram o crime em contexto de violência doméstica. A defesa mantém a versão do investigado e nega as acusações.

O irmão da fisioterapeuta elogiou o trabalho da equipe responsável pela apuração. “Dra. Analu [Lacerda Ferraz], junto com a equipe de peritos da Polícia Civil, fizeram um trabalho sensacional no sentido de desvendar a morte de minha irmã”, declarou José Flávio.

O médico cardiologista João Jazbik Neto, de 78 anos, marido da fisioterapeuta e investigado pela morte, foi preso preventivamente na sexta-feira (14) por força de mandado expedido pela 2ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande. Segundo a Polícia Civil, a prisão ocorreu após a conclusão das perícias técnicas, que reuniram elementos considerados suficientes pela investigação para comprovar a materialidade do feminicídio.

A conclusão encerra uma investigação iniciada depois que Fabíola foi encontrada morta, na manhã de 18 de maio, na chácara onde vivia com o marido. A ocorrência foi registrada inicialmente como possível suicídio, mas inconsistências identificadas durante as diligências fizeram a Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) passar a investigar a hipótese de feminicídio.

Um dos elementos que já havia colocado em dúvida a versão inicial era o laudo necroscópico. O exame apontou que os peritos não encontraram vestígios característicos de disparo com a arma encostada ou à curta distância, como fuligem, queimaduras nos cabelos e partículas de pólvora impregnadas ao redor da lesão na cabeça da vítima. Naquele momento, porém, o documento não determinava quem havia feito o disparo nem estabelecia se a morte tinha sido homicídio ou suicídio. A causa da morte foi descrita como traumatismo cranioencefálico provocado por projétil de arma de fogo.

“Extremamente cruel”, diz irmão após indiciamento de médico por feminicídio
Viaturas da Deam na chácara onde fisioterapeuta foi encontrada morta (Foto: Maya Severino/Arquivo Campo Grande News)

O mesmo laudo registrou três hematomas no corpo da fisioterapeuta. Um deles, com aproximadamente oito centímetros, estava na região do peito. Os outros foram identificados na mão direita e na parte da frente da coxa direita. A perícia não apontou quando nem de que maneira essas lesões foram provocadas.

A cronologia registrada no celular de Fabíola também entrou na investigação. Conforme informações do inquérito divulgadas anteriormente pelo Campo Grande News, o Copom (Centro de Operações da Polícia Militar) foi acionado às 10h33 do dia da morte. Quatro minutos depois, às 10h37, uma mensagem foi enviada pelo celular da fisioterapeuta e o aparelho ainda registrou movimentações até as 10h47. A sequência passou a integrar a reconstrução dos acontecimentos feita pelos investigadores.

Durante as diligências, também foram ouvidas testemunhas e analisados aparelhos celulares apreendidos. Na nota divulgada nesta segunda-feira (17), a Polícia Civil informou que os laudos do Instituto de Criminalística e do Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal) afastaram categoricamente a hipótese de suicídio e confirmaram, segundo a investigação, que Fabíola foi vítima de feminicídio em contexto de violência doméstica e familiar.

A delegada da Deam afirmou à reportagem que o conjunto probatório contra João Jazbik é sólido. “Foi provada toda dinâmica do crime, feitas várias simulações. [O inquérito] está completo e com vários laudos”.

Antes da conclusão do inquérito, familiares já relatavam que Fabíola queria deixar o relacionamento. O irmão afirmou anteriormente ao Campo Grande News que ela dizia não conseguir sair sozinha, havia deixado de trabalhar, dependia financeiramente do marido e chegou a chorar durante uma chamada de vídeo ao pedir ajuda para deixar Campo Grande. Os relatos da família fizeram parte do contexto investigado.

Mais detalhes sobre as circunstâncias do assassinato ainda não foram divulgados.

“Extremamente cruel”, diz irmão após indiciamento de médico por feminicídio
Fabíola Marcotti morreu aos 51 anos (Foto: Arquivo pessoal)

Defesa mantém versão – A defesa de João Jazbik afirmou que o inquérito policial é um procedimento inquisitivo, fase em que ainda não há contraditório nem exercício pleno do direito de defesa.

Segundo o advogado José Belga Trad, caso uma eventual denúncia seja recebida pela Justiça, será aberto prazo para apresentação de resposta à acusação, quando a defesa poderá apontar possíveis nulidades processuais e solicitar produção de provas e contraprovas.

A defesa informou ainda que Jazbik “se mantém firme na sua versão” e que “lamenta todo tipo de exploração enviesada da tragédia”.

Família rebate defesa – A família rebateu o argumento. Em nota pública divulgada nesta segunda-feira, a família sustentou que a conclusão sobre o feminicídio não resultou de “especulação, pressão familiar ou exposição midiática”, mas do trabalho técnico desenvolvido ao longo de meses de investigação. Segundo o documento, a evolução das provas periciais levou as autoridades a afastarem a hipótese inicialmente apresentada de suicídio.

A família também destacou que não pretende antecipar o julgamento de Jazbik e reconheceu que o investigado tem direito à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.