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Campo Grande, Sábado, 22 de Setembro de 2018

27/03/2018 16:16

Investigação sobre acidentes aéreos é cheia de erros, afirma defesa

Para a polícia, acidentes foram causados por fraudes na manutenção

Geisy Garnes
Para a defesa, o pouso forçado do avião em que estava a família de Angélica e Luciano Huck foi causa por falhas de operação (Foto: Fernando Antunes/Arquivo) Para a defesa, o pouso forçado do avião em que estava a família de Angélica e Luciano Huck foi causa por falhas de operação (Foto: Fernando Antunes/Arquivo)

Diante dos laudos que apontam falhas na manutenção de peças de aeronaves como a causa para três acidentes aéreos em Mato Grosso do Sul, o advogado Nelson Araújo Filho, representante da Hora (Hangar, Oficina e Recuperação de Aviões), da MS Táxi Aéreo, e de sócios e funcionários das empresas, conversou com o Campo Grande News e contestou a versão apresentada pela polícia sobre os casos.

Segundo o advogado, as acusações feitas contra os clientes são “provas baseadas em erros”. “Na prática é inviável um avião decolar com peças defeituosas”, defendeu Araújo Filho. Na conversa com a reportagem, o advogado rebateu os resultados dos laudos divulgados pela Deco (Delegacia Especializada de Repressão do Crime Organizado) sobre os acidentes que mataram o advogado Marco Túlio Murano e o piloto Genêse Pereira, em dezembro de 2014, sobre o desastre que vitimou o piloto Marcos David Xavier, em setembro de 2016, além das causas para o pouso forçado da aeronave em que a família dos apresentadores Luciano Huck e Angélica estava, em maio de 2015.

Ao contrário do que apontou a perícia, a queda da aeronave Cesna 206, que transportava Marco Túlio e o piloto Genêse, Nelson afirma que não houve falha na manutenção da asa do avião por parte da oficina Hora. O advogado confirmou que em 2005 a aeronave sofreu um acidente e foi reformada pela empresa, como é previsto em lei. Segundo ele, em 2008, o avião passou por inspeção e foi liberado pelo Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) para voltar a operar.

Para a polícia, foi uma peça “artesanal” usava para emendar as asas nessa reforma que causou a queda em 2014. A peça foi apreendida pela Deco, mas conforme Nelson, mesmo sem o laudo pronto, os técnicos da Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) que foram ao local do acidente não encontraram o mesmo problema entre os destroços. “Os técnicos fizeram a vistoria e não encontraram essa peça. Nunca vimos ela”, pontua.

A defesa afirma ainda que a última manutenção feita pela Hora na aeronave foi em 2010 e que depois disso as inspeções e reparos passaram a ser feitos em uma oficina de São Paulo. Para a equipe contratada pela defesa, há erros também na perícia apresentada pela polícia sobre a morte de Marcos Xavier, piloto do avião de prefixo PT-VKY, modelo Embraer EMD-810 Sêneca III, que caiu em setembro de 2016 no Pantanal. “Uma manobra brusca, feita voluntariamente, acabou rompendo os cabos de comando e quebrando a ponta das asas”, alegou o advogado.

Para a polícia, foi o rompimento dos cabos que fizeram o piloto perder o controle do avião, que foi se desfazendo no ar. Conforme as investigações, o avião pilotado por Marcos Xavier passou por dois acidente não notificados a Anac, que geraram manutenção ilegais.

“Constatamos que houve acidente anterior com essa mesma aeronave e a manutenção foi feita sem controle específico. No caso dos cabos, pode ser que haja lançamentos de manutenção sem ela ter sido de fato realizada”, explicou a delegada Ana Cláudia Medina em entrevista ao Campo Grande News.

Ficha da última inspeção feita pela Hora no avião do advogado Marco Túlio, em 2010 (Foto: Geisy Garnes) Ficha da última inspeção feita pela Hora no avião do advogado Marco Túlio, em 2010 (Foto: Geisy Garnes)
Documentos para a liberação da Cesna 206 após a reforma. em 2008 (Foto: Divulgação)Documentos para a liberação da Cesna 206 após a reforma. em 2008 (Foto: Divulgação)

Angélica e Luciano Huck - Sobre o pouso forçado do avião modelo Turbo Hélio Carajá, que trazia a Campo Grande os apresentadores Luciano Huck e Angélica, seus filhos e duas babás, no dia 24 de maio de 2015, a defesa manteve a versão de que o acidente aconteceu por falha do piloto. “O avião que caiu comprovadamente, pela indústria e pelo próprio Cenipa, voa com um motor só. É um bimotor, acabou o combustível de uma das asas, o motor correspondente parou, mas o outro estava funcionando, ele é um motor poderosíssimo, todo o mercado sabe”, destacou o advogado.

“Não foram problemas mecânicos, a operação dele que foi complicada”, destacou. Mesmo confirmando que o liquidômetro - o marcador de quantidade de combustível em cada asa - estava instalado de forma errada, o advogado alegou que a peça não impedia o voo. “O piloto tinha mais de 100 horas de voo com a aeronave, se fizesse fosse um problema grave ele teria relatado antes”.

Segundo Nelson, o piloto poderia ter feito uma operação chamada de ‘alimentação cruzada’, que transferiria o combustível de uma asa para a outra. No entanto, na época do acidente, a FAB (Força Aérea Brasileira) divulgou que a manobra foi realizada, mas não resolveu o problema.

A perícia - Para a reportagem, o perito criminal Domingos Sávio Ribas, explicou que a peça responsável pelo acidente do advogado Marco Túlio foi examinada por técnicos da Cenipa e só depois foi repassada à Deco.

Ainda segundo Ribas, a manobra apontada pela defesa de fato aconteceu, mas em virtude ao travamento das roldanas dos comandos das asas.

“A manobra da outra aeronave foi devida ao travamento das roldanas dos comandos das asas. Com isso e a falta de manutenção dos cabos de comando os mesmos se romperam por fadiga. Houve então o travamento dos comandos em ação de rolagem da aeronave, que virou de barriga pra cima. A estrutura das asas, que também estavam com manutenção precária, não suportou, causando o acidente”, detalhou o perito.

A investigação - Outros pontos da investigação deflagrada pela Deco também foram contestado pela defesa. Nelson afirmou que nenhuma peça irregular foi apreendida na oficina Hora e que o “sucatão” fechado na última fase da Operação Ícaro na empresa tinha juntamente a finalidade de guardar partes de avião que não seriam mais utilizadas.

“As peças que estavam ali tinha mais condições de ser utilizadas. Aquele espaço era justamente para o descarte, como determinado pela própria Anac”.

Nelson alegou que os problemas apresentados nas aeronaves era anotados, mas a polícia aponta que as anotações eram feitas em cadernetas paralelas e não nas oficiais. 

À reportagem, a delegada responsável pelo caso detalhou que várias dessas cadernetas foram apreendidas durante as fases da Operação Ícaro e não foram reconhecidas pela Anac como originais.

Cadernetas que a Deco diz serem ilegais (Foto: Geisy Garnes)Cadernetas que a Deco diz serem ilegais (Foto: Geisy Garnes)
Cadernetas onde problemas com a aeronave devem ser notificados, também segundo a polícia (Foto: Geisy Garnes)Cadernetas onde problemas com a aeronave devem ser notificados, também segundo a polícia (Foto: Geisy Garnes)

Operação Ícaro - Com objetivo de apurar as causas de acidentes em Mato Grosso do Sul, a Deco deflagrou a Operação Ícaro em setembro de 2015. Na época foram 20 policiais e dois fiscais da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), para cumprir seis mandados de busca e apreensão, em residências, oficina aeronáutica e no hangar do aeroporto Santa Maria. Durante as investigações, a Polícia Civil descobriu que acidentes com três aviões em Mato Grosso do Sul aconteceram por falhas em peças modificadas irregularmente ou reutilizadas em aeronaves que passaram por manutenção em oficinas no Estado.

Em dezembro de 2014 a aeronave Cesna 206 caiu na região de Jaraguari, matando o advogado Marco Túlio Murano Garcia e o piloto Genêse Pereira, de 44 e 55 anos. No dia 24 de maio de 2015, o monomotor modelo Turbo Hélio Carajá, transportava os apresentadores Luciano Huck e Angélica, os filhos e duas babá, e precisou fazer um pouso forçado em uma fazenda próxima a rodovia MS-080. Pouco mais de um ano depois, Marcos David Xavier morreu após o avião que pilotava cair na região do Pantanal sul-mato-grossense.

Matéria alterada para correção de informações a pedido do entrevista às 14h28 do dia 28 de março.

 



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