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Capital

Pioneira da PM feminina, subtenente assassinada construiu carreira desde 1988

Marlene, da 3ª turma da corporação, morreu fardada; namorado é suspeito e foi preso

Por Gabi Cenciarelli e Clara Farias | 06/04/2026 15:47
Pioneira da PM feminina, subtenente assassinada construiu carreira desde 1988
Marlene foi uma das pioneiras da Polícia Militar feminina no estado (Foto: Redes Sociais)

A subtenente da PM (Polícia Militar), Marlene de Brito Rodrigues, de 59 anos, foi morta a tiros enquanto estava fardada, no horário de almoço, dentro de casa, nesta segunda-feira (6), em Campo Grande. Pioneira na corporação, ela integrou uma das primeiras turmas femininas da PM em Mato Grosso do Sul.

RESUMO

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Marlene de Brito Rodrigues, subtenente da Polícia Militar de 59 anos e pioneira na corporação, foi morta a tiros dentro de casa, em Campo Grande, na segunda-feira (6). O namorado, Gilberto Jarson, foi preso após apresentar versões contraditórias. Ele tem antecedentes por roubo, homicídio e violência doméstica. O caso é investigado como suspeita de feminicídio, que seria o primeiro em Campo Grande e o nono em Mato Grosso do Sul em 2025.

Marlene ingressou na Polícia Militar no dia 1º de setembro de 1988, fazendo parte da 3ª turma feminina do Estado, em um período em que a presença de mulheres na instituição ainda era limitada. Durante a trajetória, ela fez parte da CIPMFlo (Companhia Independente de Polícia Militar Florestal), hoje conhecida como Polícia Militar Ambiental , onde tem registros em serviço.

Ao longo de décadas de serviço, construiu carreira sólida na corporação. Após se aposentar, voltou à ativa por designação, mantendo o vínculo com a atividade policial.

Pioneira da PM feminina, subtenente assassinada construiu carreira desde 1988
Marlene na década de 1990, quando fez parte da PMA (Foto: Redes Sociais)

Colegas que trabalharam com ela destacam o pioneirismo e a dedicação. A policial militar Erli Varoni, que atuou ao lado de Marlene desde o início da carreira, relembrou a convivência.

“Eu a conheço desde quando ela ingressou na PM. Trabalhamos juntas na Polícia Militar Ambiental, na época Companhia Independente de Polícia Militar Florestal, sendo das primeiras mulheres a servir naquela unidade, em 1994”, contou.

Segundo ela, a parceria se estendeu por anos. “A Marlene era uma pessoa radiante, por onde passava, espalhava alegria, uma excelente profissional, sempre muito prestativa,” disse.

A colega também destacou o lado pessoal da subtenente. “Era uma mãe forte e guerreira, uma pessoa iluminada”, afirmou.

Erli lembrou ainda que as duas estiveram juntas recentemente. “Há menos de um mês fomos homenageadas em um evento da PMMS. E hoje estamos nos despedindo dela de uma maneira tão trágica”, completou.

Pioneira da PM feminina, subtenente assassinada construiu carreira desde 1988
Marlene era descrita como "radiante" por amigos (Foto: Divulgação)

A trajetória é lembrada por amigas como marcada por força e independência. A amiga Maria de Fátima Lopes, que conhecia Marlene há mais de 30 anos, conta que recebeu a notícia com incredulidade. “Meu filho me mandou mensagem e eu não acreditei. Quando eu vi que era ela, não dá pra acreditar. Não tenho palavras”, disse.

Segundo ela, a subtenente levava uma vida discreta e sempre foi batalhadora. “Ela criou os filhos sozinha, lutou muito. Era uma pessoa tranquila, calma, muito alegre, extrovertida, nunca teve problema com ninguém”, afirmou.

A relação com o atual companheiro, no entanto, não era de conhecimento de pessoas próximas. “Eu nem sabia que ela estava casada. Quando vi a reportagem, me assustei e fui ver se era ela mesmo”, contou.

Pioneira da PM feminina, subtenente assassinada construiu carreira desde 1988
Gilberto saindo preso do local do crime (Foto: Paulo Francis)

A última vez que as duas se encontraram foi após Marlene retornar ao trabalho. “Ela falou que não queria ficar parada, que ficar em casa era muito cansativo. Disse que era bom voltar a trabalhar, se ocupar”, relembra.

O colega de farda Fernando Silva, subtenente da Polícia Militar, relembrou a convivência desde os cursos de formação. “Conheci a Marlene em 1998, no curso de sargentos, e depois voltamos a estar juntos em 2005, no aperfeiçoamento. Era uma policial valorosa, sempre dedicada ao trabalho e ao servir. Perdemos não só uma subtenente, mas uma mulher digna, honesta e uma excelente cidadã sul-mato-grossense”, afirmou.

Já a tenente-coronel Cleide Maria destacou o lado humano e a presença constante da colega ao longo da carreira. “A Marlene foi uma pessoa incrível, que só fez o bem. Uma militar extremamente comprometida. Estou na Polícia há 23 anos e, durante toda essa trajetória, ela sempre esteve ao meu lado da mesma forma: presente, verdadeira, torcendo e rezando para que minha caminhada fosse sempre de sucesso”, disse.

Segundo Cleide, a subtenente tinha um olhar atento ao ambiente e às pessoas. “Em todos os lugares onde estive, fosse na Capital ou no interior, ela ajudava a transformar o ambiente de trabalho, sempre com um olhar humano. Era mais que uma ‘mãezona’ na PM, cuidava de todos com um zelo que lembrava o de uma ‘avó coruja’”, relatou.

Pioneira da PM feminina, subtenente assassinada construiu carreira desde 1988
Tenente Coronel Cleide ao lado de Marilene (Foto: Redes Sociais)

A oficial também destacou o carinho e o incentivo constantes. “Ela nunca poupava palavras de apoio. Sempre dizia ‘amo você, conta comigo’, ‘você é maravilhosa, guerreira’. Era uma grande motivadora, alguém que fazia a gente acreditar no próprio potencial”, afirmou.

Cleide lembrou ainda da alegria e da presença marcante da colega. “Já consigo imaginar o sorriso fácil dela, com aquela gargalhada única. Nas solenidades, ela chegava registrando tudo, com muito orgulho de pertencer à polícia, fazendo fotos com todos e eternizando momentos”, disse.

“Fará uma falta imensurável. A PMMS nunca mais será a mesma. Lamentamos profundamente essa partida, mas honraremos sua memória com respeito e gratidão”, completou.

Pioneira da PM feminina, subtenente assassinada construiu carreira desde 1988
Marlene foi descrita como radiante pelos colegas (Foto: Divulgação)

O crime - Marlene foi encontrada morta com um ferimento causado por disparo de arma de fogo no pescoço, dentro da casa onde morava, no Conjunto Habitacional Estrela d’Alva I.

No local, conforme apurado pela reportagem, o namorado, Gilberto Jarson, apresentou versões contraditórias sobre o ocorrido. Inicialmente, afirmou que a subtenente teria tentado tirar a própria vida com um revólver da corporação e que, ao tentar impedir, segurou a mão dela no momento do disparo.

A versão, no entanto, entrou em contradição com outros relatos e com mudanças no próprio depoimento. Testemunhas indicam que ele foi encontrado com a arma em mãos, enquanto em outro momento alegou que o revólver estava no chão.

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Arma e munições recolhidas no local (Foto: Paulo Francis)

Diante das inconsistências, Gilberto foi preso e encaminhado à delegacia. Ele possui antecedentes por roubo, homicídio e violência doméstica.

A delegada adjunta da DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), Analu Ferraz, informou que não havia registros anteriores de violência envolvendo o casal. No entanto, segundo ela, os elementos colhidos até o momento são suficientes para que o caso seja investigado como suspeita de feminicídio, com o homem sendo ouvido nessa condição.

O caso segue em investigação para esclarecer as circunstâncias da morte. Se o crime for confirmado como feminicídio, este será o primeiro registro em Campo Grande e o nono em Mato Grosso do Sul neste ano.

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A Central 180 funciona 24 horas, de graça, e a ligação pode ser anônima. Em caso de emergência, procure a polícia pelo 190. Violência contra mulheres, crianças, idosos ou qualquer pessoa não pode ser silenciada.

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