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Capital

Protesto pede fim da impunidade a professor acusado de estupros em academia

Para quem estava na manifestação, a morosidade da Justiça desencoraja vítimas de abuso de relatarem os crimes

Por Lucia Morel e Ana Lívia Tavares | 04/11/2021 15:42
Com cartazes e clamor, familiares se reuniram e se emocionaram em protesto. (Foto: Kísie Ainoã)
Com cartazes e clamor, familiares se reuniram e se emocionaram em protesto. (Foto: Kísie Ainoã)

A demora numa solução efetiva no caso de supostos abusos sexuais de professor de capoeira contra alunos em academia de Campo Grande motivou protesto esta tarde em frente ao Fórum, onde cerca de 50 pessoas se reuniram para cobrar celeridade e ainda, lembrar de uma das vítimas, Raul Bartzik, de 18 anos, que morreu no mês passado.

Para quem estava na manifestação, a morosidade da Justiça desencoraja vítimas de abusos a relatarem os crimes e ainda, gera um sentimento de impunidade. Em fala aos manifestantes, um rapaz todo de preto lembrou que uma das frases constantes de Raul era: “alguém tem que parar esse cara”, referindo-se ao professor.

Para o primo de Raul e também vítima do professor, rapaz de 19 anos, a impunidade e a desesperança na Justiça foi o que fez o jovem tirar a própria vida no começo do mês passado.

O primo ficou com vergonha de expor o nome, mas conversou com a reportagem e acredita que Raul “não conseguiu lidar com o sofrimento provocado pelos danos do abuso”. Ele contou que começaram a fazer academia juntos aos 14 e 15 anos e que nenhum deles comentavam sobre a violência que sofriam um com o outro.

A gente não falava sobre isso, até que chegou um e falou, e outro, e outro e, de repente, foi um efeito dominó. Foi quando eu conversei com meu primo e percebemos que éramos vítimas”, relatou, lembrando que no dia 27 de novembro do ano passado foram até a DPCA (Delegacia de Proteção à Infância e Adolescência) denunciar o professor.

Também no protesto e ex-aluno de quem antes chamavam de “mestre”, Judith de Cássia, 28 anos, garçonete, afirma que foi a primeira a ouvir sobre os abusos de uma das vítimas e acredita que por elas serem adolescentes homens, o professor usava de um discurso machista para mantê-los calados.

“Ele tinha o mesmo discurso perante todos e, com isso, as vítimas ficavam com mais vergonha e confusos”, relatando que o “mestre” usava de artifícios que dissimulavam sobre a sexualidade dos meninos e os deixava inseguros de relatar a violência.

Pesquisadora do Comsex (Comitê Estadual de Enfrentamento à Violência Sexual de Crianças e Adolescentes) e também participando da manifestação, Estela Scândola, afirma que as duas principais causas de suicídio são sofrimentos ligados à liberdade sexual e à violência sexual. “Grande parte das vítimas de suicídio também foram, em algum momento, vítimas de abuso sexual”, explica.

Para ela, no caso de Raul, houve um agravante, que foi a impunidade. “Não ver a denúncia que você fez caminhar, também causa sofrimento à vítima”, relatou.

Cerca de 50 pessoas entre familiares e amigos de Raul, além de ex-alunos do professor, se reuniram em frente ao Fórum esta tarde, fizeram caminhada na Rua da Paz e seguiram para a frente da Prefeitura de Campo Grande, onde rezaram o “Pai Nosso”.

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