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“Se não dava conta, podia deixar aqui”, diz tio de bebê morto em Campo Grande

Dos quatro filhos da mãe presa, três vivem com os avós e tios paternos; a criança morava com ela há 4 meses

Por Gabi Cenciarelli | 01/05/2026 08:51
“Se não dava conta, podia deixar aqui”, diz tio de bebê morto em Campo Grande
Avó paterna e tio do bebê morto durante entrevista à reportagem (Foto: Gabi Cenciarelli)

A morte do bebê de 1 ano e 8 meses, internado com sinais de agressão e suspeita de violência sexual, também revelou uma história marcada por perdas sucessivas, afastamento familiar e tentativas frustradas de aproximação. Filho de Josue de Oliveira, o menino nasceu após a morte do pai biológico, vítima de acidente de trânsito em 2 de junho de 2024, quando a mãe ainda estava grávida. Segundo parentes paternos, desde então a criança nunca foi levada para conhecer a família do pai.

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Avó e tio paterno de bebê de 1 ano e 8 meses morto com sinais de agressão e abuso sexual em Campo Grande relataram que nunca puderam conhecer a criança. A mãe, presa junto ao padrasto por maus-tratos e estupro de vulnerável, teria impedido o contato. A família já cria o irmão mais velho da vítima e afirma que teria acolhido o bebê. O pai biológico morreu em acidente antes do nascimento do filho.

O caso também expôs uma estrutura familiar fragmentada. Dos quatro filhos da mulher presa no caso, três são criados por famílias paternas, conforme informou o 2º Conselho Tutelar da Região Norte. O bebê que morreu era o único que estava sob os cuidados diretos da mãe e, mesmo assim, havia apenas cerca de quatro meses, já que antes residia com a avó materna até dezembro de 2025.

Em entrevista ao Campo Grande News, a avó paterna, Iracy Quirino da Silva, de 63 anos, e o tio Jonathan afirmaram que sempre desejaram conviver com o menino e que estariam dispostos a criá-lo, assim como fazem com o irmão mais velho da vítima, hoje com 4 anos, também filho de Josue.

“Se não dava conta, podia deixar aqui”, diz tio de bebê morto em Campo Grande
Família paterna cria irmão mais velho da criança e cobra justiça após morte do bebê (Foto: Gabi Cenciarelli)

“Eu sempre pedia para ela trazer o neném aqui para eu conhecer. Sempre falava para trazer, mas ela nunca quis trazer. Nunca cheguei a conhecer ele”, relatou Iracy, emocionada.

Para a pensionista, a dor pela morte do neto se mistura ao sentimento de nunca ter tido a oportunidade de conhecê-lo. “Chorei muito. A gente sente porque é sangue da gente. Era meu neto.”

O irmão mais velho do bebê vive com a avó desde os primeiros meses de vida. Segundo Iracy, o menino permaneceu com a família paterna diante da rotina que presenciavam dentro de casa, marcada, segundo ela, pela ausência de cuidados maternos constantes.

“Ele sempre morou comigo. Cuido dele desde novinho. Nunca foi morar com ela”, contou. Em seguida, explicou por que decidiu assumir a criação do neto. “Eu sempre presenciei que ela não era uma mãe presente, de cuidar. Meu filho falava: mãe, eu que dou banho, eu que troco, eu que cuido.”

“Se não dava conta, podia deixar aqui”, diz tio de bebê morto em Campo Grande
Parentes do pai biológico afirmam que estavam dispostos a criar a criança (Foto: Gabi Cenciarelli)

A avó também descreve que, mesmo nas visitas, via pouco vínculo afetivo entre mãe e filho. “Ela vinha aqui, mas não era aquela mãe de pegar no colo, de matar saudade, de ficar junto. Ficava mais sentada, afastada. Meu filho que pegava a criança.”

Com a morte de Josue, a família afirma que precisou se reorganizar para manter a rotina do menino de 4 anos. Jonathan, irmão do pai biológico, diz que assumiu papel importante na criação do sobrinho e se tornou uma referência masculina dentro de casa.

“Fiquei no lugar do pai dele. Sou tio, mas também virei pai ao mesmo tempo”, afirmou.

Segundo ele, a ausência do pai foi sentida profundamente pela criança. “Ele era muito apegado ao pai. Ficava perguntando: ‘Cadê meu pai?’. Sentiu demais.”

“Se não dava conta, podia deixar aqui”, diz tio de bebê morto em Campo Grande
Família paterna diz que bebê teria acolhimento ao lado do irmão mais velho (Foto: Gabi Cenciarelli)

Para Jonathan, o mesmo acolhimento teria sido oferecido ao bebê morto, caso houvesse abertura por parte da mãe. Ele afirma que a família nunca se recusou a ajudar e que a casa já estava estruturada para receber outra criança.

“Se ele estivesse aqui com a gente, estaria sendo criado igual o irmão. Com amor, com atenção, com família.”

Após a morte de Josue, os parentes relatam que a mulher praticamente rompeu o contato com a família paterna. Jonathan afirma que ela retornou apenas uma vez à residência, pouco antes do nascimento do bebê. “Ela veio uma vez só, para pegar o carrinho para o bebê que ia nascer. Depois nunca mais”, contou.

Iracy confirma que, após o nascimento, a criança jamais foi levada à casa da família.

Apesar das críticas sobre a falta de proximidade e cuidado, os parentes afirmam que nunca nutriram sentimento ruim em relação à mulher. Pelo contrário, dizem que havia carinho e confiança de que ela cuidaria do filho.

“Se não dava conta, podia deixar aqui”, diz tio de bebê morto em Campo Grande
Bebê de 1 ano e 8 meses morreu nesta madrugada na Santa Casa (Foto: Reprodução)

“A gente tinha carinho por ela. Apesar de tudo, ela é a mãe. A gente pensava que ia proteger, que ia cuidar. Nunca imaginamos uma coisa dessas”, disse Jonathan.

A falta de aproximação leva os parentes a acreditarem que havia receio de perder a guarda da criança, como aconteceu com o irmão mais velho. Ainda assim, Jonathan nega qualquer intenção de afastar filhos da mãe e afirma que o objetivo sempre foi colaborar.

“Pode ser que ela tivesse medo da gente ficar com ele também. Mas ninguém queria tomar filho de ninguém. A gente queria ajudar.”

Pedido de justiça - Sem atribuir diretamente à mãe a autoria das agressões, a família afirma que o sentimento hoje é de revolta pela omissão e pela ausência de proteção ao menino. Para Jonathan, se ela enfrentava dificuldades, poderia ter recorrido aos parentes do pai.

“Se não dava conta, podia deixar aqui”, diz tio de bebê morto em Campo Grande
Cadeado no portão da casa onde menino morava com a família (Foto: Juliano Almeida)

“Ela pode não ter feito diretamente, mas teve culpa por permitir uma situação dessa. Se ela não queria, se não dava conta, podia deixar aqui. Estaria bem cuidado. Não faltava amor, carinho, atenção. Aqui tem família.”

Durante a conversa, Jonathan também disse que os parentes acreditavam que a maternidade com o bebê poderia representar uma mudança de postura.

“Mesmo assim, a gente pensava: agora ela vai ser mãe, agora vai cuidar. Nunca imaginamos um final desses.”

Ao lembrar do filho morto antes mesmo de conhecer o neto, Iracy resume o sentimento da família em uma frase repetida durante a entrevista.

“Se meu filho estivesse vivo, isso jamais teria acontecido.”

Jonathan compartilha da mesma convicção. “Se meu irmão estivesse aqui hoje, ele estava com nós. Uma criança feliz, bem cuidada, junto do irmão.”

O 2º Conselho Tutelar da Região Norte informou que não havia registros anteriores de denúncias envolvendo a criança, a mãe ou os endereços vinculados ao caso.

Segundo a nota, ao ser abordada, a mulher disse não saber a origem dos maus-tratos e afirmou que o padrasto tratava a criança “com carinho, como se fosse seu próprio filho”.

Agora, entre o luto e a indignação, os parentes afirmam esperar responsabilização de todos os envolvidos e pedem justiça pela morte da criança.

“A gente quer justiça. Que paguem pelo que aconteceu com ele”, disse Jonathan.

Iracy, ainda abalada, completou: “Meu neto se foi sem eu conhecer.”

Caso - O bebê morreu na madrugada desta quinta-feira (30), na Santa Casa, após dois dias internado. Conforme o boletim de ocorrência, ele foi socorrido inicialmente após se engasgar com leite, mas, durante o atendimento, médicos identificaram hematoma extenso na cabeça, marcas antigas pelo corpo e sinais compatíveis com violência sexual.

A mãe, de 31 anos, e o padrasto da criança, de 23, foram presos em flagrante por maus-tratos e estupro de vulnerável. Ambos passaram por audiência de custódia e tiveram a prisão preventiva decretada.

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