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“É assassino”, diz filho sobre condutor de lancha que matou pescador

Responsável pelo acidente é servidor da Casa Civil e genro da deputada Mara Caseiro

Por Anahi Zurutuza | 03/05/2021 14:10
À direita, pai e filho (chapéu branco e boné azul), junto com amigos, pouco antes de embarcar para pescaria (Foto: Direto das Ruas)
À direita, pai e filho (chapéu branco e boné azul), junto com amigos, pouco antes de embarcar para pescaria (Foto: Direto das Ruas)

Caê Duarte saiu de Campo Grande, na madrugada de sábado (1º), para, pela primeira vez, em seus 33 anos de vida, passar o fim de semana pescando com o pai, Carlos Américo Duarte, de 59 anos. Foi a primeira e a última. Carlão, como era conhecido no grupo de 24 praticantes de pesca esportiva, morreu após o barco onde estava com o filho ser “atropelado” por uma lancha.

Filho fez questão de registrar selfie com pai, no primeiro fim de semana que pescariam juntos (Foto: Arquivo pessoal)
Filho fez questão de registrar selfie com pai, no primeiro fim de semana que pescariam juntos (Foto: Arquivo pessoal)

Pouco mais de 48 horas após a tragédia, Caê, que trabalha como representante comercial e ainda se recupera do acidente, não se importa em relembrar, quantas vezes forem necessárias, detalhes do dia, assim como o desejo de justiça.

“Só quero que esse cara seja preso. Só quero que esse cara pagando por tudo que ele fez. Só quero justiça”, são frases que repete, quase como um mantra em tom de revolta, referindo-se a Nivaldo Thiago Filho de Souza, condutor do barco que causou o acidente, servidor da Casa Civil em Mato Grosso do Sul e genro da deputada Mara Caseiro (PSDB).

Ele e o pai saíram da Pousada Beira-Rio por volta das 12h, em barco pequeno, pilotado por Rosivaldo Barboza de Lima, piloto profissional e funcionário do hotel. O trio ia em direção à região conhecida como Touro Morto, encontro dos rios Miranda e Aquidauana, para pescar, mas foi surpreendido por uma lancha em alta velocidade numa curva.

O bico do barco dele nem na água tocava. O barco nos atingiu, passou por cima de nós. Eu estava na ponta, meu pai no meio e o piloteiro atrás. Na hora eu desmaiei e quando acordei, o piloteiro estava gritando: ‘Não foge, não foge, volta aqui, você matou o cara’. Foi quando eu vi meu pai caído”, conta Caê Duarte.

O representante comercial diz ter visto o condutor da lancha descartando embalagens de bebidas alcoólicas no Rio Miranda, cena testemunhada por outros integrantes do grupo de pescadores, informa.

“A gente não tirou fotos das latinhas porque a gente não imaginava que ele [Nilvado Thiago] tinha cometido um crime, mas somos testemunha. Pouco metros antes de sabermos do acidente, a gente chegou a comentar que o cara da lancha era porco, porque estava jogando latinha no rio”, conta o vendedor de autopeças, Elias Martins do Santos, 44.

O amigo de Carlão conta que saiu para pescar minutos depois, porque preferiu almoçar na pousada. Na saída, viu a lancha conduzida por Nivaldo passar por ele. “Passou bem devagar com a mulher e as crianças. Depois voltou, que nem uma bala. A gente não sabia, mas já tinha acontecido o acidente e ele estava fugindo”.

Carlos Américo Duarte foi atingido em cheio pela lancha. Levou um golpe no peito, segundo testemunhas. Caê afirma que assim que recobrou a consciência, pegou o pai no colo, mas já não havia mais nada o que fazer. “Tentei fazer de tudo para ele voltar, mas infelizmente não consegui”. Veja mais o que diz o representante comercial no vídeo:


Revolta  - Danificado, o barco atingido estava prestes a afundar, mas o representante comercial, o pai e o piloto foram socorridos pelo grupo que chegou ao local minutos após o acidente. Todos voltaram para a pousada e o condutor da lancha, que fugiu sem prestar socorro, desapareceu. “Tentaram ir atrás dele, mas jamais conseguiríamos pegar”, explica Caê sobre o fato do motor da lancha ter 115 cavalos, muito mais potente que os dos barcos pequenos.

A Polícia Militar foi chamada e Nivaldo foi pego depois em posto da BR-262 chamado Guaicurus. O condutor da lancha se recusou a fazer o teste do bafômetro, mas admitiu à PRF (Polícia Rodoviária Federal) ter tomado, na manhã de sábado, 4 garrafas de cerveja de 205 ml, conforme registrado em boletim de ocorrência.

Nivaldo Thiago também não tinha habilitação para conduzir embarcações, diferente dos pilotos contratos pelos turistas hospedados na Beira-Rio. Uma moradora da região pediu para ter a identidade preservada, mas contou ao Campo Grande News que o servidor faz parte de grupo que frequenta rancho localizado ao lado da pousada. Com frequência, os integrantes deste grupo, abusam da velocidade, segundo a testemunha. “Não respeitam os barquinhos pequenos”.

O condutor da lancha foi ouvido e liberado, o que deixou familiares e amigos indignados. “Não foi preso em flagrante. O cara bebe, se nega a fazer o bafômetro, dirige sem habilitação e não vai preso em flagrante? Tem alguma coisa errada aí”, questiona Elias.

O filho diz que vai lutar até o fim para que o caso não caia no esquecimento. “Não sei se é assassino para a Justiça, mas para mim é. Não vou descansar enquanto ele não for preso”.


Mais detalhes – Rosilvaldo Barboza, o piloto do barco onde estavam pai e filho, chegou a ser levado para o Hospital Regional de Miranda. Com a clavícula fraturada, ele se recupera em casa.

No domingo, contudo, antes do descanso, esteve no local do acidente para dar detalhes a equipe da Marinha sobre o ocorrido. Além da Marinha, a Polícia Civil também investiga o caso.

Consta no Portal da Transparência do Governo do Estado que Nivaldo Thiago Filho de Souza exerce cargo comissionado na Segov (Secretaria Estadual de Governo) com salário de R$ 15.888,47. O Campo Grande News apurou que o genro da deputada Mara Caseiro está na função desde 2015. A reportagem também tentou contato com a parlamentar para saber se Nivaldo gostaria de contar a sua versão dos acontecimentos, mas ela não atendeu às ligações. A assessoria de imprensa da deputada informou que ela vai se manifestar por nota.

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