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Em Pauta

O coronel feito pelas laranjas de Bela Vista e as “atmosferonas”

Por Mário Sérgio Lorenzetto | 05/04/2026 07:00
O coronel feito pelas laranjas de Bela Vista e as “atmosferonas”

Entre os primeiros paulistas a chegarem no Mato Grosso do Sul, após a guerra, Justino Leite, após trabalhar como peão em algumas fazendas, arrumou uma fazenda no lugar denominado “Arroio de Ouro", em Bela Vista. Era um homem extremamente econômico, um sovina. Tinha uma obsessão: juntar libras esterlinas e escondê-las avaramente longe dos olhos de todos, inclusive de Maria Rosa, sua esposa. Só vendia suas boiadas recebendo em libras.


O coronel feito pelas laranjas de Bela Vista e as “atmosferonas”

Laranjas dadas pelo “coronel”.

Justino era um iletrado. Não sabia sequer assinar seu nome. Sua incomensurável satisfação era receber o tratamento de “coronel”. Possuía na fazenda um grande e bem formado laranjal, que produzia os melhores frutos da região, o ano inteiro. Para os estranhos, Justino vendia as laranjas. Todavia, nada cobrava se fosse chamado de coronel. Mesmo se fosse um malfeitor, receberia laranja em penca se usasse o tratamento de coronel.


O coronel feito pelas laranjas de Bela Vista e as “atmosferonas”

As “atmosferonas” do coronel.

Como todos passaram a chamá-lo pelo titulo de coronel, passou por uma transformação. Compenetrou-se de que, dali em diante, precisava tomar conhecimento da política e de palavras difíceis. Mesmo com os peões, passou a usar palavras empoladas, mesmo não sabendo seu significado. Como o “coronel” falava asneira! Certa vez, recebeu alguns senhores de boa apresentação, educados, bem falantes, mas desconhecidos. Um deles, olhou para o céu cheio de nuvens, por entre os ramos de uma parreira e soltou uma frase: “A atmosfera está carregada, não acha, coronel?” Justino com o maior desembaraço, respondeu: “Eu queria que o senhor visse no ano passado… essa parreira deu cada atmosferona que foi uma beleza”.


O coronel feito pelas laranjas de Bela Vista e as “atmosferonas”

Levaram o cofre e as libras.

Justino passou por vários ataques a sua fazenda em Bela Vista. Índios, gaúchos, paraguaios, argentinos, todos tentando roubar-lhe as libras esterlinas famosas. Em dois ataques, foi baleado. Uma vez no pescoço - curou com óleo de mamona para não gastar suas libras com médico. Na outra, levou tiro na barriga. Sabia que corria perigo. Desconfiava de tudo e de todos. Resolveu mudar para outra fazenda em Aquidauana. E foi lá que o convenceram a guardar as famosas libras em um cofre. Ingênuo, acreditando que estava protegido, os bandidos levaram o cofre e as libras. Abateu-lhe o ânimo. Morreu pobre, sem atendimento médico, em uma casinha tosca na periferia aquidauanense.

 

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