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Sabor e Negócios

Mais tempo livre. Mas para quê?

Por Michelle Pinho (*) | 03/09/2026 09:00

Estamos vivendo uma discussão necessária sobre o futuro do trabalho. A redução das jornadas, o avanço da escala 5x2, as experiências com semanas de quatro dias e o debate sobre o fim da escala 6x1 revelam uma mudança importante na maneira como enxergamos a relação entre trabalho e vida. E talvez já fosse hora de essa discussão acontecer.

Nenhuma empresa pode continuar agindo como se o tempo de um ser humano fosse um recurso infinito. Afinal, tempo de trabalho também é tempo de vida.

Mas reduzir jornadas não significa simplesmente retirar horas de uma escala. Para oferecer mais qualidade de vida sem comprometer a sustentabilidade do negócio, as empresas precisarão fazer algo que muitas ainda adiam: organizar verdadeiramente o trabalho.

Isso significa conhecer custos, medir produtividade, estruturar processos, eliminar retrabalhos, dimensionar corretamente equipes e utilizar tecnologia para aquilo que ela pode fazer melhor.

Durante muito tempo, parte das empresas compensou sua própria ineficiência com tempo de gente. Quando um processo não funcionava, alguém trabalhava mais. Quando faltava organização, contratava-se mais. Quando a informação não circulava, criava-se mais uma reunião.

Se queremos trabalhar menos horas, precisaremos aprender a trabalhar melhor durante as horas que permanecem.

E talvez seja justamente aí que tecnologia e inteligência artificial possam cumprir um papel muito mais interessante do que simplesmente substituir pessoas. A pergunta não deveria ser como retirar o ser humano da operação, mas como organizar melhor o trabalho humano.

Automatizar o repetitivo, simplificar controles, organizar informações e eliminar burocracias pode devolver às pessoas tempo para aquilo que continua essencialmente humano: pensar, criar, decidir, servir, liderar e construir relações.

Talvez a empresa do futuro não seja aquela que aprendeu a substituir pessoas, mas aquela que finalmente aprendeu a não desperdiçá-las.

Só que essa transformação possui um segundo lado.

Se as empresas precisam aprender a utilizar melhor o tempo das pessoas, nós também precisaremos refletir sobre o que fazemos com o tempo que conquistamos.

E é aqui que a discussão deixa de ser apenas empresarial.

Descanso é necessário. Conviver com a família, dormir, viajar, praticar a fé, encontrar amigos ou simplesmente não fazer nada não precisa produzir resultado algum para ter valor. Uma folga não deveria se transformar em outro expediente.

Mas também precisamos reconhecer que tempo disponível, sozinho, não cria propósito.

Vivemos um paradoxo. Nunca tivemos tanto conhecimento disponível e, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas ferramentas disputando nossa atenção. No mesmo celular em que podemos aprender uma profissão, estudar um idioma ou desenvolver uma nova habilidade, podemos consumir horas sem sequer perceber para onde elas foram.

Por isso, quando discutimos mais tempo livre, talvez também precisemos discutir educação, qualificação, propósito e responsabilidade individual.

O Brasil continuará precisando de profissionais preparados, líderes, técnicos, gestores, empreendedores e pessoas capazes de aprender, criar e resolver problemas. Mais tempo disponível pode criar condições para isso, mas não fará essa transformação sozinho.

A responsabilidade, portanto, precisa ser compartilhada.

As empresas precisam organizar melhor o trabalho, desenvolver pessoas e criar oportunidades reais de crescimento. Os líderes precisam enxergar talentos e abrir portas. E cada indivíduo precisa decidir o que deseja construir para a própria vida.

Uma empresa pode devolver horas. A tecnologia pode eliminar tarefas. Um líder pode oferecer uma oportunidade. Mas ninguém consegue desejar o futuro de outra pessoa por ela.

Talvez, então, o futuro do trabalho não esteja simplesmente em trabalharmos menos.

Esteja em aprendermos a usar melhor o tempo — dentro e fora das empresas.

Porque qualidade de vida não é apenas ter mais horas disponíveis. É ter liberdade para escolher o que fazer com elas.

E talvez esse seja o desafio que vem depois da conquista do tempo: descobrir que vida queremos construir com ele.

Michelle Pinho — CEO Padoca do Enaldo e sócia da Solutri Soluções. Colunista da Sabor e Negócios, escreve sobre gestão, propósito e os bastidores reais da gastronomia com alma. 📩 negocioscomsabor@gmail.com — para quem cansou de empreender sozinho.