Alimentos sobem 5,68% e superam inflação geral em 2026
Boletim mostra que famílias de baixa renda sentiram maior pressão no orçamento no primeiro semestre
Os preços dos alimentos subiram acima da inflação geral nos cinco primeiros meses de 2026 e atingiram com maior intensidade as famílias de menor renda. A avaliação consta no Boletim de Conjuntura divulgado em julho pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), que também analisa os limites da taxa de juros no controle dos preços e apresenta argumentos favoráveis e contrários à PEC 65 (Proposta de Emenda à Constituição).
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Alimentos subiram 4,81% nos primeiros cinco meses de 2026, acima do IPCA de 3,20%, afetando mais as famílias de baixa renda, segundo o Dieese. O órgão aponta que juros altos têm efeito limitado contra inflação de oferta e defende estoques públicos e infraestrutura. O boletim também analisa a PEC 65, que ampliaria a autonomia do Banco Central, com críticos alertando para perda de receitas públicas estimadas em R$ 23,4 bilhões anuais.
Entre janeiro e maio, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) acumulou alta de 3,20%. No mesmo período, o grupo de alimentação e bebidas avançou 4,81%, enquanto os alimentos consumidos dentro de casa ficaram 5,68% mais caros.
- Leia Também
- Cesta básica em Campo Grande chega a R$ 841 e é a 8ª mais cara do Brasil
- Greve pode deixar de ser única saída para servidor negociar reajuste
Segundo o levantamento, a inflação acumulada pelas famílias de renda muito baixa chegou a 3,46% até maio. Entre as famílias de renda muito alta, a variação foi de 2,83%. A diferença é de 0,63 ponto percentual.
“Os preços dos alimentos passaram a subir em ritmo superior ao da inflação média”, afirma o boletim. Na avaliação da entidade, o movimento compromete uma parcela maior do orçamento das famílias pobres, que destinam proporcionalmente mais dinheiro à alimentação.
O documento atribui a pressão sobre os preços a uma combinação de eventos climáticos extremos, instabilidade geopolítica, aumento do custo dos fertilizantes, exportação de produtos agropecuários e concentração de mercado. Essas explicações representam a análise do Dieese e não significam que todos os produtos tenham sido afetados da mesma forma ou intensidade.
Efeito dos juros - O Dieese sustenta que o aumento da taxa Selic pode ter efeito limitado quando a inflação é provocada por problemas de produção, clima, logística ou preços internacionais. “A eficácia dessa política torna-se mais limitada”, afirma o documento ao analisar o uso dos juros contra choques de oferta.
A taxa elevada reduz o consumo e os investimentos, o que pode ajudar a controlar uma inflação causada pelo excesso de demanda. Por outro lado, o boletim argumenta que o crédito mais caro também aumenta os custos de produtores e empresas, podendo dificultar a ampliação da oferta.
Como alternativas complementares, a entidade defende o fortalecimento dos estoques públicos de alimentos, investimentos em infraestrutura, planejamento da produção, medidas cambiais e revisão de mecanismos de reajuste automático de preços.
Defensores e críticos - O boletim também aborda a PEC 65, que amplia a autonomia administrativa, orçamentária e financeira do BC (Banco Central). Conforme o texto analisado pelo Dieese, a instituição deixaria o modelo tradicional de autarquia federal e passaria a ter uma estrutura jurídica especial.
Os defensores da proposta afirmam que a mudança daria maior flexibilidade administrativa, permitiria modernizar sistemas tecnológicos, reduziria a perda de profissionais qualificados e garantiria recursos próprios para o funcionamento do banco.
Entre as mudanças previstas está o uso das receitas de senhoriagem, obtidas com a emissão de moeda, para financiar diretamente a instituição. Atualmente, esses valores são destinados ao Tesouro Nacional.
Críticos citados pelo boletim afirmam que a medida pode reduzir controles públicos, retirar receitas do governo federal e tornar servidores responsáveis pela fiscalização do mercado financeiro mais sujeitos a pressões externas. Os futuros funcionários também poderiam ser contratados pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), sem a estabilidade do regime estatutário.
O economista Pedro Paulo Zahluth Bastos, citado pelo Dieese, estima que a senhoriagem gerou receita média anual de aproximadamente R$ 23,4 bilhões entre 2017 e 2025. Ele classifica a possível transferência dos recursos como “apropriação patrimonial de receita pública”.
O boletim assume posição crítica à PEC, mas registra os principais argumentos de quem apoia a mudança. A aprovação, eventual alteração ou rejeição do texto caberá ao Congresso Nacional.


