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Economia

Alimentos sobem 5,68% e superam inflação geral em 2026

Boletim mostra que famílias de baixa renda sentiram maior pressão no orçamento no primeiro semestre

Por Kamila Alcântara | 19/07/2026 14:54
Alimentos sobem 5,68% e superam inflação geral em 2026
Setor com pacotes de arroz em mercado atacadista (Foto: Arquivo Campo Grande News)

Os preços dos alimentos subiram acima da inflação geral nos cinco primeiros meses de 2026 e atingiram com maior intensidade as famílias de menor renda. A avaliação consta no Boletim de Conjuntura divulgado em julho pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), que também analisa os limites da taxa de juros no controle dos preços e apresenta argumentos favoráveis e contrários à PEC 65 (Proposta de Emenda à Constituição).

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Alimentos subiram 4,81% nos primeiros cinco meses de 2026, acima do IPCA de 3,20%, afetando mais as famílias de baixa renda, segundo o Dieese. O órgão aponta que juros altos têm efeito limitado contra inflação de oferta e defende estoques públicos e infraestrutura. O boletim também analisa a PEC 65, que ampliaria a autonomia do Banco Central, com críticos alertando para perda de receitas públicas estimadas em R$ 23,4 bilhões anuais.

Entre janeiro e maio, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) acumulou alta de 3,20%. No mesmo período, o grupo de alimentação e bebidas avançou 4,81%, enquanto os alimentos consumidos dentro de casa ficaram 5,68% mais caros.

Segundo o levantamento, a inflação acumulada pelas famílias de renda muito baixa chegou a 3,46% até maio. Entre as famílias de renda muito alta, a variação foi de 2,83%. A diferença é de 0,63 ponto percentual.

“Os preços dos alimentos passaram a subir em ritmo superior ao da inflação média”, afirma o boletim. Na avaliação da entidade, o movimento compromete uma parcela maior do orçamento das famílias pobres, que destinam proporcionalmente mais dinheiro à alimentação.

O documento atribui a pressão sobre os preços a uma combinação de eventos climáticos extremos, instabilidade geopolítica, aumento do custo dos fertilizantes, exportação de produtos agropecuários e concentração de mercado. Essas explicações representam a análise do Dieese e não significam que todos os produtos tenham sido afetados da mesma forma ou intensidade.

Efeito dos juros - O Dieese sustenta que o aumento da taxa Selic pode ter efeito limitado quando a inflação é provocada por problemas de produção, clima, logística ou preços internacionais. “A eficácia dessa política torna-se mais limitada”, afirma o documento ao analisar o uso dos juros contra choques de oferta.

A taxa elevada reduz o consumo e os investimentos, o que pode ajudar a controlar uma inflação causada pelo excesso de demanda. Por outro lado, o boletim argumenta que o crédito mais caro também aumenta os custos de produtores e empresas, podendo dificultar a ampliação da oferta.

Como alternativas complementares, a entidade defende o fortalecimento dos estoques públicos de alimentos, investimentos em infraestrutura, planejamento da produção, medidas cambiais e revisão de mecanismos de reajuste automático de preços.

Defensores e críticos - O boletim também aborda a PEC 65, que amplia a autonomia administrativa, orçamentária e financeira do BC (Banco Central). Conforme o texto analisado pelo Dieese, a instituição deixaria o modelo tradicional de autarquia federal e passaria a ter uma estrutura jurídica especial.

Os defensores da proposta afirmam que a mudança daria maior flexibilidade administrativa, permitiria modernizar sistemas tecnológicos, reduziria a perda de profissionais qualificados e garantiria recursos próprios para o funcionamento do banco.

Entre as mudanças previstas está o uso das receitas de senhoriagem, obtidas com a emissão de moeda, para financiar diretamente a instituição. Atualmente, esses valores são destinados ao Tesouro Nacional.

Críticos citados pelo boletim afirmam que a medida pode reduzir controles públicos, retirar receitas do governo federal e tornar servidores responsáveis pela fiscalização do mercado financeiro mais sujeitos a pressões externas. Os futuros funcionários também poderiam ser contratados pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), sem a estabilidade do regime estatutário.

O economista Pedro Paulo Zahluth Bastos, citado pelo Dieese, estima que a senhoriagem gerou receita média anual de aproximadamente R$ 23,4 bilhões entre 2017 e 2025. Ele classifica a possível transferência dos recursos como “apropriação patrimonial de receita pública”.

O boletim assume posição crítica à PEC, mas registra os principais argumentos de quem apoia a mudança. A aprovação, eventual alteração ou rejeição do texto caberá ao Congresso Nacional.