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Economia

Retomada da UFN3 anima comércio, mas calotes do passado ainda geram cautela

Empresários esperam alta nas vendas com novos trabalhadores, mas lembram prejuízos da obra interrompida

Por Inara Silva e Fernanda Palheta, de Três Lagoas | 29/06/2026 06:41
Retomada da UFN3 anima comércio, mas calotes do passado ainda geram cautela
Movimento no comércio na região central de Três Lagoas (Foto: Juliano Almeida)

O anúncio da retomada das obras da UFN3 (Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III), em Três Lagoas, tem gerado expectativa entre os comerciantes da cidade. Com a perspectiva da chegada de milhares de trabalhadores e empresas para a construção da fábrica, os empresários já projetam aumento nas vendas, no entanto, a lembrança dos calotes deixados após a paralisação da obra, há mais de uma década, ainda alimenta a desconfiança de parte dos comerciantes.

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A retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III em Três Lagoas gera otimismo e cautela no comércio local. Empresários projetam aumento nas vendas, mas relembram prejuízos milionários causados pela paralisação em 2015. A prefeitura afirma que o novo modelo de gestão, com onze empresas contratadas em vez de apenas uma, reduz riscos financeiros. A expectativa é que o pico das obras ocorra em 2027, gerando oito mil empregos e impulsionando o consumo na região.

Com cerca de 143 mil habitantes, Três Lagoas viveu um intenso aquecimento econômico entre 2011 e 2014, impulsionado pelas obras da UFN3 e pela instalação de grandes indústrias de celulose. Proprietário de uma loja de materiais de construção há 23 anos, Paulo Sérgio Pinto Borges viveu este momento e acredita que o comércio será beneficiado pela chegada de novas empresas, principalmente com a venda de materiais para demandas emergenciais.

Segundo ele, pequenos estabelecimentos dificilmente conseguem atender grandes contratos, mas costumam fornecer itens que faltam durante a execução das obras. “O orçamento grande vai para as empresas maiores. Mas, quando faltam parafusos, lâmpadas ou materiais de última hora, eles acabam comprando com a gente”, afirma.

Apesar da expectativa de crescimento entre 10% e 15% nas vendas, Paulo evita demonstrar entusiasmo. Ele foi um dos comerciantes prejudicados quando a obra foi interrompida. Na época, sofreu um prejuízo de R$ 13 mil após fornecer materiais para uma empresa de Birigui (SP) responsável pela construção de moradias destinadas aos trabalhadores. A empresa não recebeu pelos serviços prestados e deixou a dívida com fornecedores.

"A expectativa é boa, mas essa promessa já vem sendo feita há anos. Eu ainda não tenho muita confiança de que realmente vai acontecer", diz.

O comerciante lembra que, durante a construção das fábricas de celulose, sua loja registrou aumento de aproximadamente 40% nas vendas. Desta vez, acredita em um crescimento mais modesto.

Retomada da UFN3 anima comércio, mas calotes do passado ainda geram cautela
O empresário Paulo Sérgio Pinto Borges se sente receoso em relação à usina (Foto: Juliano Almeida)

Otimismo - A empresária Jesilaine dos Santos Araújo Queiroz, proprietária de uma loja de vestuário, tem uma visão mais otimista. Moradora de Três Lagoas há 22 anos, ela acompanhou a transformação econômica da cidade e afirma que o comércio já começa a sentir reflexos da movimentação de pessoas vindas de outras regiões.

Ela recorda que, antes da chegada das grandes indústrias, o município tinha uma economia mais lenta e menor poder de compra. O cenário mudou durante o ciclo de expansão industrial. "Naquela época foi um boom para a cidade. O comércio vendeu muito. Depois houve uma queda, mas o mercado se estabilizou porque muita gente acabou permanecendo em Três Lagoas", afirma.

A percepção também é compartilhada por Amarildo Carlos de Souza, gerente de uma loja de colchões e morador da cidade há mais de três décadas. Segundo ele, a chegada constante de novos moradores pode ser percebida no dia a dia da loja, principalmente durante o cadastro de clientes.

"Você pergunta se a pessoa já tem cadastro e ela responde que acabou de chegar na cidade. Isso acontece praticamente todos os dias", relata.

Amarildo acredita que a contratação prevista de milhares de trabalhadores deve fortalecer ainda mais a economia local.Ele acredita que os problemas registrados no passado foram provocados por empresas sem capacidade financeira e não devem se repetir caso os contratos sejam cumpridos por grupos sólidos.

Retomada da UFN3 anima comércio, mas calotes do passado ainda geram cautela
 A empresária Jesilaine dos Santos Araújo Queiroz está otimista (Foto: Juliano Almeida)

Novo modelo -  Em entrevista ao Campo Grande News, o prefeito Cassiano Maia (PSDB) afirma que a retomada da UFN3 ocorre em um cenário diferente daquele que antecedeu a paralisação das obras, no passado. Segundo ele, cerca de 150 empresários de Três Lagoas ficaram sem receber pelos serviços e produtos fornecidos durante a execução do antigo contrato.

Agora, a principal mudança, segundo o prefeito, está na forma de contratação. Em vez de uma única empresa responsável pela obra, haverá 11 empresas contratadas, com contratos já assinados, o que deve reduzir os riscos de concentração financeira e ampliar a participação de fornecedores locais.

Cassiano também destaca que a Petrobras manteve a estrutura da unidade preservada durante os anos em que a obra permaneceu parada, o que deve facilitar a retomada dos trabalhos. De acordo com ele, o município já observa aumento na oferta de vagas de emprego e a expectativa é que aproximadamente 8 mil trabalhadores sejam contratados durante o pico da construção, previsto para 2027.

Retomada da UFN3 anima comércio, mas calotes do passado ainda geram cautela
O gerente de uma loja de colchões, Amarildo Carlos de Souza, está otimista. (Foto: Juliano Almeida)

Obra parada -  A construção da UFN3 foi interrompida em janeiro de 2015, quando a Petrobras rescindiu o contrato com o consórcio responsável pela obra. Na ocasião, a unidade estava com 82% dos serviços concluídos e já havia recebido investimentos de R$ 3,2 bilhões. A paralisação deixou mais de R$ 30 milhões em dívidas com fornecedores e levou milhares de trabalhadores a recorrerem à Justiça para cobrar salários e verbas rescisórias.

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