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Editorial

Desinteresse pelo Legislativo fortalece máquinas eleitorais e grupos organizados

Indecisão acima de 80% expõe desinteresse por quem faz leis, fiscaliza governos e decide sobre bilhões

Por José Cândido | 16/08/2026 07:05
Desinteresse pelo Legislativo fortalece máquinas eleitorais e grupos organizados
Urna eletrônica simboliza uma escolha que vai além do Executivo: deputados fazem leis, fiscalizam governos e decidem sobre o dinheiro público. (Foto Campo Grande News)

A eleição para deputado estadual ou federal parece distante da preocupação de grande parte do eleitorado. Pesquisa de opinião pública mostra que mais de 80% dos entrevistados ainda não sabem em quem votar para esses cargos. O número, a esta altura da campanha, não deve ser tratado apenas como indecisão. É também um sinal preocupante do pouco interesse por uma escolha que terá consequências pelos próximos quatro anos.

RESUMO

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Pesquisa de opinião indica que mais de 80% dos eleitores ainda não sabem em quem votar para deputado estadual ou federal, o que especialistas apontam como sinal de desinteresse preocupante. A falta de atenção à disputa proporcional favorece candidatos com maior estrutura financeira e bases organizadas, ampliando a influência de grupos econômicos no Legislativo e reduzindo a capacidade do eleitor de cobrar seus representantes após a eleição.

O paradoxo é evidente. O eleitor acompanha a disputa para presidente, governador e prefeito, discute pesquisas, partidos e candidatos, mas muitas vezes deixa para os últimos dias — quando não para as últimas horas — a decisão sobre quem ocupará o Legislativo.

É um erro que custa caro.

Deputados estaduais e federais não são personagens secundários da democracia. Eles fazem leis, votam orçamentos, fiscalizam governos, aprovam ou rejeitam projetos, participam de comissões, decidem sobre impostos e influenciam diretamente a aplicação de bilhões de reais arrecadados da população.

Na Assembleia Legislativa, deputados têm poder para fiscalizar o governo estadual e decidir sobre matérias que atingem diretamente a vida da população. Na Câmara dos Deputados, passam decisões nacionais sobre economia, segurança, saúde, educação, impostos, direitos sociais e praticamente todas as grandes questões do País.

Mesmo assim, parcela expressiva dos brasileiros chega à eleição sem saber quem escolher para essas funções. Mais grave: depois de algum tempo, muitos sequer conseguem lembrar em quem votaram.

E quem ganha com esse esquecimento?

Certamente não é a democracia.

Quando o eleitor se afasta da disputa proporcional, cresce a vantagem de quem possui estruturas eleitorais poderosas. Candidatos com dinheiro, grandes redes de apoio, grupos econômicos, corporações, igrejas, entidades organizadas, máquinas partidárias ou bases eleitorais consolidadas entram na disputa quilômetros à frente daqueles que dependem essencialmente do convencimento do eleitor.

O voto de última hora também se torna terreno fértil para campanhas milionárias. Quanto menor o conhecimento sobre os candidatos, maior tende a ser o peso da propaganda, da exposição nas redes sociais, dos cabos eleitorais e das estruturas capazes de colocar determinado nome diante do eleitor repetidamente.

É nesse ambiente que o poder econômico encontra espaço.

Não significa, evidentemente, que todo candidato com recursos represente interesses privados nem que todo político apoiado por determinado setor vá atuar contra o interesse coletivo. A questão é outra: uma democracia saudável exige que o eleitor saiba quem está elegendo, quem financia e apoia aquela candidatura, o que o candidato defende e como pretende agir depois de eleito.

Sem essa fiscalização prévia, grupos organizados fazem aquilo que o cidadão comum deixou de fazer: escolhem seus representantes.

Depois da eleição, esses setores acompanham votações, pressionam parlamentares e defendem seus interesses. Enquanto isso, milhões de eleitores que depositaram o voto sem conhecer suficientemente o candidato desaparecem da relação política até a eleição seguinte.

O resultado pode ser um Legislativo muito mais conectado aos interesses de grupos organizados do que às prioridades do conjunto da sociedade.

Há ainda outra consequência. O eleitor que não acompanha deputados durante o mandato perde parte importante da capacidade de cobrar. Como exigir coerência de alguém cujo nome nem sequer se lembra? Como avaliar se o parlamentar cumpriu aquilo que prometeu? Como saber se fiscalizou corretamente o Executivo, como votou o orçamento ou quais interesses defendeu?

A eleição para deputado não pode ser tratada como complemento da escolha para governador ou presidente.

Antes de apertar os números na urna, o eleitor deveria fazer perguntas simples: Quem é essa pessoa? O que já fez? Qual seu patrimônio declarado? Quem está ao seu lado? Que interesses representa? Como se posiciona sobre os principais problemas do Estado e do País? Se já possui mandato, como votou e o que produziu?

Democracia não termina no voto. Mas começa por um voto consciente.

Quando mais de 80% ainda não sabem quem escolher para o Legislativo, o alerta não deve ser apenas para candidatos e partidos. Deve ser para a própria sociedade.

Porque o espaço deixado vazio pelo eleitor não permanece vazio por muito tempo.

Alguém o ocupa. E, quase sempre, quem possui dinheiro, organização e interesses bem definidos sabe exatamente quem quer colocar lá dentro.