Pesquisa sobre inclusão faz de Lucas o 1º mestre com paralisia cerebral no MS
Estudante de 28 anos defendeu a dissertação na última quinta-feira, na UEMS, em Campo Grande
Com uma pesquisa de mestrado que se mistura com a própria história pessoal, o estudante e pesquisador Lucas Helpis de Lima, de 28 anos, mostrou que a universidade é espaço para todos e se tornou a primeira pessoa de Mato Grosso do Sul com paralisia cerebral a se formar em uma pós-graduação.
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Lucas Helpis de Lima, de 28 anos, tornou-se a primeira pessoa com paralisia cerebral a concluir uma pós-graduação em Mato Grosso do Sul. Ele defendeu dissertação sobre inclusão de pessoas com deficiência na universidade pela UEMS. Diagnosticado desde o nascimento, Lucas destacou o descompasso entre políticas públicas e a realidade vivida por estudantes com deficiência no ensino superior. Agora, cursa Pedagogia e planeja o doutorado.
Ele defendeu a dissertação “Processo de Inclusão na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul sob o olhar de estudantes com deficiência” na última quinta-feira (16), quando conquistou o mestrado profissional em Educação pela UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), universidade onde construiu toda a sua trajetória acadêmica.
Ao Campo Grande News, Lucas explica que foi diagnosticado com paralisia cerebral desde o nascimento e que, em seu caso, há limitações motoras, mas sem prejuízo cognitivo. Desde cedo, sua família fez o acompanhamento médico, com fisioterapia.
Ele relata que a condição ocorreu por negligência médica durante o parto. “Por irresponsabilidade médica, ela ficou esperando, mas uma enfermeira a ajudou no trabalho de parto. Então nasci às 2h30 da madrugada do dia 27 de agosto. Em meio à demora do parto, o cordão umbilical enrolou no pescoço; isso acabou comprometendo e nasci com paralisia cerebral, afetando a coordenação motora”, conta.
A família se mudou para Campo Grande em 1998, período em que ele teve contato com a Educação Especial, após ser matriculado na APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).
O tratamento se iniciou com fisioterapia, depois fonoaudiólogo e psicólogo. Esse processo durou até os sete anos. Quero destacar a importância do material didático e pedagógico utilizado na época, que contribuiu para o meu desenvolvimento e despertou a atenção dos professores”, relata Lucas.

Em 2022, ele se formou bacharel pela universidade, na unidade de Coxim, no curso de Gestão Ambiental. Posteriormente, mudou-se para Campo Grande e começou a trabalhar na instituição. “Logo depois, entrei no programa ‘UEMS na Comunidade’, um projeto de extensão voltado ao atendimento da sociedade. A partir disso, comecei a me inteirar mais, conheci o mestrado e a minha orientadora, a professora doutora Celi”, afirma.
A escolha do tema da pesquisa não foi por acaso. Segundo ele, a inquietação surgiu da própria experiência de quem vive, na prática, os desafios e as contradições da inclusão no ensino superior. Para isso, entrevistou estudantes nos anos finais da graduação, comparando relatos com a própria trajetória.
Com base na minha vivência dentro da universidade como pessoa com deficiência, busquei entender como seria a experiência de outras pessoas nessa mesma condição”, explica o estudante.

De acordo com Lucas, os resultados revelam um cenário ambíguo. De um lado, há um conjunto robusto de leis, decretos e políticas públicas que garantem o acesso de pessoas com deficiência à universidade. Por outro, há um descompasso entre legislação e realidade. “Existem muitas políticas eficientes no papel, mas falta a efetiva aplicação delas”, afirma.
Entre os desafios, ele destaca a falta de preparo de parte dos docentes, a necessidade de ampliar o uso de tecnologias assistivas e a rigidez de alguns cursos. Para ele, ampliar o acesso passa não só por garantir direitos, mas por informar e incentivar desde cedo. “Isso começa na educação básica. Muitos alunos ainda não têm acesso à informação necessária para acreditar que podem chegar à universidade”, diz.
Agora, com o título em mãos, Lucas afirma que já iniciou uma segunda graduação, em Pedagogia, e pretende seguir para o doutorado, aprofundando os estudos em educação inclusiva. “Espero que a pesquisa sirva de incentivo para outras pessoas com deficiência correrem atrás dos seus objetivos. A universidade abre portas”, completa.

Desafios ainda persistem - A pesquisa de Lucas reforça um cenário já observado por sua orientadora, a professora do curso de Psicologia e dos programas de Mestrado e Doutorado em Educação da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Celi Neres, que atua há 27 anos na área de educação especial e inclusão escolar.
Segundo Celi, a presença de pessoas com deficiência na pós-graduação ainda é rara. “Nós ainda temos um número muito baixo de pessoas que ingressam e concluem a pós-graduação. O Lucas é o primeiro estudante com paralisia cerebral a concluir o mestrado no Estado”, afirma.
Ela lembra que, mesmo entre outros perfis, os casos são poucos. “O primeiro foi o José Aparecido, que é cego, fez mestrado na UEMS e doutorado na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). Na UFMS, também temos outro estudante que concluiu o mestrado, que também é cego. Na UCDB, há um estudante surdo que fez mestrado e doutorado. Mas para você ver, ainda são números bem pequenos”, relata.
De acordo com a professora, a UEMS foi pioneira ao implantar cotas para pessoas com deficiência na pós-graduação, mas a política ainda é recente no país. Segundo Celi, muitas universidades passaram a adotar medidas semelhantes apenas a partir de 2023.
Ela avalia que o momento atual é de transição. “Agora é que estamos colhendo os primeiros frutos, porque esses alunos passam pelo processo de inclusão na educação básica e conseguem acessar a educação superior. O número na graduação tem avançado bastante, mas, em termos de pós-graduação, ainda é bem pequeno”, explica Celi.
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