Muita gente já passou a madrugada dentro da imaginação de Scalise
Poucos arquitetos tiveram tanta liberdade para criar cenários em bares de Campo Grande
Quem entrou no Pele Vermelha para dançar madrugada adentro, brindou no Coronas achando que estava no México, passou sob os enormes budas da Valley Tai ou levantou os olhos para o lustre de garrafas PET do Grous conheceu, sim, um pedaço de Luis Pedro Scalise.
RESUMO
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O arquiteto Luis Pedro Scalise, morreu nesta quinta-feira (7), deixando como legado projetos que marcaram a vida noturna de Campo Grande. Entre suas obras estão o Pele Vermelha, inaugurado em 2002, o bar Coronas, a Valley Tai, o Grous Bar e a Casa do Papai Noel. Scalise era conhecido por transformar espaços comuns em cenários temáticos, combinando criatividade e ousadia em cada projeto.
O arquiteto, que morreu nesta quinta-feira (7) criou cenários para a cidade viver histórias. Foi assim no Pele Vermelha, talvez sua obra mais ousada. Em 2002, quando inaugurou a casa temática inspirada em uma lenda indígena, Campo Grande ainda não estava acostumada a entrar numa boate e encontrar garçons vestidos como indígenas, gente dançando sobre o balcão e até a carcaça de um avião compondo o cenário. A cidade estranhou.
Durante meses surgiram boatos de todos os tipos. Disseram que era uma casa gay. Depois que era cara demais. Em seguida, que funcionava como prostíbulo. Scalise respondia às críticas quase sempre com criatividade. Quando disseram que era caro, distribuiu dólares na porta para que as pessoas gastassem na festa.
O Pele Vermelha falava de uma civilização perdida no Pantanal, protegida por tempestades provocadas pela dança da chuva dos indígenas. Até a carcaça do avião fazia parte da ficção.


Anos depois, viria outro convite para brincar com o imaginário. No Coronas, que ficava na Rua Euclides da Cunha, o desafio foi transformar um prédio comum em um pedaço do México. Scalise resolveu ignorar a arquitetura tradicional e mergulhar no folclore mexicano. Cactos, iguanas, fitas coloridas, móveis garimpados em antiquários, gaiolas e uma explosão de cores fizeram muita gente esquecer, por algumas horas, que estava em Campo Grande.
Ele costumava dizer que a cor era um estado de espírito. Poucos arquitetos tiveram tanta liberdade para imaginar quanto Scalise. Amigos e empresários contam que ele frequentemente recebia carta branca para criar.
Foi assim nas casas do Grupo Valley. Na reforma da Valley Acoustic, na Rua José Antônio, o pedido dos donos foi reinventar tudo. Depois de sete meses de obras, praticamente nada lembrava a antiga casa. A fachada ganhou madeira de demolição, portas antigas, janelas recuperadas e um enorme saloon inspirado no universo country.


Depois veio a Valley Tai, inaugurada em 2015. Ouro, budas, referências à Tailândia e uma decoração que transformava uma balada em um cenário cinematográfico.
Para Sérgio Longo, sócio do grupo Valley, Scalise nunca foi apenas o arquiteto responsável pelos projetos.
"O Luis Pedro foi a Valley, na verdade. Ele estava com a gente havia 20 anos, desde a primeira Valley. Era um grande amigo. Sempre falava que tinha nós três [sócios] como filhos. Além de todo o sucesso, foi fundamental para a marca, tanto como arquiteto quanto como amigo."

Quando queria surpreender, Scalise também recorria ao improvável. No Grous Bar, inaugurado em 2019, construiu um enorme ninho com 30 toneladas de madeira na fachada. Dentro, pendurou um lustre formado por mais de 45 mil garrafas PET pintadas uma a uma. Havia ainda penas cenográficas no balcão, pratos formando a cabeça da ave nas paredes e um jogo de luzes pensado para revelar detalhes escondidos ao longo da noite. Era sustentável, teatral e exagerado na medida certa.
A mesma lógica apareceu na Casa do Papai Noel, que funcionou até 2018. Ali, adultos e crianças caminhavam por um universo onde sofá de bala, teto de algodão-doce e chão de marshmallow pareciam reais. Não eram. Tudo era cenografia, cuidadosamente construída para provocar encantamento.

Scalise gostava de transformar espaços em experiências. Foi assim também no Restaurante e Bar Nô, no Jardim Bela Vista, que funcionou em 2018, e que levou para a arquitetura referências aos Emirados Árabes. O bar virou uma das principais atrações da casa, com um lustre em formato de "S" produzido com cerca de 4,8 mil cabos de vassoura, inspirado nas estalactites de Bonito. No balcão, troncos de eucalipto imitavam estalagmites. Para ele, o restaurante era um espaço onde todas as artes deveriam se encontrar, da gastronomia à fotografia, do teatro às artes plásticas.
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