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Arquitetura

Sobrado de 1949 foi inaugurado para casamento e vai virar museu

A família libanesa Abussafi veio parar no Brasil sem querer, por confusão na hora de embarcar em navio

Por Aletheya Alves | 27/01/2022 09:15
Prédio marca a esquina da Rua 14 de Julho com Antônio Maria Coelho. (Foto: Marcos Maluf)
Prédio marca a esquina da Rua 14 de Julho com Antônio Maria Coelho. (Foto: Marcos Maluf)

Construído para os primeiros passos de uma nova família, o sobrado que marca a esquina da Rua 14 de Julho com a Antônio Maria Coelho mantém as lembranças dos últimos 73 anos em Campo Grande. Como se estivesse ali para provar que quase nada mudou desde 1949 em sua estrutura, a cobertura sanfonada de ferro na sacada do prédio sempre salta aos olhos e é algo intacto na história de quando o prédio foi inaugurado para o casamento de Sarah Abussafi e Eliphas Figueiró.

Pensando bem, a construção nos leva até histórias que remetem ao ano de 1912, quando ninguém imaginava que o espaço seria construído. Se tudo tivesse ocorrido como o previsto, o sobrado não ia existir e as famílias Abussafi e Figueiró nunca teriam se unido.

Cobertura feita de ferro abriga sacada de sobrado. (Foto: Marcos Maluf)
Cobertura feita de ferro abriga sacada de sobrado. (Foto: Marcos Maluf)

Tendo vivido toda a sua infância entre os cômodos e cantos da casa, o advogado Humberto Sávio Abussafi Figueiró, de 54 anos, narra que tudo começou no Líbano, com seus avós, Sofia e Dib Jorge Abussafi e uma grande confusão.

Assim como inúmeras famílias da região fizeram durante os séculos XIX e XX, o casal resolveu sair de seu país de origem durante a diáspora libanesa e, por um descuido, eles pararam aqui.

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O que aconteceu é que eles pegaram um navio para os Estados Unidos, mas vieram para os Estados Unidos do Brasil. A opção era subir o Rio Paraguai e parar em Corumbá, que em 1912, era uma metrópole", conta.

Entre 1889 e 1968, o nome oficial do País era justamente o relatado por Humberto e, apesar dos desencontros, a família resolveu criar e manter as raízes no solo inesperado. “Eles vieram pela Argentina e pararam em Corumbá. Se estabeleceram por lá e tinham uma loja. Depois, com a estrada de ferro, quando houve ligação de trem, vieram para cá em 1917”, ele explica.

Tempos depois, dos nove filhos do casal, entre eles, a mãe de Humberto, Sarah Abussafi Figueiró, foi o motivo para que o sobrado da 14 de Julho fosse construído. “Eles tinham uma casa em outro endereço na região central, onde, na época, meu avô criava cabras. Esse sobrado aqui foi um acontecimento, porque a inauguração foi feita para o casamento da minha mãe.”

Portas e janelas largas seguem abertas na esquina da Rua 14 de Julho. (Foto: Paulo Francis)
Portas e janelas largas seguem abertas na esquina da Rua 14 de Julho. (Foto: Paulo Francis)

Além das portas, das janelas, dos lustres e colunas, aquela cobertura de 73 anos, lá no alto da sacada, vai continuar como prova do tempo, inclusive, com poder cultural sobre a história da arquitetura de Campo Grande.

“Morei lá até meus doze anos e as tesouras de peroba rosa que sustentam o telhado seguem até hoje. Somos seis irmãos e vivemos ali por muitos anos. Muitos filhos dos meus avós se mudaram da cidade, mas o cerne ficou aqui”, diz Humberto.

No alto, um símbolo que parece o numeral 3 em romano, é algo que o neto dos proprietários desconhece.

"Me falaram que era um símbolo maçom", sem detalhar. Podem ser três grandes colunas que representam a Sabedoria, a Força e a Beleza, ou Salomão, Hiram rei de Tiro e Hiram Abif e são colocadas no Oriente, no Ocidente e no Sul, para representarem as três luzes da loja.

Em transformação 

Comprovando que o prédio segue sendo mantido vivo pela família, a parte de baixo do sobrado abriga outras tradições trazidas pela filha de Humberto, Victória, enquanto os apartamentos irão se tornar um espaço cultural.

Busto grego foi inserido na decoração do espaço ao lado de coluna. (Foto: Paulo Francis)
Busto grego foi inserido na decoração do espaço ao lado de coluna. (Foto: Paulo Francis)

“Minha filha trouxe uma chiparia grega, que já existia há anos na cidade, para o espaço. Agora, eu estou transformando a casa, porque minha mãe era uma artista cultural, sempre movimentando o cenário. Agora, vamos montar o Centro Cultural Sarah Figueiró na parte de cima”.

De acordo com Humberto, o projeto irá contar com acervo de quadros feitos pela mãe em uma exposição permanente. Em conjunto, a ideia é que artistas tenham um espaço para mostrar suas criações e manter o edifício vivo.

Sarah e o esposo, Eliphas Figueiró, em foto da década de 1970. (Foto: Arquivo Pessoal)
Sarah e o esposo, Eliphas Figueiró, em foto da década de 1970. (Foto: Arquivo Pessoal)

Aos 85 anos, a artista Sarah Abussafi Figueiró morreu em 2019 e também foi uma das fundadores da Rede Feminina de Combate ao Câncer e do Hospital de Câncer Alfredo Abrão.

Ela foi presidente da Associação Artístico e Cultural de Mato Grosso do Sul, da Associação dos Pintores de Porcelana e da Associação Sul-Mato-Grossense dos Profissionais de Dança, onde colaborou com a regulação da categoria e organizou vários festivais.

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