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Campo Grande, Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019

18/11/2019 08:34

Pesquisa de Mayara Amaral inspirou Thaís, que busca lançar disco em homenagem

Ela é gaúcha e descobriu que a musicista foi pioneira na pesquisa sobre mulheres compositoras para violão e quer dar continuidade

Alana Portela
 Thaís Nascimento fez uma foto segurando o violão na mão com a família de Mayara ao fundo, para a capa do disco (Foto: Divulgação) Thaís Nascimento fez uma foto segurando o violão na mão com a família de Mayara ao fundo, para a capa do disco (Foto: Divulgação)

Pesquisa iniciada pela musicista Mayara Amaral inspirou Thaís Nascimento, que agora quer lançar disco em sua homenagem. O trabalho “Expressivas” é uma continuidade ao estudo da sul-mato-grossense, sobre “mulheres compositoras para violão” e tem o intuito de redescobrir obras de violonistas e atuar na igualdade de gênero.

Contudo, para a ideia sair do papel ela lançou uma vaquinha on-line, com a meta de arrecadar R$ 10.800,00. O valor será usado na produção do disco que deve ser lançado em maio de 2020. “Estou terminando de gravar e serão 11 músicas. O dinheiro é para a prensagem, masterização e direitos autorais do disco”, diz Thaís.

Ela é de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, tem 25 anos e trabalha com música há dez. É violonista e fala sobre o amor pelo instrumento. “O violão é um trabalho ligado a boemia, noite, bar. Exige autonomia de acordes e dou curso de violão para mulheres cobrando mensalidade baixa”.

Em julho de 2017 Thaís soube do assassinato da musicista Mayara, que também era violonista e mestre em música pela UFG (Universidade Federal de Goiás). A sul-mato-grossense tinha vários projetos entre música erudita e popular, e se preparava para realizar seu doutorado, contudo teve o sonho interrompido aos 27 anos, por um crime brutal que repercutiu em todo País.

Mayara Amaral não desgrudava do seu violão (Foto: Reprodução/ Facebook)Mayara Amaral não desgrudava do seu violão (Foto: Reprodução/ Facebook)

Ela foi atraída por Luis Alberto Bastos Barbosa até um motel de Campo Grande, onde foi morta com marteladas na cabeça e depois teve o corpo abandonado e incendiado na estrada que dá acesso a Cachoeira do “Inferninho”.

O assassinato teve projeção nacional e motivou protestos em diversas cidades. Através das redes sociais a notícia também chegou a Thaís que ficou entristecida e revoltada com o crime. “Sou mulher e violonista. Fui atrás de mais informações e descobri que ela foi a primeira a pesquisar sobre compositoras para violão e isso me fez sentir mais raiva da pessoa que cometeu o crime. É mais um assassino, percebi o ódio contra as mulheres e feministas”, destaca.

Hoje, a memória da musicista “vive” por meio de músicas, homenagens, poema e até documentário. Mayara transformou a vida de muitas pessoas, incluindo a da irmã, e hoje inspira lutas feministas Brasil agora.

Thaís também resolveu dar continuidade ao trabalho de Mayara e seguir com outra pesquisa sobre mulheres compositoras para violão. “Antes mesmo de saber desse estudo, já tinha feito uma rede de contato com violonistas, por conta da também violonista Elodie Bouny que mora no Rio de Janeiro. Desde então reformei meu repertório e consegui compor uma música instrumental sobre capoeira”, conta.

Thaís também é violonista (Foto: Divulgação)Thaís também é violonista (Foto: Divulgação)

Ela passou buscar compositoras inspiradas na Mayara. Foi mais de dois anos de pesquisas para criar um produto músico-cultural, que também é instrumento de luta dos direitos das mulheres. “Somos mais de 50% da população e mesmo assim continuamos sendo desrespeitadas diariamente. Existe alto índice de violência e acredito que se tivéssemos mais representatividade na música poderíamos ser mais respeitadas e menos violentadas”, destaca.

A música faz parte da vida de Thaís desde a infância. Uma das lembranças é a experiência com o violão da avó, quando pegou para testar suas habilidades. Aos 11 anos realizou o primeiro curso de música, entretanto, teve que “quebrar barreiras”. “Resolvi fazer aulas de violão, mas me intimidaram e eram poucas meninas. Me colocaram para cantar, porém sai do curso e aprendi sozinha. Fui autodidata e aos 15 anos participei de dois projetos sociais, onde pude estudar música de forma gratuita e consegui fazer a graduação em música”.

Na fase adulta, Thaís continua enfrentando preconceitos e recorda de outros momentos inconvenientes que teve de passar. “Estava tocando numa roda de música e um homem tirou o instrumento da minha mão para ele tocar. Já teve outro que invadiu o palco e começou a tocar, o agradeci, mas disse que não era preciso. Ele saiu do palco porém depois ainda me perturbou de forma violenta”, lembra.

Apesar das dificuldades, a violonista não abaixou a cabeça e continua representando as mulheres. Seu destino se “ligou” a história Mayara e Thaís entrou em contato com a família da musicista para falar sobre a proposta. “Consegui o contato da irmã dela, liguei e falei da homenagem, aí agendamos um encontro. Convidei ela e a mãe para fazer uma foto para a capa do disco”. A gaúcha marcou um encontro com a família e veio até Campo Grande para conhecê-la.

Até o momento, Thaís já arrecadou R$ 4.520,00, menos da metade prevista para a conclusão do projeto. A vaquinha vai até dia 19 de janeiro de 2020 e para ajudar é só clicar aqui. A previsão para o lançamento do projeto “Expressivas” é maio do próximo ano.

No repertório do disco estão trabalhos de compositoras americanas do norte ao sul do continente, como Barbara Kolb dos Estados Unidos, Elodie Bouny da Venezuela e as compositoras brasileiras Chiquinha Gonzaga do Rio de Janeiro, Cíntia Ferreiro e Lina Pires de Campos de São Paulo, Lúcia Teixeira e Andrea Perrone do Rio Grande do Sul.

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Thaís gravando as músicas para o projeto (Foto: Divulgação)Thaís gravando as músicas para o projeto (Foto: Divulgação)
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