Aos 78, cacica escreve livro para manter viva memória e língua Guató
Dalva Maria de Souza Ferreira apresenta histórias, costumes e dicionário da linguagem do seu povo
Para evitar que a cultura de seu povo desapareça, a cacica Dalva Maria de Souza Ferreira, de 78 anos, dedicou mais de três décadas aos estudos que resultaram em um livro de memórias e um dicionário da língua Guató. Ao Lado B, ela detalhou o processo de criação da obra, que reúne histórias, costumes e palavras do seu povo.
RESUMO
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A cacica Dalva Maria de Souza Ferreira, de 78 anos, dedicou mais de três décadas à criação do livro "Memórias e Dicionário Guató de Mathodjárho", obra que reúne histórias, costumes e palavras do povo Guató do Pantanal. O título carrega um nome especial dado pelo avô da autora, que significa "flor selvagem". A publicação será lançada on-line até setembro e visa preservar a língua e a cultura do povo Guató para as futuras gerações.
Logo no início, Dalva faz questão de enfatizar que o livro foi escrito a partir dos estudos e da convivência com os idosos do povo Guató. “Nós fomos considerados extintos e ficamos isolados por muitos anos, hoje estamos vivos reconhecidamente por todo Brasil e exterior”.
Intitulado “Memórias e Dicionário Guató de Mathodjárho”, o livro carrega no nome uma história especial para a cacica. Dalva explica que a última palavra do título significa “flor selvagem” e também foi o nome que recebeu do avô.
“Um dia ele me perguntou: ‘Dalva, eu posso te dar um nome na minha língua?’. Eu ri com ele e disse: ‘Pode’. E, brincando, ainda falei para ele: ‘Com muita honra eu aceito, tanto que não seja feio’. E ele disse: ‘Mathodjárho, Flor Selvagem, porque você veio da selva para desbravar nossas terras, nossas matas. Minha filha, você é valente nas lutas junto do seu marido’. E foi isso que me incentivou a continuar buscando cada vez mais”, lembra.
Segundo a autora, foram mais de 30 anos de estudos, entre pesquisas e leituras de livros escritos por outros pesquisadores, como Cabeza de Vaca. “O livro é seguido por um dicionário na língua Guató, não porque foi importante, é porque eu estudei, lutei pra isso, pra não deixar morrer o meu povo Guató, canoeiros do Pantanal. Pois, sem o idioma, não tem existência, não tem tradição, o idioma é nossa força”.
Dalva explica que a presença do dicionário na obra tem um propósito: ajudar as novas gerações a manter a língua viva. “Nós temos professores dando aula na língua Guató na nossa escola da aldeia para as nossas crianças, mas é difícil porque os nossos falantes já se foram. Por isso, a necessidade do dicionário, para que todos possam ter acesso ao estudo da nossa língua”.
Além das palavras, o livro também guarda memórias e histórias do cotidiano da etnia e seus costumes. “Tais como da caça, da pesca, por tudo é feito através das águas, de canoas de pau, só no Pantanal, coletas de frutos, de materiais pra artesanatos e outras coisas mais”, explica.
Para Dalva, deixar a obra é uma forma de entregar às próximas gerações um legado do povo Guató do Pantanal. Aos 78 anos, ela já pensa nos próximos projetos. “Hoje estou próximo a completar 79 anos e estou estudando ainda a fim de escrever mais um livro, uma cartilha no idioma, e já tenho uma música também na língua Guató”.
Inicialmente, “Memórias e Dicionário Guató de Mathodjárho” será publicado on-line. A previsão é de que o lançamento ocorra até setembro.
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