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Campo Grande, Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

16/12/2019 06:20

Após perder o filho, Quézia planta ipê para dar novo sentido à despedida

O tempo passa devagar para quem perde um filho, por isso, Quézia encontrou uma forma de ver o tempo passar plantando amor

Thailla Torres
Quézia plantou árvore no quintal do local onde trabalha para lembrar todos os dias do filho. (Foto: Kísie Ainoã)Quézia plantou árvore no quintal do local onde trabalha para lembrar todos os dias do filho. (Foto: Kísie Ainoã)

O tempo passa depressa para algumas coisas, mas nunca é ligeiro com quem perde um filho. Quézia Pinheiro Tosta, de 30 anos, sabe bem disso. Ela se despediu de Pedrinho, seu primeiro filho, no último dia 2 de novembro. A data se tornou ainda mais significativa quando a mãe decidiu plantar uma árvore para dar um outro sentido a ausência do filho, que morreu cedo, mas ensinou à mãe o que durante três décadas ela nunca soube aprender: tudo tem o seu tempo.

A gestação foi tranquila até o terceiro mês. Com poucos enjoos, relata Quézia. A diferença era uma só, um problema no colo do útero que ocasionava alguns sangramentos, mas que com acompanhamento médico tornava a gestação tranquila.

No entanto, um dos exames de rotina se revelou como maior angústia dentro do hospital. “Me disseram que eu tinha um quadro que poderia ser incompetência istmo-cervical (quando colo uterino reduz de tamanho e se dilata antes do fim da gravidez) e teria que ficar internada em repouso durante seis semanas para segurar o bebê”, conta.

Mãe fala da importância de dialogar sobre a morte. (Foto: Kísie Ainoã)Mãe fala da importância de dialogar sobre a morte. (Foto: Kísie Ainoã)

A notícia não foi tão bem recebida por Quézia, uma mulher que sempre amou trabalhar e cumprir com toda a agenda. “Na hora que me falaram eu isso eu fiquei maluca dizendo que não podia, que tinha um monte de cliente para atender até que não teve jeito, tive que ficar”.

Após 10 dias de repouso absoluto, Quézia entrou em trabalho de parto e foi necessário romper a bolsa. Os minutos que antecederam a chegada de Pedro ao mundo foram os mais difíceis. Longe de um atendimento humanizado, a mãe se viu num cenário distante de informações e entendimentos sobre o próprio parto que, diante do tempo de gravidez, é considerado apenas como um “procedimento”.

Pedro nasceu em óbito, de 20 semanas e 1 dia, 350 gramas e 27 centímetros. Quézia o viu rapidinho e não entendeu muito bem no primeiro momento tudo o que havia acontecido. “Após o parto normal induzido, fiquei mais sete dias internada porque tive infecções. Depois disso, procurei um grupo de apoio coordenado por uma psicóloga para conseguir lidar com a perda”.

Ela então descobriu que além da dor de perder um filho, precisava enfrentar a indiferença de quem tenta minimizar a dor como se o filho nunca tivesse existido. “Infelizmente, não é um tema muito falado e conversado. Essa dor é única e eu vejo no grupo que a gente precisa falar sobre. A primeira vez que fui ao grupo me perguntaram se eu havia me despedido do bebê. E foi quando eu comecei a digerir tudo que havia acontecido”.

Foi então que a ideia de plantar surgiu como um recomeço para Quézia. “No meu serviço tem uma moça terminando o mestrado e há muito tempo ela queria plantar uma árvore, inclusive, havia pedido ao viveiro municipal uma muda. Quando fez um mês da partida dele, eu estava triste, muito triste, e o rapaz chegou com as mudas de árvores. Foi então que eu decidi plantar no quintal do trabalho para me lembrar dele, todos os dias”.

Hoje o sorriso chega naturalmente ao falar de Pedrinho. (Foto: Kísie Ainoã)Hoje o sorriso chega naturalmente ao falar de Pedrinho. (Foto: Kísie Ainoã)
Da janela é possível enxergar o pé de ipê. (Foto: Kísie Ainoã)Da janela é possível enxergar o pé de ipê. (Foto: Kísie Ainoã)

A árvore trouxe um novo sentido a morte. “Ela (árvore) tem um sentido de vida, de renovação. O tempo passa tão rápido para tanta coisa, mas para quem perde um filho. Então ver uma árvore crescendo vai fazer eu me lembrar daqui a cinco anos qual vai ser o tamanho dela. E eu vou me lembrar que o Pedro ia ter cinco anos, por isso, quero que ela fique aí até florescer e eu veja realmente as flores para me lembrar do Pedro”.

A árvore também se tornou uma forma de Quézia entender e encarar tudo o que passou a ouvir depois da morte do filho. “Muitas pessoas foram me visitar no hospital e algumas foram só pela curiosidade em saber o que estava acontecendo ou se eu poderia ter evitado. A primeira coisa é que as próprias pessoas colocam uma carga de culpa em cima da mãe. E eu não poderia ter evitado de forma alguma. No começo fiquei me culpando muito por causa disso”.

A mãe ouviu de tudo, inclusive, comentários que chegam em tom de conforto, mas se tornam insensíveis. “Pessoas falaram que não tinha problema, que eu era nova, que logo mais Deus vai me dar outro filho, que Deus quis que ele partisse, que talvez eu deveria ter evitado. Ou seja, ouvi muitos clichês e isso me fez demorar um pouco para voltar a rotina”, lembra.

O surpreendente, segundo Quézia, foi perceber que muitas mulheres passam por isso sem nenhum apoio. “Longe do diálogo, elas tratam a situação como se isso nunca tivesse acontecido. Como se ela fosse obrigada a passar por cima de toda a dor e continuar a vida. Eu fiquei com muita raiva no começo com as coisas que eu ouvia, depois fui entendendo que as pessoas não fazem por maldade, fazem por desinformação”, afirma.

Quando a reportagem pergunta “o que ficou de quem partiu?”, a reposta vem com um misto de sorriso e lágrimas, mas não de tristeza, afirma. “O que ficou dele foi descobrir que aos 30 anos eu não tenho controle da vida. Eu achava que minha vida seguiria todos os passos que eu tinha organizado. Então o que ficou para mim foi não ter nas mãos o controle. E isso não é ruim, porque eu nunca imaginei que aos 30 anos eu plantaria uma árvore e 40 dias depois da partida do meu filho estivesse bem, conseguindo lembrar dele com mais amor, e menos dor”.

A mãe confessa que talvez a dor nunca passe, mas pode ser amenizada com o amor e o entendimento que tudo tem o seu tempo. “Confesso que hoje eu vejo muito sobre incompetência, vejo milhões de relatos e sinto muito medo de ter outro filho. Mas isso não pode parar a minha vida. Ele hoje ele me dá forças para pensar em dar a ele um irmãozinho. Não tão cedo porque eu não posso. Mas penso realmente nisso, porque ele existiu, ele tem um nome e será sempre o meu primeiro filho”.

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Quero olhar para ela todos os dias e lembrar dele com amor. (Foto: Kísie Ainoã)"Quero olhar para ela todos os dias e lembrar dele com amor". (Foto: Kísie Ainoã)
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