13 de maio: o que a escola não ensina sobre a abolição da escravidão
Escravizados enfrentaram exclusão e tiveram cidadania negada após a Lei Áurea

Mais de um século depois da assinatura da Lei Áurea, o 13 de maio ainda carrega uma pergunta que raramente foi aprofundada nas salas de aula. A abolição da escravatura realmente significou liberdade para a população negra do Brasil?
Embora a data tenha sido historicamente apresentada como símbolo de libertação, representantes do movimento negro, comunidades quilombolas e estudiosos defendem que o episódio precisa ser encarado como um marco de reflexão sobre uma liberdade sem inclusão, sem reparação e sem políticas públicas.
Para a professora universitária, doutora em educação e representante do movimento negro, Bartolina Ramalho, a história oficial omite pontos fundamentais sobre o processo de abolição.
“A liberdade não foi dada pela princesa Isabel. Ela foi conquistada pela luta do povo negro e por um contexto político e econômico que pressionava o Brasil. A assinatura aconteceu porque já não havia alternativa”, afirma.
Bartolina lembra que a Lei Áurea possuía apenas dois artigos e não previa qualquer medida de inserção social para os milhões de negros que deixavam a condição de escravizados. “Não houve terra, trabalho, moradia ou educação. A população negra foi abandonada à própria sorte”, pontua.
Segundo ela, enquanto outros grupos receberam incentivos para ocupar e produzir no Brasil, como imigrantes italianos e japoneses, os ex-escravizados foram excluídos. “Isso construiu uma desigualdade estrutural que permanece até hoje, refletida na pobreza, no acesso à educação e nas oportunidades”, destaca.
Por isso, o movimento negro considera o 13 de maio uma data de reflexão, e não de celebração. “Para nós, o verdadeiro símbolo da luta é o 20 de novembro, ligado à resistência de Zumbi dos Palmares”, completa Bartolina.
Nesta segunda-feira, a Secretaria de Estado da Cidadania reuniu lideranças quilombolas de diferentes regiões de Mato Grosso do Sul para debater igualdade racial, ancestralidade e os desafios que ainda atravessam gerações.
Subsecretário de Políticas Públicas para Promoção da Igualdade Racial, Davidson Silva afirma que o objetivo do evento foi justamente desconstruir a visão romantizada da Lei Áurea.
“Durante muito tempo foi ensinado que houve libertação, mas na prática foi uma falsa liberdade. O que veio depois foi abandono, exclusão e marginalização da população negra”, destaca.
Segundo Davidson, a proposta foi ressignificar o 13 de maio não como celebração, mas como marco de sobrevivência e resistência. “A data precisa ser entendida como reflexão sobre o período pós-escravidão, porque não houve inclusão social, econômica ou educacional para essas pessoas”, pontua.
Gerente de igualdade racial de Corumbá, Gylize Carvalho reforça que a história costuma ignorar o impacto do pós-abolição.
“O problema não foi apenas o fim oficial da escravidão, mas o que veio depois. E no dia seguinte? Essas pessoas não tiveram acesso a direitos básicos, cidadania ou condições reais de liberdade”, relata.
Ela explica que políticas como cotas raciais surgem como tentativa de reparação diante de uma exclusão histórica. “São mecanismos para minimizar danos de uma injustiça profunda”, finaliza.
Morador da Comunidade Quilombola São João Batista, João Anunciação, de 27 anos, afirma que viver em um quilombo hoje representa resistência, identidade e recuperação da ancestralidade. “Pertencer ao quilombo é entender nossa história, combater o preconceito e fortalecer o orgulho negro”, avalia.
João destaca que o abandono pós-Lei Áurea ajudou a consolidar desigualdades ainda visíveis nas periferias e nas estruturas sociais brasileiras. “Sem acesso à terra, à escola e à dignidade, a população negra foi empurrada para espaços marginalizados. Isso tem reflexos diretos até hoje”, relata.
Para ele, a educação sobre esse passado é essencial para romper ciclos de racismo e estereótipos. “O conhecimento faz com que a população negra entenda sua história e fortaleça sua identidade”, conclui.
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