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Comportamento

Desiludido com promessas na cidade, há 6 anos Ronaldo mora com bichos sob ponte

Ele diz que fugiu de casa aos 7 anos de idade e garante: "não sou vagabundo não"

Por Aletheya Alves | 13/08/2020 06:47
Ronaldo Antônio Pereira, de 50 anos, mora debaixo de ponte há seis anos. (Foto: Marcos Maluf)
Ronaldo Antônio Pereira, de 50 anos, mora debaixo de ponte há seis anos. (Foto: Marcos Maluf)

A 30 quilômetros da área urbana de Campo Grande, Ronaldo Antônio Pereira vive sob uma das pontes da BR-262.  Já são 6 anos assim, no meio do mato e convivendo só com os bichos. Depois de muitas promessas não cumpridas, a fé na humanidade se foi, assim como a energia para tarefas triviais, como tomar banho. Até a vontade de viver não tem mais lugar na "caverna" criada por ele em meio ao vai e vem de veículos pesados.

De chapéu e óculos escuros, o homem que diz ter 50 anos sai do meio do mato e se aproxima avisando que a credibilidade de quem mora na cidade é baixa. “Até posso falar com vocês, mas não acredito em ajuda”. A desconfiança é justificada com histórias sobre pessoas que se aproximam do local oferecendo mundos e fundos, mas que na prática só deixam expectativas frustradas.

“Cada vez que eu vejo que é mentira, a esperança vai embora e junto vai a vontade até de tomar banho. Eu sempre falo que ninguém tem obrigação de me ajudar, então para quê fazer promessa? Você coloca expectativa em uma pessoa que já tá deprimida e quando não cumpre, fica a tristeza”, diz.

Sem vontade de viver, ele diz que perdeu as contas de quanto faz desde o último banho. (Foto: Marcos Maluf)
Sem vontade de viver, ele diz que perdeu as contas de quanto faz desde o último banho. (Foto: Marcos Maluf)

Lucido, Ronaldo relata que pescadores e pessoas desconhecidas aparecem rotineiramente. No meio dessas visitas, ele já perdeu as contas de quantos tiraram fotos de seus documentos dizendo que iriam conseguir aposentadoria e auxílio emergencial do governo.

Me levar até os lugares ninguém vai, você acha que alguém quer andar dentro do carro com gente como eu? Um me pediu para assinar uma procuração e eu não aceitei.

De volta à “civilização” - Durante os seis anos de ponte, duas formas de “resgate” apareceram. Ele conta que entre as ajudas oferecidas, duas foram mais fortes. “Primeiro me levaram para uma chácara e prometeram que ia ter televisão, celular. Dois dias depois foram tirando o que tinham me dado, aí resolvi voltar”.

Corpo mantém cinzas que sobraram em fogaréu para espantar insetos. (Foto: Marcos Maluf)
Corpo mantém cinzas que sobraram em fogaréu para espantar insetos. (Foto: Marcos Maluf)

A segunda história é recente, tem pouco menos de sete meses. Levado para o Jardim Canguru, ele explica que se enquadrar nos pedidos exigidos pela instituição que o ajudou acabou não funcionando.

Me deram uma casa e cesta básica. O problema é que começaram a querer regrar minha vida e eu não concordei. Voltei a comer comida do lixo na cidade e vim de novo para cá.

Questionado sobre querer voltar a morar na cidade, ele explica que a situação é mais complicada do que parece. “Eu tenho vontade de ter uma casa minha, tenho esse sonho. Agora, voltar para morar na rua não quero. Você dorme e pode acordar com um policial te batendo, alguém querendo te usar como banheiro, gente cuspindo em você. Sei como é, já vivi isso”.

Córrego Guariroba com barco de pescadores que frequentam o local. (Foto: Marcos Maluf)
Córrego Guariroba com barco de pescadores que frequentam o local. (Foto: Marcos Maluf)

Aqui o perigo são os outros viventes (bichos), é só respeitar que eles te respeitam. Morando na rua da cidade é muito pior, tem humano e você nunca sabe o que vai acontecer.

Sem poder dormir em colchão devido a dor na coluna, a cama na base da ponte e o “armário” de comidas reúne um pote de sal, pacote de arroz, fubá, feijão e resto de café. Tudo doado.

Da fazenda até a ponte - Contar sua história cronologicamente também é um tanto complicado, mas Ronaldo começa dizendo que fugiu da fazenda em que morava aos 7 anos. “Minha mãe e meu pai ficavam brigando por causa da minha pensão, chegou um dia que peguei minha certidão de nascimento e fui embora. Como eu era criança, não lembro muito bem”.

Continuando a narrativa, ele explica que começou a trabalhar cortando cana em fazendas e de emprego em emprego conseguia se sustentar. “Não sou vagabundo igual as pessoas pensam”.

Depois fui para outras fazendas, trabalhei como pedreiro e sempre morei de aluguel. O pobre que recebe salário mínimo não tem muita escolha e quando perde a chance de emprego, pega o caminho da rua.

Seguindo essa rota e sem teto, o último emprego que conseguiu foi aos 35 anos como catador de recicláveis. “Fiz trabalho braçal a vida inteira e consegui um problema nas costas com 40 anos. O que piorou foi catar lixo, porque era muito pesado, durou cinco anos, depois disso não consegui fazer mais nada porque tudo o que aparece precisa de força e eu não tenho nada”.

Ronaldo improvisou casa para conseguir permanecer às margens do córrego. (Foto: Marcos Maluf)
Ronaldo improvisou casa para conseguir permanecer às margens do córrego. (Foto: Marcos Maluf)

Já sem nenhuma renda, Ronaldo diz que tentou viajar para outras cidades por trabalho, mas acabou voltando para Campo Grande. Ficou por poucas semanas na rua e, com medo de piorar sua saúde com a violência enfrentada nas noites da cidade, tentou ir para o Interior.

Ganhei uma carona para Três Lagoas, queria tentar trabalhar lá. No meio do caminho percebi que estava atrasando o caminho do motorista e pedi para ele me deixar na rodovia e tentei ir a pé. Fiquei bebendo água de um esgoto que achei e procurei ajuda numa fazenda. Andei mais e parei aqui nessa ponte para descansar, mas acabou virando minha casa.

Hoje, sobrou uma galinha, o barulho dos veículos que passam pela ponte e o córrego. “Ao menos debaixo da ponte eu tenho que ter dignidade. Fico sozinho, me viro do jeito que dá e com doação dos outros, mas é assim mesmo”. Já sentado perto do fogaréu improvisado, ele argumenta que a solidão só tem se acentuado na miséria.

Fumaça de fogaréu ainda estava ativa no fim da tarde. (Foto: Marcos Maluf)
Fumaça de fogaréu ainda estava ativa no fim da tarde. (Foto: Marcos Maluf)