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Campo Grande, Domingo, 26 de Maio de 2019

04/05/2019 08:05

João morreu aos 12 anos, mas deixou a grandeza para Meyre reaprender a viver

Dez anos depois da morte do filho, a professora encontrou imagem perfeita para representar o vínculo de amor entre os dois

Danielle Valentim
Tatuagem representa João no colo de Meyre. (Foto: Henrique Kawaminami)Tatuagem representa João no colo de Meyre. (Foto: Henrique Kawaminami)

O pequeno João foi parar no braço da mãe em forma de tatuagem há 20 dias, mas a história até chegar ao registro corporal começa em outubro de 2007, quando um garoto saudável de apenas 10 anos foi diagnosticado com miocardiopatia dilatada. O coração de João perdeu as forças, mas sua grandeza ficou, para ensinar Meyre a ser forte.

Quem vê a professora Meyre Santini, hoje, não imagina o que ela passou entre 2007 e 2009. De sorriso singelo e olhar profundo, a paulistana que criou raízes em Mato Grosso do Sul, contou ao Lado B como foi a luta contra o tempo ao ver o filho precisando de um novo coração.

João foi uma criança saudável até os 10 anos. Brincava, corria, jogava bola igual todo garoto de mesma idade. No entanto, em agosto começou a reclamar de cansaço. Ao sair do médico, mais um caso para se monitorar em casa, pois não passava de uma suposta virose.

O problema é que dois meses depois, a enfermidade evoluiu a ponto de o menino dar entrada no Hospital Regional com um princípio de falência múltipla de órgãos. A cardiopediatra Manoela Janine chamada, carinhosamente, por Meyre de “anjo da guarda” foi quem descobriu a doença e abraçou a causa: se tratava de um problema cardíaco adquirido.

“Eu sempre fui aquela mãe de fazer check up. Em época de férias da escola tínhamos que fazer exames. E eu tinha feito há pouco tempo e não tinha nada. Depois passamos a fazer a tudo quanto é tipo de exame que apontavam a miocardiopatia dilatada, em que o coração incha e começa a endurecer até perder o movimento. A médica disse: “Meyre não tem jeito, é transplante. Vou te colocar em São Paulo e vamos acompanhar”. E ficamos assim, um mês em São Paulo e dois aqui”, conta.

João foi uma criança saudável até os 10 anos, conta Meyre. (Foto: Henrique Kawaminami)João foi uma criança saudável até os 10 anos, conta Meyre. (Foto: Henrique Kawaminami)

O acompanhamento foi feito no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Meyre pontua que o transplante infantil é o mais difícil, pois, além da compatibilidade necessária, uma série de fatores são levados em conta, como idade e peso. Diante de todo o processo, a equipe do Dante orientou que Meyre e os filhos se mudassem para São Paulo. “Aí peguei minha filha, um ano mais velha que João, juntei as coisas e fomos para São Paulo. Exatamente, um ano depois do diagnóstico”, lembra.

Além do alto astral, João era uma criança de 10 para 11 anos, que tinha consciência do que estava acontecendo e conversava sobre o problema. Ele sempre dizia que era seu próprio termômetro, conta Meyre.

“Ele teve que parar de jogar videogame. Ele tinha restrição de água, alimentos, nada de movimento e o videogame causava adrenalina. Foi aí, que a irmã e os amigos pararam também. Mas ele incentivava que eles não precisam fazer aquilo e ele mesmo adaptava as brincadeiras”, relata a professora.

Diante de todo o problema, o pequeno guerreiro nunca se deixou abater e frisava que não queria ver a mãe chorando. Os meses se passaram e, em julho de 2009, João estava no primeiro lugar da espera nacional para o transplante, mas se encontrava em uma situação muito delicada.

“Ele tinha muita fraqueza, cansaço e já não aguentava mais caminhar, mesmo sendo monitorado em casa. Os médicos então pediram para que ele ficasse no hospital para que no surgimento do primeiro órgão ele já fosse transplantado. Cada vez que abriam o quarto era um suspiro. Ele sempre confiante de que daria certo. Nos ensinando a viver um dia de cada vez. Ele conquistava a todos. Ele gostava muito de limão, do sabor ácido, e os funcionários começaram a “traficar” limão para agradá-lo. Todos gostavam do João”, detalha.

Meyre conta que assim que chegou em São Paulo o acompanhando foi feito no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia(Foto: Henrique Kawaminami)Meyre conta que assim que chegou em São Paulo o acompanhando foi feito no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia(Foto: Henrique Kawaminami)

Mas o que ninguém esperava, aconteceu. Internado em área isolada no hospital, João contraiu H1N1. Com febres constantes, o menino teve de sair da fila de espera do transplante e do hospital para tratar o vírus.

“Ele já estava numa situação frágil com o coração e saiu do hospital no fim de agosto. O problema é que ele começou a piorar muito. A equipe realmente nos carregou no colo, mas no dia 20 de setembro ele passou muito mal e o médico decidiu tirar a medicação para ele respirar um pouco. Não adiantou, porque em casa ele virou para mim e disse que queria voltar para o hospital, pois não estava bem. Já liguei para minha cunhada que morava perto e ele perdeu os sentidos dentro do carro”, relembra Meyre.

Já no hospital, o menino que já estava conhecido na unidade foi levado às pressas à emergência. Ele havia acabado de ter um choque cardiogênico, segundo os médicos, a pior situação que poderia acontecer a um menino de apenas 12 anos.

Meyre se manteve firme, mesmo na agonia de uma noite inteira vendo o filho entre a vida e a morte. Às 6h, da manhã seguinte, João se sentou no cama e disse que estava com fome. “Os médicos até brincaram, agora você levanta que nós vamos nos deitar. A equipe médica então explicou que ele teria que ir para UTI e ele bateu o pé: “minha mãe vai comigo”. Os médicos tentaram explicar que eu ficaria perto, mas ele continuou dizendo que eu iria com ele”, conta a mãe.

No setor de tratamento intensivo, João continuou sendo monitorado, mas depois de uma atitude inesperada teve o desejo de descansar. “Conversamos muito naquela noite, porque ele não conseguia dormir. Mas logo que amanheceu ele pegou, me puxou e disse: “vem aqui, obrigada por ser minha mãe, pela vida que você me deu, pela minha irmã, sou grato e sou feliz apesar tudo, agora eu vou descansar”. A cama dele estava rodeada de médicos e ele virou para eles e disse: eu quero descansar”, conta.

João sempre teve a frase “segura a minha mão”. E assim que os médicos decidiram medicá-lo para o induzir ao coma, ele pediu que a mãe segurasse sua mão. “O processo de entubar é muito dolorido de olhar. Eu me afastei da cama e o médico autorizou que eu segurasse o pé. Então ele pediu para que a enfermeira Marlene segurasse a mão dele”, disse. 

Durante o procedimento, João sofreu uma parada cardiorrespiratória de 7 minutos. Assim que os batimentos voltaram ele permaneceu em coma induzido, por 12 dias.

João era uma criança de 10 para 11 anos, que tinha consciência do que estava acontecendo e conversava sobre o problema, lembra a mãe. (Foto: Henrique Kawaminami)João era uma criança de 10 para 11 anos, que tinha consciência do que estava acontecendo e conversava sobre o problema, lembra a mãe. (Foto: Henrique Kawaminami)

 

 

“Eu falo que foram 12 dias para mim. Porque ele já tinha se despedido, na grandeza dele, ele foi maior que todos ao agradecer e se despedir. Uns seis dias depois do coma tentaram reanimá-lo para verificar se ele não havia sofrido nenhum dado cerebral. Porque quando ele entrou em coma tiraram ele da fila do transplante novamente. Dessa vez, qualquer coração seria do João, independentemente da idade. Assim que a medicação foi aplicada ele acordou, me olhou e voltou ao coma. O médico disse que pelo olhar foi comprovado que ele não havia sofrido dano”, conta.

No 11º dia de coma, João começou a ter febre de 41°C e no dia seguinte o médico chamou Meyre para dizer que o corpo de menino não aguentava mais. João morreu no dia 9 de outubro de 2009, exatos dois anos após o diagnóstico.

“Eu falei deixa ele ir. Porque ver ele sofrendo ligado numa máquina, não era o João. Ele era muito alto astral, não gostava de tristeza e por que eu estaria fazendo aquilo? E eu fui privilegiada em ter sido chamada de mãe por ele. Ele teve a grandeza de encarar isso de uma forma que muito adulto não teria aguentado. Ele aceitava as limitações. Ele aceitou o que ele enfrentava”, relata Meyre, emocionada.

Assim que João faleceu e foi sepultado em São Paulo, mãe e filha voltaram para Campo Grande, pois era um dos desejos do menino após o transplante. “As coisas acontecem. Eu sou professora cheguei sem casa, sem emprego, sem nada. Uma semana depois eu tinha alugado uma casa e em novembro fui recebida em tempo integral em uma escola há duas quadras da casa”, conta.

O menino também já havia deixado claro que gostaria que suas coisas fossem doadas. Na casa de Meyre só restaram uma coleção de espadas e facas e um violão.

“É uma dor que não passa. Você aprende a administrar, a tocar, a sorrir, a prende a cantar, ir a festas, mas você não esquece. E nesse intervalo lembro que ele falava que não queria me ver chorando. Quando cheguei em Campo Grande eu doei tudo, assim como ele pediu, mas o violão ficou. A Thay não gosta, mas meu genro toca às vezes”, ressalta Meyre.

A professora pontua que neste tempo todo sempre teve dois guerreiros, João que enfrentou a doença e a filha Thayana que deixou tudo de lado para passar pela provação com a mãe e o irmão.

“Ela abraçou isso com ele, ela fez mudanças que tinham que ser feitas. Éramos nós três. Hoje a Thay tem a vida dela, o carro dela, é advogada, ela pegou a dor e transformou em força. Quem conheceu o João olha pra mim e fala: “não é à toa que você conseguiu”. Porque as pessoas ainda comentam: “nossa, como consegue?”. Falar dele, da história curta e intensa que ele teve, emociona? Emociona. Mas eu só posso pensar em como bom que ele tenha passado pela minha vida e eu acredito que ele esteja em um lugar melhor. E agora eu é que tenho de dar orgulho a ele. Eu tive dois filhos totalmente diferentes e totalmente se completando”, ressalta.

“E eu chamo de uma ausência temporária. De escolhas. Na hora você fala: eu não lembro de ter escolhido isso, devia ter me mandado um bilhetinho”, brinca Meyre.

Mas voltando a história da tatuagem, Meyre revela que sempre foi apaixonada pelos rabiscos na pele e que todas as duas tatuagens são relacionadas aos filhos. O registro foi feito pelo genro, que ele brinca o chamando de “tatuador particular”.

“É uma coisa que eu sempre gostei, mas quando eu vi o desenho pensei na hora é a minha e dele [João]. As pessoas olham para a tatuagem e se emocionam. O desenho não mostra um bebê, mas um garotinho de uns 12 anos. Até o tênis é dele. Depois que escolhi o desenho, meu genro pediu para eu marcar um horário, mas fui enrolando, pela rotina, escola. Até que ele me ligou e disse: sábado à tarde no estúdio. Não deu para correr. No dia que eu fiz eu confesso que tive que administrar, não conseguia olhar, porque eu me via muito. Mas agora já acostumei”, finaliza.

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