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Campo Grande, Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

15/09/2018 07:34

Um ano após quadro apreendido, nem tarefa escolar de artes escapa da censura

Nesta semana, uma mãe se sentiu “ofendida” ao ver uma obra de arte que exibia uma freira sangrando no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul.

Thailla Torres
Imagem da obra enviada como denúncia ao Campo Grande News. (Foto: Reprodução Facebook)Imagem da obra enviada como "denúncia" ao Campo Grande News. (Foto: Reprodução Facebook)

Arte nasce sem limites, mas na contramão dessa afirmativa, a criatividade tem enfrentado uma batalha contra a escandalização do nada em Campo Grande. Um ano depois do episódio que levou à “prisão” de uma obra de arte no Marco (Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul), a polêmica da vez foi com uma tela exposta no Festival de Arte e Cultura, realizado pelo IFMS. No foco, a figura de uma freira sangrando.

A obra em questão é uma intervenção artística que se refere à Mariana Alcoforado, freira portuguesa do século XVII que teria escrito cartas de amor a um oficial francês que lutou na Guerra. A pintura que mostra uma freira com sangue saindo entre as pernas foi feita por alunas, resultado de atividade desenvolvida na disciplina de Literatura com estudantes dos cursos técnicos integrados ao Ensino Médio.

Mas o desenho não agradou um grupo de pais que resolveu questionar a instituição e apontar a liberdade de expressão do aluno como um “desrespeito”, “um absurdo”, “apologia ao estupro”.

Foi o caso de Cristiane Borges Silva, mãe de uma aluna de 16 anos do instituto, que ficou indignada com a intervenção e levou à polêmica as redes sociais. Ao Lado B ela diz ter movimentado amigos, familiares e até um amigo policial militar contra a ação. “Vamos fazer uma pressão, saber o que faz um professor deixar um aluno apresentar isso”, afirma.

Cristiane se diz revoltada e não considera a obra como uma intervenção artística. “O que tem é uma freira com a perna aberta, com um pau enfiado nas pernas, não sei se a freira está menstruada, se é apologia ao estupro ou violência sexual”, acredita.

A obra chegou até Cristiane pela filha, que mesmo não participando das aulas do professor, fez a reclamação à mãe. “Foi minha filha que postou ontem, eu estava indo para um compromisso fora da cidade, mas na hora disse para avisar o diretor e pedir para retirar”.

A mãe admite que não foi ao Instituto e nem buscou entender o contexto da obra, mas não poupou críticas. “Eu nem vi, nem sei que contexto tem isso, apenas alguém do Instituto Federal, no horário do almoço, postou a história de uma freira da idade média. Mas isso é um absurdo, uma falta de bom senso e educação”.

Religiosa, Cristiane diz que a obra fere as crenças da família. “Como nós temos religião, a gente se sente mal. E a escola, no meu ponto de vista, não foi feita pra tirar e nem colocar religião”, diz.

Apesar do apelo artístico e evidente percepção das alunas, Cristiane condena a arte como forma de transformação dentro de uma unidade de ensino. “Ali não é obra de arte, ali não é nem uma instituição artística, não estamos ali pra isso”.

Em nota oficial, o Instituto Federal informou que a obra já retirada, gerou uma reunião com os pais dos estudantes. No encontro, foi explicado o contexto em que a obra foi produzida, “e muitos demonstraram apoio à atividade”, garante a instituição.

A direção geral do campus informa compreender que a obra tenha provocado divergência de opiniões, “mas reitera a importância da liberdade de expressão como essencial na formação de estudantes”.

Censura semelhante - Em 14 de setembro de 2017, o quadro Pedofilia, da artista Alessandra Cunha, que fazia parte de uma exposição no Marco foi "apreendido" após polêmicas e manifesta contrárias à exposição pelos deputados Paulo Siufi (PMDB), Herculano Borges (Solidariedade) e Coronel David (PSC). 

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