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Campo Grande, Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2020

21/12/2019 08:21

Veio o AVC, depois a aposentadoria, e Aparecido escolheu estudar aos 60

“A educação muda as pessoas e as pessoas transformam o mundo”

Thailla Torres
Aparecido mostrando o primeiro diploma da vida, de por estudar até a quarta-série na infância. (Foto: Thailla Torres)Aparecido mostrando o primeiro diploma da vida, de por estudar até a quarta-série na infância. (Foto: Thailla Torres)

De óculos e um semblante sereno, de quem tem de amor à vida o mesmo pela educação, Aparecido Alves dos Santos já se aposentou, mas escolheu voltar à escola para estudar. Na última quarta-feira, ele esteve dentro de uma formatura do Ensino Médio e minutos depois levantou o canudo com força, como demonstração de orgulho pela nova oportunidade aos 60 anos.

Entre as conquistas resultantes dos últimos anos de estudo, o que mais orgulha Aparecido, é a primeira certificação do nível fundamental que obteve quando estudou até a quarta série na infância. Antes dessa conversa do Ensino Médio, ele abre a pasta que deixou organizada para exibir o primeiro diploma que, segundo ele, foi responsável por nunca adormecer a vontade de estudar. “Esse aqui foi o meu passaporte para o sucesso”, ri.

E não dá para duvidar. O boletim com data de 1973 da Escola de Emergência Rural do Sítio São Sebastião, em Araçatuba (SP), embora rasgado e amarelado pelo tempo, exibe nota 10 em matemática e em conhecimentos gerais.

Hoje ele celebra o diploma do Ensino Médio. (Foto: Thailla Torres)Hoje ele celebra o diploma do Ensino Médio. (Foto: Thailla Torres)

Aparecido estava entre as dezenas de crianças da área rural de Araçatuba (SP) que faziam da sala de aula, muito mais que um lugar para estudar. Fora do alcance dos olhares de quem vive numa cidade grande, na fazenda, estava o menino que levantava às cinco da manhã e percorria sete quilômetros montado em um cavalo para “ser alguém”.

“Foi assim que eu aprendi o abecedário e a fazer continhas. Mas depois parei porque precisava trabalhar, depois criei os filhos. Sabe como é, o filho mais velho sempre rala”, conta.

Sorridente, ele sonha em cursar uma faculdade. (Foto: Thailla Torres)Sorridente, ele sonha em cursar uma faculdade. (Foto: Thailla Torres)

Pai de duas filhas, uma jornalista e outra administradora, e casado há 39 anos. Aparecido morou na área rural até 2013. As décadas de contato com os números de animais, insumos e outras necessidades da fazenda tornaram a contabilidade mais próxima. Essa atenção pode ser representada pelas contas de soma e divisão que ele sabe fazer de cabeça, cuja calculadora não tem espaço tão privilegiado.

“Antigamente era preciso anotar tudo, dar atenção às anotações do papel. Com o tempo veio o computador e as modernidades. Mas antes de tudo era preciso saber as coisas de cabeça. A informação tinha de estar aqui dentro”, diz ao apontar para a mente.

Em 2010, trabalhando no administrativo de uma fazenda localizada a 30 quilômetros de Campo Grande, um AVC (Acidente Vascular Cerebral) mudou os caminhos e a rotina do trabalhador rural.

Quando o sol ainda estava escondido atrás das árvores, Aparecido já tinha cuidado de todas as contas, organizado o que devia entrar e sair da fazenda, sem deixar um papel para trás. “Embora eu não fizesse mais o trabalho braçal, a fazenda sempre foi grande e a cobrança no administrativo também. Então eu trabalhava bastante”, lembra.

A primeira carteira de trabalho quando era adolescente. (Foto: Thailla Torres)A primeira carteira de trabalho quando era adolescente. (Foto: Thailla Torres)

Depois de um dia cheio, partiu para casa em busca de descanso. Era acostumado tomar uma cervejinha para relaxar, mas isso não aconteceu como previsto, lembra Aparecido que faz questão de mencionar a data. “Foi dia 19 de novembro de 2010. Durante o dia senti um formigamento no braço, mas não dei bola. Continuei trabalhando. À tarde cheguei em casa, tomei uma cervejinha, mas senti que não estava bem. Resolvi dormir. Ao acordar senti que parte do meu corpo estava retraído. Naquele dia estava programado vir para Campo Grande. Ameacei dirigir uns quilômetros, mas depois passei o carro para outra pessoa. Quando cheguei aqui fui para o hospital e me falaram que eu tive um AVC. Na hora eu disse: o que é isso?”, conta.

Da internação até autorização médica para voltar para casa, Aparecido precisou se cuidar e assim fez. “Nutricionista, ortopedista, fisioterapeuta, um rolo danado de médico que eu não estava acostumado passou a fazer parte da minha vida. Mas como eu não tinha muito o que fazer, segui todas as orientações e passei a me cuidar. Meses depois eu não aguentei e decidi voltar para fazenda. Conversei com médico e voltei com a liberação dele”.

Morou na fazenda de 2010 até 2013, quando pediu para sair e levar uma nova vida em Campo Grande. Quando chegou aqui, aposentado, decidiu encontrar um ofício para não ver o tempo passar. “Prefiro continuar trabalhando”, escolhe, seguro, sem titubear. Além de “ver o corpo em movimento”, também há, conforme Aparecido, um costume, que faz parte da maioria das pessoas que cresceram na vida rural.

Com diploma do Ensino Médio em mãos, ele aguarda o resultado do Enem para tentar cursar Ciências Contábeis. (Foto: Thailla Torres)Com diploma do Ensino Médio em mãos, ele aguarda o resultado do Enem para tentar cursar Ciências Contábeis. (Foto: Thailla Torres)

Depois de diversas atividades no campo, um folheto com oportunidade de trabalho que exigia Ensino Médio marcou a retomada aos estudos. “Eu olhei e pensei: puxa vida, como vou conseguiu se só tenho até a quarta série?”.

Foi então que escolheu entrar em uma escola para concluir o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. As filhas deram a maior força, afinal, elas carregam na vida o maior ensinamento do pai. “A vida só é dura para quem é mole”.

Assim Aparecido se reinventou, concluiu os estudos, conseguiu mais um diploma e agora sonha com a universidade pública. “Estou esperando o resultado do Enem para tentar fazer Ciências Contábeis. Depois, quando concluir, eu vou tentar algo na área de Ciência da Computação e, quem sabe, fazer Publicidade e Propaganda. Por que? Eu gosto, e a gente tem que fazer na vida o que gosta”, diz lembrando a menção da formatura a Paulo Freire. “A educação muda as pessoas e as pessoas transformam o mundo”.

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