Doce engano? Páscoa expõe o que há por trás do “sabor chocolate”
Produtos mais baratos invadem prateleiras, mas diferença vai além do preço e começa no rótulo
O gosto dos chocolates mudaram e isso não é nostalgia ou impressão, os rótulos dizem, mas será que as pessoas perceberam? O Lado B foi às ruas perguntar justamente isso e a resposta foi clara: gosto de gordura e açúcar. O que antes vinha com anúncio "chocolate" hoje é "sabor chocolate", parece igual, mas a história é bem diferente.
RESUMO
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Rótulos de chocolates vendidos na Páscoa revelam mudanças na composição dos produtos, com redução do teor de cacau e aumento de gorduras vegetais e açúcar. Consumidores já percebem a diferença no sabor e na textura. A Resolução RDC nº 264/2005 flexibilizou as regras, permitindo fórmulas mais baratas. Em março, a Câmara aprovou projeto para elevar o mínimo de cacau para 35%, texto que ainda será analisado pelo Senado.
Embora a mudança não seja recente, o impacto nos Ovos de Páscoa em 2026 tem sido assunto nas redes sociais. Pessoas comentando que preferem comprar o doce mais artesanal e abandonar os industrializados.
Mesmo assim, o sabor chocolate ainda está presente. Isso porque o preço do cacau disparou nos últimos anos e fazer qualquer coisa com ele encareceu. Nas ruas Linnda Dieniffer, 28 anos, mãe de dois filhos, afirma que sentiu a diferença.
O problema, segundo ela, é duplo. Textura e sabor. "Mudou bastante. Pra mim mudou a textura, antes vinha mais duro, agora vem mais mole, sem gosto. Agora tá muito mais gosto de açúcar que o gosto do próprio chocolate. Eu nem leio o rótulo. Eu como mas na época da páscoa mesmo, na rotina não costumo comprar muito. De vez em quando compro chocolate mas daqueles bem barrinha.

Andréa Nogueira, de 50 anos, dá um passo além. Ela lê rótulos. E o que encontra explica o que o paladar já denunciava. Menos cacau, mais gordura hidrogenada.
"Eu não sou muitos chocolate, mas os que eu experimento hoje são bem diferentes que antigamente. Está com gosto de gordura. Eu leio o rotulo e estou vendo que diminuíram muito o cacau e estão colocando mais a gordura hidrogenada. Então o sabor altera totalmente. Fica com sabor de gordura na boca não de chocolate, até por isso que deixei de comer".
Alex Costa Rodrigues percebeu rápido. Para ele, a mudança está também no preço. “Não está mais doce, está é é salgado”, resume. Ele não é consumidor frequente. Come mais na Páscoa, e claro, escolhe pelo valor e não olha rótulo.
"Eu vou pelo mais barato, não olho rótulo nem marca. Pra mim é tudo igual. Eu como mais nessa época". E aí vem o detalhe incômodo. Mesmo sem prestar atenção em marca ou composição, ele sentiu a diferença e isso diz mais do que parece.
O motivo dessa estranheza toda não é coincidência, é indústria e legislação. Desde a publicação da Resolução RDC nº 264/2005, houve uma flexibilização nas regras do que pode ser chamado de chocolate no Brasil. O teor mínimo de cacau diminuiu, abrindo espaço para fórmulas mais baratas, com substituições estratégicas: entra gordura vegetal, sai manteiga de cacau. Resultado? Produtos mais acessíveis, mas nem sempre com a mesma qualidade.
E é aí que mora o ponto. O que parece só uma escolha de preço, na prática, é uma escolha de composição. E, muitas vezes, sem que o consumidor perceba. Aqui entra a parte que ninguém da indústria gosta de admitir. Quando o consumidor que não lê rótulo percebe a piora, o problema já passou do limite aceitável faz tempo.
"Engana bobo"
Nem tudo que derrete é chocolate. Na prática, esses produtos “sabor chocolate” têm menos cacau e mais ingredientes que ajudam a baratear a produção. Isso impacta não só o valor, mas também o que o corpo recebe.
O chocolate de verdade, principalmente os com maior teor de cacau, como 60% ou 70%, carrega compostos antioxidantes, como os polifenóis (antioxidantes presentes na planta do cacau), associados a benefícios cardiovasculares e ação anti-inflamatória. Já as versões mais baratas, com menos cacau e mais açúcar e gorduras alternativas, perdem esse potencial e entram no território dos ultraprocessados.
Docente do curso de Nutrição da Estácio, Fabiana Casagranda resume de forma direta:
“O que traz benefícios ao organismo é a presença da massa de cacau, rica em compostos antioxidantes. Quando o produto tem baixo teor de cacau e maior quantidade de açúcar e gorduras substitutas, ele perde essas propriedades e pode aumentar riscos metabólicos”, explica.
“Termos como ‘sabor chocolate’ já indicam que aquele produto não tem a composição de um chocolate tradicional e, geralmente, possui menos cacau e mais gordura vegetal”, orienta.
A discussão já chegou até Brasília. Em março, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que propõe aumentar o percentual mínimo de cacau nos produtos vendidos no país. A ideia é subir, por exemplo, o mínimo de chocolates intensos para 35%, acima dos 25% atuais exigidos pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), além de obrigar a informação clara do percentual de cacau nos rótulos.
O texto ainda vai passar pelo Senado, mas já indica uma tentativa de puxar o padrão para cima, e deixar menos espaço para confusão no supermercado.
Apesar de toda a discussão, a Páscoa não precisa virar um campo de batalha nutricional. Chocolate continua sendo parte da memória afetiva, da troca, do presente, do ritual. E está tudo bem. A diferença está na escolha.
“Na Páscoa, não é necessário deixar de consumir chocolate, mas é importante priorizar opções com maior teor de cacau e manter o equilíbrio”, conclui a nutricionista.
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