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Comportamento

Se muitas casas estão de pé até hoje, foi graças ao cimento da dona Eliza

Aos 68 anos e sempre de salto alto, empresária carrega uma vida de persistência e tino para os negócios

Por Thailla Torres | 26/08/2026 15:39
Se muitas casas estão de pé até hoje, foi graças ao cimento da dona Eliza
Sempre de salto alto, Elisa acompanha de perto vendas, entregas e a rotina da empresa. (Foto: Paulo Francis)

Elisa Goya Kohatsu nunca foi de ficar parada. Aos 68 anos, continua procurando o que fazer. É comum encontrá-la cedo na loja de materiais de construção que abriu há mais de quatro décadas. Está no atendimento, acompanha vendas, pensa nas entregas, negocia preço, conversa com funcionários e observa o movimento. Quase sempre de salto alto. Às vezes, um scarpin azul-celeste.

O detalhe parece pequeno, mas combina com a personagem. Neste aniversário de 127 anos de Campo Grande, Elisa está nesta série de reportagens especiais porque sua história também é a de alguém que ajudou a “erguer” a cidade. Nascida aqui, acompanhou seu crescimento e transformou em negócio uma necessidade que encontrou pelo caminho.

Enquanto Campo Grande crescia, sacos de cimento e outros materiais que saíam da loja de Elisa ajudavam a levantar casas, reformas e prédios pela cidade.

Mas antes do salto alto e do balcão da loja de materiais de construção, vieram os pés na rua. Elisa começou a trabalhar aos 8 anos, vendendo verduras produzidas pela família. Era pequena a ponto de ainda ter dificuldade para receber corretamente dos clientes.

“Com 8 anos eu comecei a vender verdura. Eu mal sabia receber direitinho”, conta.

Filha de imigrantes japoneses e nascida em Campo Grande, cresceu em uma família de sete irmãos. Os pais trabalhavam na lavoura. O pai plantava verduras e fornecia para quitandas, mas o pagamento só chegava no fim do mês. Dinheiro, portanto, nem sempre havia quando a família precisava. Foi nesse cenário que a menina saiu para vender.

Se muitas casas estão de pé até hoje, foi graças ao cimento da dona Eliza
O tino para os negócios começou ainda na infância, com a venda de verduras pelas ruas de Campo Grande. (Foto: Paulo Francis)

A mãe, de quem Elisa fala como uma mulher rígida e sábia, valorizava especialmente os estudos. Dizia aos filhos que, por estarem no Brasil, precisavam aprender a falar corretamente o português. “O que nós somos hoje foi essa educação dela.”

A história da família em Campo Grande começou antes de Elisa nascer. A mãe chegou ao Brasil após 45 dias de navio, acompanhada de dois filhos pequenos. Já em Mato Grosso, a família se estabeleceu em uma chácara e passou a viver da terra.

Aos 14 anos, Elisa já mostrava tino para o comércio. Vendia verduras para um antigo supermercado de Campo Grande e se ofereceu para organizar os produtos. Para tornar os preços mais atraentes, juntava salsinha e cebolinha no mesmo maço, reduzia as porções de couve e fazia pacotes menores de tomate.

Aos 16 anos, com ajuda da família, abriu uma mercearia próxima ao Monte Castelo. Quando percebeu que os clientes saíam dali para comprar carne em outro comércio, convenceu a mãe a montar um açougue.

Compraram uma câmara fria e chegaram a trabalhar com meia vaca por dia. No início, pagavam um açougueiro para fazer a desossa, mas, como o serviço pesava nas contas, Elisa aprendeu a fazer sozinha. “Eu desossava todo dia. Fazia linguiça.”

Até ali ela encontrou uma maneira de melhorar o negócio. Ao perceber que a linguiça perdia peso quando ficava pendurada, passou a vendê-la em porções embaladas e mais acessíveis.

Se muitas casas estão de pé até hoje, foi graças ao cimento da dona Eliza
Aos 68 anos, Elisa Goya Kohatsu mantém a rotina de chegar cedo à loja que abriu há mais de 40 anos. (Foto: Paulo Francis)

Uma fila de cimento mudou tudo

Aos 18 anos, uma necessidade da própria mercearia definiria as quatro décadas seguintes de sua vida. Elisa queria ampliar o comércio e precisava de cimento. Em Campo Grande, naquela época, era preciso ir até a região da estação ferroviária, esperar a chegada dos vagões e enfrentar fila para conseguir uma quantidade limitada. “Você tinha que ficar na fila para conseguir 50 sacos. E tinha dia que falavam: ‘A cota acabou, só amanhã’.”

Elisa enxergou ali outro negócio. “Eu falei: ‘Não, eu vou montar uma loja de cimento’.” Foi assim que começou uma história de mais de 40 anos no setor de materiais de construção. Com o crescimento de Campo Grande, os produtos vendidos por ela passaram a chegar a pequenas reformas, casas, prédios e grandes obras.

Entrar naquele mercado, porém, significava ocupar um espaço ainda predominantemente masculino. Jovem, Elisa precisou aprender a negociar cimento, entregas, caminhões e obras. “Hoje eu sou mais vendedora e negociante do que administradora. Eu gosto.” E o olhar para os negócios nunca desliga. Ela puxa conversa na fila do banco, no hospital ou durante um exame. Quer saber o que a pessoa faz e está sempre atenta a uma oportunidade. “Tudo me inspira.”

Durante boa parte dessa caminhada, esteve ao lado de Osvaldo, engenheiro que conheceu ainda jovem. A avó disse que Elisa precisava conhecer uma pessoa recém-chegada do Paraná. Pela maneira como ouviu falar dele, imaginou que encontraria um senhor mais velho. Quando entrou na sala e viu Osvaldo, mudou de ideia. “Se eu falar que eu não pensei ‘vou casar com esse homem’, estou mentindo. Eu falei: ‘Vou casar com esse homem’.”

E casou. Foram cerca de 40 anos juntos, três filhos e uma empresa construída a quatro mãos. Nas fases difíceis, Osvaldo costumava dizer que reclamar não resolveria. “Ele falava: ‘Tem que dançar conforme a música’. Se não dá desse jeito, vai fazer de outro.”

Em 2023, Osvaldo recebeu o diagnóstico de câncer no estômago. Até setembro de 2024, segundo Elisa, ele ainda estava bem. Depois, o quadro avançou rapidamente. Ela passou cerca de 60 dias no hospital ao lado do marido. Lúcido e sabendo da gravidade da doença, Osvaldo usou aquele tempo para orientá-la sobre os filhos, a empresa e a vida que seguiria sem ele. “O mais difícil foi estar no hospital com ele, ele lúcido e sabendo que ia morrer, e ele tinha que passar tudo o que eu tinha que fazer.”

Antes de ser intubado, olhou para Elisa. “Está tudo bem. Está tudo bem.” Osvaldo morreu aos 68 anos. Sem o companheiro, Elisa percebeu quanto da própria coragem vinha da segurança de tê-lo por perto. “Quando eu era casada com ele, eu não tinha medo de nada. Eu enfrentava, derrubava parede, comprava, gastava, porque sempre achava que ele ia me ajudar e dar suporte. Quando perdi ele, tive muito medo de fazer muita coisa.”

Vieram outras perdas familiares e momentos em que pensou em desistir. Até que sonhou com Osvaldo. No sonho, conta, ele lembrava que tudo aquilo era fruto do trabalho dos dois. Elisa continuou. Recentemente, decidiu ampliar novamente a empresa, derrubou parte da estrutura e voltou a investir. “Sem ter dinheiro, sem ter nada. Eu sempre penso: vou investir agora, vou até fazer dívida, mas depois vou trabalhar.”

E trabalho nunca foi problema. Em outro momento da vida, quando Osvaldo começou a criar tilápias, Elisa percebeu que os peixes pequenos seriam descartados e resolveu levá-los para vender na feira do Nova Lima. Limpava, fazia pacotes e até fritava alguns para ensinar os clientes a preparar. Nem as carcaças eram desperdiçadas. Viravam pacotes baratos para fazer caldo. “Meu apelido era mulher da carcaça.”

É o mesmo raciocínio da menina que vendia verduras: diante de uma dificuldade, Elisa procura uma possibilidade. Hoje, acorda às 4h, faz caminhada, toma café da manhã e se arruma para trabalhar. Por volta das 6h30, já está na empresa. Gosta de vestidos, sapatos, colares e acessórios e dificilmente aparece por lá sem estar arrumada.

Conta que compra três vestidos por mês. Quando a filha fez as contas e avisou que seriam 36 em um ano, Elisa não se abalou. “Eu compro três vestidos porque acho que mereço pelo trabalho.”

No aniversário de 127 anos de Campo Grande, a trajetória de Elisa também ajuda a contar a história de uma cidade construída por gente que enxergou oportunidades enquanto ela crescia. Primeiro foram as verduras. Depois, a mercearia. Até chegar àquele dia em que uma jovem de 18 anos foi buscar cimento perto da estação ferroviária e voltou de lá com uma ideia.

Hoje, se você entrar cedo na loja, provavelmente Elisa estará por ali, arrumada, atenta ao movimento e, quase certamente, de salto alto. Depois de uma longa conversa com dona Elisa, uma coisa fica clara: existem muitas maneiras de participar da construção de uma cidade.

Ela começou vendendo verduras pelas ruas de Campo Grande. Depois vendeu o cimento que ajudou a levantar parte dela. E não parou mais.

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