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Após câncer no olho, vida de Bárbara mudou quando ela aceitou prótese

Após anos de ofensas e vergonha, Bárbara superou o medo de mostrar o rosto e falar sobre ter visão monocular

Por Thailla Torres | 18/04/2021 07:12
Bárbara quando era pequenininha, já com a pórtese no olho direito. (Foto: Arquivo Pessoal/Bárbara Mazochin)
Bárbara quando era pequenininha, já com a pórtese no olho direito. (Foto: Arquivo Pessoal/Bárbara Mazochin)

Vesga, monstro, olho grande, estranha. Esses e outros “apelidos” grotescos fizeram parte da infância da terapeuta holística e estudante de Biomedicina Bárbara Nantes Mazochin, de 19 anos. Ela tem visão monocular desde os dois anos de vida e isso a fez enfrentar uma barra pesada até se aceitar com a prótese e ser feliz, longe da vergonha.

Por muito tempo, na busca de esconder a deficiência, Bárbara ficou sem tirar fotos, evitava vídeos, vivia com a franja caída nos olhos só para ninguém perceber que ela tinha uma prótese. Quando precisava sair de casa abusava da maquiagem e só andava de cabeça baixa. Tudo por medo que alguém a olhasse nos olhos.

O medo levou Bárbara, ainda na adolescência, a enfrentar uma batalha contra a ansiedade e a depressão. A vida só mudou em 2019, quando ela escolheu vencer os traumas através de tratamentos, apoio da família e terapia holística. Mas chegar ao topo com a autoaceitação não foi tarefa fácil.

Pais perceberam que havia diferença no olho da filha por causa do reflexo nas fotos. 
Pais perceberam que havia diferença no olho da filha por causa do reflexo nas fotos.

As dificuldades surgiram ainda bebê. Com seis meses vida ela foi diagnosticada com câncer na retina do olho direito. O diagnóstico veio após os pais perceberem que em todas as fotos Bárbara ficava com um reflexo branco em um dos olhos. “No começo suspeitaram de conjuntivite, mas após exames diagnosticaram o câncer”, conta.

Ela realizou parte do tratamento em Campo Grande e outra em São Paulo. Com dois anos e três meses de vida fez a retirada do globo ocular e colocou a prótese. “Até os meus quatro anos a prótese era algo normal, pois eu vivia em família e não conseguia enxergá-la como uma prótese”, diz.

Mas quando foi para a escola, Bárbara viveu um pesadelo. “As crianças perguntavam o que eu tinha no olho e eu sentia muita vergonha. Tinha outras crianças que eram muito maldosas, que me chamavam de vesga e monstro. Isso foi o que mais me incomodou na infância”.

Já na adolescência o preconceito se fez presente. “Falavam muito da minha aparência, me chamavam de estranha e outros apelidos grotescos. Muitas pessoas achavam que, por eu enxergar só de um olho, eu não conseguiria fazer certas coisas. Para tirar minha carteira de motorista, por exemplo, muita gente duvidou da minha capacidade”.

Hoje Bárbara não busca esconder a prótese e se sente feliz! (Foto: Arquivo Pessoal)
Hoje Bárbara não busca esconder a prótese e se sente feliz! (Foto: Arquivo Pessoal)

A autoaceitação foi ocorrendo naturalmente na terapia holística, diz. “Nela descobri que ainda não tinha aceitado a minha prótese. Eu tentava esconder com o cabelo, com a maquiagem, fazia o máximo paras as pessoas não perguntarem”, diz.

Com terapia ela diz que ressignificou a própria história. “Antes eu tinha muita vergonha da minha prótese e me sentia inferior em relação as outras pessoas. Eu achava que sentiriam dó de mim ou me achariam inferior. Mas isso eu criei na minha cabeça diante do que passei na infância”.

Em 2020, Bárbara diz que virou de vez a chave da autoaceitação e mudou de vida. “Foi quando eu decidi mostrar para as pessoas que ter uma deficiência não me torna menor ou incapaz. Quando aceitei tudo mudou em minha vida. Hoje eu não ando mais olhando para o chão, consigo olhar nos olhos das pessoas e de cabeça erguida. E amo falar sobre a minha história”.

Com inúmeras lições e o sentimento de pertencimento ao superar o trauma, o início de 2021 foi decisivo para Bárbara ajudar outras pessoas. Hoje ela tem uma página no Instagram onde conta sua história e fala sobre a autoaceitação.

O objetivo é também dar suporte com informação sobre a visão monocular. “É muito difícil ser monocular no Brasil pois não é barato ter uma prótese, não é em todo lugar que ela é encontrada e não é todo mundo que consegue ter acesso. Então é uma deficiência que não é vista e nem falada”, destaca.

Além disso, ela acredita que falar sobre a superação é a melhor maneira de ouvir e ajudar outras pessoas. “Quando você se aceita as pessoas aceitam você, quando você se impõe as pessoas respeitam você. Então você reflete para as pessoas o que você pensa sobre si. A partir do momento que você se aceita e se respeita como uma pessoa bonita, como uma pessoa normal e incrível, as pessoas vão te enxergar dessa maneira também. Hoje eu quero falar, não quero esconder a minha prótese e assim ajudar pessoas na mesma situação”.

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