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Meio Ambiente

Só 3 de 21 frigoríficos de MS escapam da nota zero em ranking ambiental

Estudo mostra notas baixas no Cerrado e aponta falta de rastreabilidade do gado

Por Inara Silva | 25/05/2026 18:05
Só 3 de 21 frigoríficos de MS escapam da nota zero em ranking ambiental
Gado em pasto de fazenda em Mato Grosso do Sul. (Foto: Embrapa/Arquivo)

Em Mato Grosso do Sul, 18 das 21 empresas frigoríficas avaliadas pelo Radar Verde receberam nota zero em controle socioambiental e combate ao desmatamento no Cerrado. O levantamento inédito analisou unidades em 19 municípios do Estado e apontou baixa transparência e falhas no monitoramento da cadeia da carne bovina, especialmente no controle sobre fornecedores indiretos.

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Em Mato Grosso do Sul, 18 das 21 empresas frigoríficas avaliadas pelo Radar Verde receberam nota zero em controle socioambiental no Cerrado. Apenas Minerva, JBS e Naturafrig pontuaram, mas foram classificadas com compromisso baixo ou muito baixo contra o desmatamento. Nacionalmente, 96% das 225 empresas analisadas tiveram classificação muito baixa, e nenhuma demonstrou monitoramento efetivo de fornecedores indiretos de gado.

Segundo o levantamento, as únicas empresas sul-mato-grossenses que tiveram pontuação diferente de zero foram a Minerva S.A., com nota 38,32, e a JBS S.A., com 37,74, ambas classificadas com baixo compromisso contra o desmatamento, além da Naturafrig Alimentos Ltda., que recebeu nota 21,36 e foi enquadrada na categoria de compromisso muito baixo.

O estudo avaliou 225 empresas frigoríficas responsáveis por 262 plantas no Cerrado brasileiro. Em Mato Grosso do Sul, foram analisadas 27 unidades distribuídas em 19 municípios.

A Minerva, empresa mais bem colocada no Estado, possui unidade em Batayporã. Já a JBS mantém cinco plantas em quatro municípios sul-mato-grossenses: Anastácio, Campo Grande, Iguatemi e Ponta Porã. A Naturafrig, por sua vez, atua em Nova Andradina e Rochedo.

A pesquisa - Segundo a classificação do Radar Verde, a pontuação varia de 0 a 100. As notas acima de 90 indicam grau “muito alto” de compromisso contra o desmatamento. Pontuações entre 70 e 89 são consideradas “altas”; entre 50 e 69, “intermediárias”; entre 30 e 49, “baixas”; e abaixo de 29, “muito baixas”. Nenhuma empresa avaliada no Cerrado alcançou os níveis intermediários, altos ou muito altos.

Os índices indicam o nível de comprometimento das empresas frigoríficas na prevenção do desmatamento associado à produção de gado. A nota considera tanto as políticas e metas ambientais adotadas pelas companhias quanto a capacidade de monitorar fornecedores diretos e indiretos ao longo da cadeia produtiva.

O relatório também mostra que nenhuma das empresas avaliadas respondeu ao questionário enviado pelo Radar Verde para complementar informações sobre práticas de monitoramento e controle de fornecedores de gado.

Segundo os organizadores, a ausência de resposta não significa necessariamente que as empresas adquiram animais oriundos de áreas desmatadas, mas demonstra baixa transparência ativa. Por isso, a análise foi baseada em evidências públicas disponíveis, como auditorias independentes, políticas empresariais divulgadas, documentos oficiais e bases públicas.

Só 3 de 21 frigoríficos de MS escapam da nota zero em ranking ambiental

Resultados - No cenário nacional, a liderança do ranking ficou com a Marfrig, seguida por Masterboi, Minerva S.A., JBS S.A., Cooperfrigu, Carnes Boi Branco e Plena Alimentos.

Apesar disso, os resultados gerais apontam um cenário crítico. Das 225 empresas avaliadas, 216, o equivalente a 96% do total, receberam classificação de compromisso “muito baixo” contra o desmatamento. As outras nove ficaram na categoria “baixo”.

O levantamento identificou ainda fragilidade no monitoramento dos fornecedores de gado. Apenas sete empresas, cerca de 3% do total analisado, apresentaram algum nível de controle sobre fornecedores diretos. Em relação aos fornecedores indiretos, nenhuma companhia demonstrou evidências suficientes de acompanhamento efetivo.

Os fornecedores indiretos são as propriedades por onde o gado passa antes de chegar à fazenda que vende diretamente ao frigorífico. É nessas etapas de cria e recria que o animal passa a maior parte da vida. Sem monitoramento dessas áreas, o gado pode ser transferido de fazendas com desmatamento ou outras irregularidades para propriedades regularizadas antes do abate, dificultando a rastreabilidade.

O relatório aponta que os sistemas de controle da cadeia da carne no Brasil foram historicamente desenvolvidos para combater o desmatamento na Amazônia, deixando o Cerrado em segundo plano.

Só 3 de 21 frigoríficos de MS escapam da nota zero em ranking ambiental
Fonte: RAdar Verde Cerrado, 2026, com dados dos SIFs (Sistemas de Inpeção Federal) e SIES (Sistema de Inspeção Estadual) 2025.

Bioma -  Na Amazônia, os chamados TACs da Carne (Termos de Ajustamento de Conduta) estabeleceram critérios de monitoramento e auditoria para frigoríficos. No Cerrado, porém, não existe mecanismo semelhante em vigor.

O estudo cita como avanço o Protocolo de Monitoramento Voluntário de Fornecedores de Gado no Cerrado, lançado em 2024. Ainda assim, o documento ressalta que a iniciativa não possui mecanismos de punição em caso de descumprimento, o que reduz sua efetividade.

A pesquisa também destaca limitações territoriais dos sistemas atuais de rastreabilidade. O Cerrado possui 973,7 mil fazendas com áreas de pastagem de pelo menos um hectare. Dessas, apenas 22% estão localizadas dentro da Amazônia Legal, onde os sistemas de monitoramento dos frigoríficos foram historicamente concentrados. As outras 78% ficam fora da área efetivamente acompanhada.

Segundo o relatório, isso significa que grande parte das propriedades potencialmente fornecedoras de gado no Cerrado opera sem verificação efetiva por parte dos frigoríficos.

O estudo também chama atenção para diferenças estruturais entre os dois biomas. Enquanto na Amazônia o desmatamento está frequentemente associado a terras públicas e conflitos fundiários, no Cerrado ele ocorre principalmente em propriedades privadas e, muitas vezes, dentro dos limites permitidos pela legislação.

No Cerrado, o Código Florestal exige preservação de 20% a 35% da vegetação nativa nas propriedades rurais. Na Amazônia, a exigência pode chegar a 80%. Segundo os pesquisadores, isso faz com que analisar apenas o desmatamento ilegal seja insuficiente para medir os compromissos socioambientais das empresas que atuam no bioma.

O Cerrado ocupa 23,3% do território nacional e já perdeu 93 milhões de hectares de vegetação nativa, quase metade de sua área original. Desse total, 51% foram convertidos em pastagens. Em 2024, o bioma registrou pelo segundo ano consecutivo a maior área desmatada do país, com 652,1 mil hectares devastados, equivalente a 52,5% de todo o desmatamento nacional no período.

Sobre o Radar Verde - Desde 2022, o Radar Verde avalia o controle socioambiental de frigoríficos na Amazônia Legal e dos maiores grupos varejistas do país. Esta é a primeira vez que o levantamento também analisa empresas com atuação no Cerrado. A iniciativa faz parte da parceria entre o Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) e o Instituto O Mundo Que Queremos.

O Sicadems (Sindicato das Indústrias de Frio, Carnes e Derivados do Estado de Mato Grosso do Sul) foi procurado e ainda não se manifestou a respeito. O espaço permanece aberto.

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