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Política

Economia da cocaína transforma MS em ativo estratégico do crime organizado

Estudo da Esfera Brasil alerta para infiltração das facções na economia e defende foco no dinheiro do tráfico

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 01/07/2026 17:41
Economia da cocaína transforma MS em ativo estratégico do crime organizado
Primeira incineração de 2026 queimou mais de 8 toneçadas de drogas no Estado ((Foto: Divulgação)

Um documento sobre segurança pública que será entregue aos candidatos à Presidência da República pela Esfera Brasil, entidade dedicada aos estudos sobre os impactos do crime organizado na vida econômica e institucional do país, coloca Mato Grosso do Sul no centro de uma realidade que se impõe cada vez mais à agenda nacional: os efeitos do comércio da cocaína sobre a economia formal, com a corrosão das instituições provocada pelo fortalecimento de facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho).

RESUMO

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Estudo da Esfera Brasil aponta que cerca de 60% da cocaína que entra no Brasil passa por Mato Grosso do Sul, movimentando aproximadamente R$ 200 bilhões anuais, valor superior ao PIB do estado. O crime organizado, liderado por PCC e CV, infiltra-se na economia formal, como revelou a Operação Carbono Oculto. Especialistas defendem rastreamento financeiro e cooperação internacional para combater o narcotráfico.

As propostas apresentadas aos presidenciáveis têm como ponto de partida um estudo elaborado pela Esfera Brasil em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), segundo o qual o tráfico internacional da cocaína movimenta cerca de R$ 335,1 bilhões por ano com a droga que entra no país.

O levantamento, que leva em conta projeção sobre o valor da cocaína na Europa, estima que aproximadamente 60% da droga que ingressa no Brasil pelas fronteiras com Bolívia e Paraguai percorre o corredor formado por Mato Grosso do Sul antes de seguir para os grandes centros consumidores ou para mercados internacionais. É apenas uma referência sobre o fluxo, mas mostra que essa cadeia de negócios equivale a cerca de R$ 200 bilhões anuais, valor superior ao Produto Interno Bruto (PIB) sul-mato-grossense.

Isso não significa que essa riqueza permaneça no Estado ou mesmo no país. Grande parte dos recursos é apropriada ao longo da cadeia criminosa, remetida ao exterior ou reciclada por meio de sofisticados mecanismos de lavagem de dinheiro. Ainda assim, a magnitude desse mercado ajuda a explicar por que organizações criminosas passaram a disputar espaços na economia formal, infiltrando-se em setores estratégicos e ampliando sua capacidade de influência econômica e institucional.

Economia da cocaína transforma MS em ativo estratégico do crime organizado
Maior apreensão dos últimos anos descobriu em MS 4 carretas com cocaína em carga de madeira (Foto: Divulgação)

Presidente do Conselho Acadêmico do Instituto Esfera Brasil, o jurista Pierpaolo Bottini afirmou ao Campo Grande News que o governo brasileiro precisa promover uma integração efetiva entre os órgãos de segurança e ampliar a cooperação internacional em inteligência, com compartilhamento de bancos de dados e fortalecimento dos mecanismos de rastreamento financeiro, para combater a lavagem de dinheiro e impedir que os recursos do narcotráfico continuem infiltrando as facções na economia formal.

Bottini afirma que um dos setores que mais despertam preocupação é a cadeia do etanol em Mato Grosso do Sul, um dos novos alvos do crime organizado, como demonstrou a Operação Carbono Oculto ao identificar, no fim do ano passado, um grupo de oito distribuidoras de combustíveis instaladas em Iguatemi e operadas, segundo as investigações, por empresários acusados de ligação com o PCC.

Economia da cocaína transforma MS em ativo estratégico do crime organizado
Jurista Pierpaolo Cruz Bottini (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)

O poder econômico dessas organizações também pode ser medido por sua capacidade de absorver perdas sem comprometer suas estruturas. Em 2025, operações da Polícia Federal retiraram de circulação aproximadamente R$ 9,5 bilhões entre dinheiro, imóveis, veículos, aeronaves e outros bens ligados às facções. Mesmo assim, elas mantiveram suas atividades e continuaram expandindo seus negócios. Neste ano, apenas nos primeiros 45 dias do programa Brasil Contra o Crime Organizado, o Ministério da Justiça contabilizou mais de R$ 2 bilhões bloqueados ou apreendidos.

Nem mesmo a perda de cargas estimadas entre 20 e 50 toneladas de cocaína misturada como solvente à madeira, apreendidas em Corumbá e Cáceres (MT), na semana passada, comprometeu a capacidade financeira das organizações. Os números reforçam uma das principais conclusões do estudo: prisões e apreensões descapitalizam o tráfico, mas o enfrentamento mais efetivo exige interromper os fluxos financeiros que sustentam essas organizações.

Economia da cocaína transforma MS em ativo estratégico do crime organizado
Toneladas de solventes apreendidos nesta semana em MS para refino da cocaína (Foto: Divulgação)

O crime na economia formal

Pierpaolo Bottini avalia que esse é justamente o principal desafio contemporâneo. Segundo ele, o crime organizado deixou de ser apenas uma estrutura dedicada ao transporte e à comercialização de drogas para virar agente econômico capaz de disputar mercados, adquirir empresas, diversificar investimentos e infiltrar-se em cadeias produtivas estratégicas. "Um pedaço da economia foi capturado pelo crime organizado", afirma.

Segundo Bottini, o governo brasileiro precisa avançar na integração entre os órgãos de segurança e na cooperação internacional em inteligência, fortalecendo instrumentos como o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), o Susp (Sistema Único de Segurança Pública), a integração dos bancos nacionais de dados e os mecanismos de rastreamento, bloqueio e confisco de patrimônio ilícito. O objetivo, afirma, é impedir que o dinheiro do narcotráfico continue penetrando na economia formal.

Entre os setores que despertam maior preocupação está justamente o agronegócio. Bottini cita a mineração e o mercado do ouro como atividades vulneráveis à lavagem de dinheiro, mas chama atenção também para a expansão dos combustíveis, do etanol e do agro como um todo. O alerta encontra especial ressonância em Mato Grosso do Sul, que vive uma das maiores transformações econômicas do país, impulsionada pela expansão da celulose, da produção de grãos, da pecuária de alta produtividade e, sobretudo, da indústria de etanol de milho. São cadeias produtivas que movimentam bilhões de reais, operam com intensa logística e grande circulação de capital, características que podem despertar o interesse de organizações criminosas interessadas em ocultar patrimônio e reciclar recursos ilícitos.

O diagnóstico encontra paralelo em episódios recentes vividos pelo próprio Estado. A Operação Carbono Oculto revelou um esquema bilionário de fraudes tributárias, lavagem de dinheiro e comercialização de combustíveis envolvendo empresas sediadas em Iguatemi. As investigações apontaram empresários ligados ao PCC como operadores do grupo econômico. Embora trate de um caso específico, a operação ilustra o fenômeno descrito por Bottini: o dinheiro gerado pela economia da cocaína deixa de permanecer restrito ao mercado ilegal e procura espaços na economia formal por meio de empresas, distribuidoras de combustíveis, imóveis, investimentos e outros ativos aparentemente regulares.

Economia da cocaína transforma MS em ativo estratégico do crime organizado
Economista Pery Shikida, da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) (Foto: Divulgação)

Quando o crime compensa

O professor e economista Pery Shikida, da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná), sustenta, com base em pesquisas, que o criminoso toma decisões semelhantes às de qualquer agente econômico, comparando ganhos, custos e riscos antes de agir. Quando o lucro esperado supera o risco de prisão e as demais perdas potenciais, a atividade criminosa tende a se expandir.

Essa lógica foi confirmada por uma pesquisa coordenada por Shikida em dez unidades prisionais da Região Metropolitana de São Paulo, com entrevistas de 408 condenados por crimes econômicos. O estudo mostrou que a renda média obtida na atividade criminosa alcançava R$ 46,3 mil por mês, valor 12,9 vezes superior ao rendimento médio no mercado formal de trabalho. Para 91,2% dos entrevistados, os benefícios econômicos superavam os custos da atividade ilícita, reforçando a conclusão de que, do ponto de vista da escolha racional, "o crime compensa".

Segundo o economista, essa relação torna-se ainda mais vantajosa nas regiões de fronteira. Em entrevista ao Campo Grande News, Shikida afirmou que, enquanto em seu estudo os presos paulistas estimaram uma taxa média de sucesso de aproximadamente 80%, já considerado elevada, em Mato Grosso do Sul a probabilidade de êxito das operações ligadas ao tráfico pode variar entre 95% e 98%, reduzindo a probabilidade de prisão para menos de 5%. Como se vê, trata-se de um negócio extremamente atraente para as organizações criminosas.

A fronteira extensa e com baixo controle estatal amplia extraordinariamente a rentabilidade do negócio. A proximidade com os países produtores de cocaína, a multiplicidade de rotas e a estrutura logística disponível reduzem custos operacionais e elevam as margens de lucro das organizações criminosas. Nesse ambiente, violência, corrupção e disputa por território, que tem resultado em seguidos confrontos fatais com a polícia, deixam de ser fenômenos isolados e passam a integrar a estratégia de proteção de um mercado clandestino bilionário.

No rastro do dinheiro

O secretário-executivo da Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul, coronel Wagner Ferreira da Silva avalia que são os lucros e a probabilidade de sucesso do criminoso que embalam o tráfico. Embora fale a partir da experiência operacional, sua análise parte do mesmo princípio econômico: o crime organizado continuará crescendo enquanto permanecer um excelente negócio. Segundo ele, apenas aumentar apreensões de drogas ou prender integrantes das facções não altera, por si só, a lógica financeira que sustenta essas organizações.

"Só vamos medir resultados se houver ações efetivas de sufocamento do poder financeiro dessas organizações", afirma.

Ao comentar a estimativa apresentada por Shikida, Wagner resume a lógica econômica que move o narcotráfico com uma pergunta:

"Quem não investiria em um negócio que oferece grandes chances de retorno?"

Para ele, enquanto o lucro permanecer elevado e o risco continuar relativamente baixo, as organizações criminosas seguirão encontrando incentivos econômicos para ampliar suas operações. Combater essa lógica, conclui, exige elevar o custo do crime, reduzir sua rentabilidade e impedir que o dinheiro da cocaína continue irrigando a economia formal.