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Política

Operação Ifrit expõe desafio da segurança pública após aprovação de PEC

Investigação sobre policiais suspeitos de ligação com o tráfico em MS revela limites da integração entre força

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 04/11/2026 17:32
Operação Ifrit expõe desafio da segurança pública após aprovação de PEC
Operação Ifrit é sintoma do desafio da segurança pública em MS (Foto: Campo Grande News/IA)

 A aprovação unânime da PEC da Segurança Pública pelo Senado, na noite de terça-feira (3), foi seguida, cerca de 10 horas depois, por uma operação policial que mirou Mato Grosso do Sul e expôs uma das principais fragilidades do Estado brasileiro no enfrentamento ao crime organizado: a infiltração de agentes públicos nas estruturas das próprias facções que deveriam combater.

RESUMO

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A aprovação unânime da PEC da Segurança Pública pelo Senado foi seguida pela Operação Ifrit, que atingiu em Mato Grosso do Sul uma organização transnacional suspeita de movimentar mais de R$ 500 milhões em dois anos, com apoio de policiais civis, militares e de um policial rodoviário federal. O caso mostra que integrar sistemas não basta sem combater a infiltração de agentes públicos. O deputado Dagoberto Nogueira defende mais inteligência, efetivo federal e unidades na fronteira.

A Operação Ifrit oferece uma imagem concreta do desafio que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá de enfrentar com a aprovação da PEC e a criação, ainda em gestação, do Ministério da Segurança Pública.

O caso também mostra que a resposta vai além de integrar sistemas, compartilhar informações, ampliar competências ou endurecer penas. Passa, necessariamente, como aponta o deputado e ex-secretário de Segurança Pública, Dagoberto Nogueira (PP), por impedir o assédio de facções, que oferecem a um policial de fronteira, para liberar um caminhão com droga, o equivalente a dez anos de salário.

Em territórios onde organizações criminosas disputam rotas, mercados e poder, agentes públicos corrompidos transformam estruturas estatais em instrumentos de proteção e expansão do crime. A experiência da Colômbia na trágica era de Pablo Escobar mostrou como o tráfico pode corroer o Estado por dentro.

Na fronteira de Mato Grosso do Sul, a corrupção policial também aparece como uma ameaça à capacidade de investigação e fiscalização. Deflagrada nesta quarta-feira (4), a Operação Ifrit expôs suspeitas de vazamento de informações e apoio de agentes públicos a uma organização que movimentava centenas de milhões de reais.

A estrutura não basta - A PEC 18/2025 constitucionaliza o Susp (Sistema Único de Segurança Pública), amplia a coordenação federal e estabelece mecanismos de cooperação entre União, estados, Distrito Federal e municípios. O texto fortalece a atuação da Polícia Federal no combate a organizações criminosas de alcance interestadual e internacional, amplia atribuições da Polícia Rodoviária Federal e prevê maior previsibilidade de recursos para o setor.

A proposta busca dar ao governo federal instrumentos para coordenar uma resposta nacional a organizações que não respeitam limites territoriais ou administrativos. A criação de um Ministério da Segurança Pública, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou, segue essa lógica de conferir maior centralidade política e operacional ao enfrentamento do crime organizado.

O Consesp (conselho Nacional de Secretários de Segurança Pública) considera a aprovação um marco histórico. A entidade destaca a constitucionalização do Susp, a preservação da autonomia dos entes federados e do comando dos governadores sobre suas forças. Também ressalta a previsão de repasse automático e obrigatório de metade dos recursos dos fundos nacionais de Segurança Pública e Penitenciário aos estados e ao Distrito Federal. Também veda contingenciamento de recursos.

A entidade aponta, no entanto, um desafio ainda sem solução: a definição de fontes permanentes de custeio, vinculadas ao Orçamento da União. Os secretários defendem que o novo ministério tenha dedicação exclusiva à área e seja conduzido por gestores de segurança pública, para garantir a coordenação federativa necessária à implementação das mudanças.

Operação Ifrit expõe desafio da segurança pública após aprovação de PEC

A Operação Ifrit demonstra que a integração entre instituições pode produzir resultados limitados se não vier acompanhada de mecanismos efetivos para identificar e afastar servidores comprometidos com grupos criminosos. Compartilhar dados entre órgãos é fundamental. O problema é quando informações estratégicas também chegam a quem trabalha para o lado de dentro da organização criminosa.

Deflagrada pela Polícia Federal e pela Receita Federal, a ação atingiu uma organização transnacional com atuação concentrada na fronteira entre Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, e Pedro Juan Caballero, no Paraguai. A investigação aponta a participação de policiais civis e militares de Mato Grosso do Sul e de um policial rodoviário federal, suspeitos de fornecer informações e apoio ao grupo. A organização, que abastecia redes de distribuição no Brasil e enviava cocaína para Espanha e Portugal, teria movimentado mais de R$ 500 milhões em dois anos.

A dimensão da rede reforça o papel estratégico de Mato Grosso do Sul nas rotas do tráfico. Estima-se que entre 40% e 60% da cocaína que entra no Brasil passe pelo Estado, abastecendo os mercados interno e externo. A retomada do território fronteiriço sul-mato-grossense se coloca como uma das grandes demandas do governo federal nessa nova fase da ofensiva estatal. Especialistas apontam que, em quatro décadas de democracia, os governos estaduais, que têm atribuição constitucional sobre a gestão de segurança, fracassaram, enquanto o crime organizado, da fronteira aos grandes centros, só avançou.

Mais governo na fronteira - Duas vezes secretário de Segurança de Mato Grosso do Sul, o deputado federal Dagoberto Nogueira (PP) vê na PEC uma oportunidade de reforçar a segurança no Estado, desde que a ampliação das responsabilidades federais venha acompanhada de efetivo, inteligência e tecnologia.

“Eu acho que facilita se houver um serviço de inteligência em conjunto com o Estado e tiver um efetivo maior da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal”, afirma.

Operação Ifrit expõe desafio da segurança pública após aprovação de PEC
O deputado federal Dagoberto Nogueira (PP) (Foto: Divulgação)

Para o parlamentar, Mato Grosso do Sul seria um dos principais beneficiados pela integração, já que boa parte da droga e armas que abastecem mercados como São Paulo e Rio de Janeiro passam pelo Estado. Ele defende o monitoramento por satélite para identificar áreas de cultivo de maconha no Paraguai, acompanhar colheitas e rastrear cargas e veículos suspeitos antes que atravessem a fronteira.

“A primeira medida é serviço de inteligência. E usar também a tecnologia, porque você tem hoje filmagem por satélite, sabe onde tem o plantio de maconha, sabe na hora que eles colhem, para onde vai”, diz.

Dagoberto critica a concentração de delegacias da Polícia Federal em Dourados, Ponta Porã e Naviraí. Defende unidades em municípios menores da linha de fronteira, como Coronel Sapucaia e Sete Quedas, para evitar deslocamentos que, segundo ele, comprometem a fiscalização.

“Essas delegacias deviam ser nos municípios que estão na fronteira”, afirma. Ele explica que, enquanto uma patrulha que faz uma apreensão em Sete Quedas, por exemplo, se desloca para levar presos e droga a Dourados, onde precisa permanecer por horas para registrar a ocorrência, “passam trezentas carretas” com o que realmente interessa ao tráfico: a cocaína.

A avaliação reforça a necessidade de uma estrutura federal permanente, capaz de atuar não apenas depois das apreensões, mas também na prevenção e na investigação das redes que movimentam drogas, armas e dinheiro. Dagoberto cita o desempenho da PRF nas apreensões e atribui parte dos resultados à estrutura, à inteligência e à remuneração da corporação.

“Eu acho que se der mais equipamentos, trazer mais gente para isso, é lógico que vai dar uma resposta”.

O deputado, que apoia a criação do ministério, cobra que o governo federal esclareça como pretende assumir novas responsabilidades sem ampliar os efetivos e os mecanismos de inteligência.

“Não adianta ele puxar uma responsabilidade que hoje é dos estados e municípios sem que aumente o efetivo da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal.”

Cortar na própria carne - A Operação Ifrit reforça a necessidade de um processo planejado de depuração das forças de segurança. Não uma campanha episódica, desencadeada apenas quando uma investigação de grande repercussão expõe agentes envolvidos com o crime, mas uma política permanente de prevenção, controle e responsabilização.

Dagoberto reconhece que a infiltração criminosa nas polícias é um dos obstáculos mais graves. “A verdade é que muitos estados, principalmente o Rio de Janeiro, estão totalmente comprometidos. A polícia está muito envolvida junto com o crime organizado”, afirma.

O deputado diz conhecer a delicadeza das circunstâncias na fronteira. Ele lembra que o rodízio de agentes era uma medida constante para reduzir os riscos de corrupção. Também aponta a diferença entre os salários e os valores oferecidos pelo tráfico como fator de vulnerabilidade.

“O cara ganha cinco mil reais. Ele deixa passar um caminhão de maconha e ganha o que não ganha em dez anos”, afirma.

Para Dagoberto, operações integradas com participação federal podem dar respaldo a policiais estaduais interessados em combater facções. A preocupação converge com o que a Ifrit revela: a necessidade de investigar não apenas os criminosos, mas também as estruturas públicas que eventualmente os protegem. O desafio é afastar a chamada banda podre sem transformar punição em perseguição ou generalizar comportamentos isolados.

A mudança que falta - A criação do Ministério da Segurança Pública e a constitucionalização do Susp podem representar mudanças importantes na organização do combate ao crime. A PEC prevê maior rigor contra integrantes de facções e milícias, medidas patrimoniais, proteção a vítimas e denunciantes e reforço do financiamento.

Mas a construção de instituições confiáveis é condição para que essas medidas funcionem. Especialistas alertam que o Estado pode ampliar orçamento, multiplicar operações e endurecer penas, mas continuará vulnerável se agentes encarregados de aplicar a lei continuarem atuando em favor de organizações criminosas.

Dagoberto distingue o crime organizado do terrorismo e rejeita a equiparação das facções a grupos terroristas, como fez o governo do presidente americano Donald Trump. “Eles são marginais, são bandidos, são assassinos. É completamente diferente do terrorismo, que é ideológico e político.” A discussão reforça a necessidade de uma política própria, ajustada à realidade brasileira e às redes criminosas que operam dentro e fora do país em busca do lucro.

Esse caso foi sugerido por leitor que enviou mensagem através das redes sociais. Também é possível entrar em contato pelo canal Direto das Ruas.