Tereza Cristina cresce na crise da direita e vira alternativa de poder do agro
Desgaste de Flávio Bolsonaro e de Ciro Nogueira fortalecem senadora na bancada ruralista, Centrão e mercado
A senadora Tereza Cristina não usa metáforas futebolísticas, mas, neste momento, com a candidatura de Flávio Bolsonaro derretendo no campo da direita, joga parada.
RESUMO
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Longe dos escândalos que atingiram em cheio o presidente nacional do PP, Ciro Nogueira, e única entre os 11 parlamentares federais de Mato Grosso do Sul com mandato garantido até 2030, Tereza Cristina passou a ser lembrada nos bastidores de Brasília como um dos nomes capazes de reorganizar o centro-direita caso o bolsonarismo precise trocar de competidor para 2026.
O cientista político Daniel Miranda avalia que a trajetória da senadora a consolidou como “nome nacional” da direita desde a passagem pelo Ministério da Agricultura no governo Bolsonaro. Para ele, a posição de Tereza “no campo da direita é inquestionável”.
Daniel define a parlamentar como uma espécie de “reserva moral” do Progressistas num momento em que o partido enfrenta desgaste provocado pelas investigações envolvendo Ciro Nogueira. “Nunca teve nenhum grande escândalo, não tem nenhuma acusação. Foi quatro anos ministra do Bolsonaro sem se envolver em qualquer tipo de polêmica”, afirma.
Líder do Progressistas no Senado e vice-presidente nacional da legenda, a ex-ministra atravessa a crise com sobriedade. Quando vieram à tona as revelações da Polícia Federal sobre os supostos pagamentos atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, Tereza reagiu com cautela: defendeu investigação rigorosa, mas preservou o discurso da presunção de inocência de Ciro Nogueira.
Direita em ebulição
Num cenário ainda sujeito aos solavancos do Caso Master, a senadora vai pavimentando um caminho que pode levá-la tanto à disputa presidencial quanto ao comando do Senado, cargo que ela própria admite desejar. Na noite de terça-feira (19), ela foi a única integrante da bancada federal de Mato Grosso do Sul a chegar a um jantar com dezenas de prefeitos do Estado ao lado do governador Eduardo Riedel, numa badalada churrascaria de Brasília. Vestia branco e não economizava sorrisos. Poucas horas antes, Flávio admitia ter tido um encontro com o banqueiro Vorcaro quando este usava tornozeleira eletrônica, dias depois da primeira prisão.
O deputado Dagoberto Nogueira vê o escândalo como potencialmente fatal para Flávio Bolsonaro. “Acredito que isso acaba inviabilizando a candidatura dele. Passaria a campanha inteira tendo de se justificar”, diz. Sobre Tereza Cristina, foi direto: “Acho que seria uma pessoa capaz de unir a extrema direita, o centro e até o centro-esquerda. É alguém que conversa com todos”. E, sem levar em conta que seu partido, o PSDB, possa lançar candidato, não escondeu o entusiasmo com a conterrânea: “Entraria na campanha dela como se fosse a minha”.
O senador Nelsinho Trad (PSD) também avalia que o Caso Master abriu um “momento sensível e delicado” para a direita. Mesmo assim, reconhece que as incertezas colocam Tereza Cristina entre os nomes viáveis do campo conservador. “Todo mundo elogia muito a postura dela e a representatividade que ela tem”, afirma.
Até aqui, segundo aliados, não houve convite formal para composição de chapa, mas interlocutores próximos afirmam que Tereza Cristina não demonstra entusiasmo em ocupar uma eventual vice-presidência numa candidatura de Flávio Bolsonaro.
O deputado federal Luiz Ovando, único integrante da bancada federal sul-mato-grossense filiado ao PP e alinhado politicamente à senadora, afirma que ela “não se sentiria confortável” numa eventual vice-presidência ao lado do senador fluminense.
“Eu acho que a Tereza ficaria muito mais confortável e seria candidata a vice fosse o Tarcísio o candidato ou pré-candidato à Presidência. No caso atual, eu acho que não”, diz Ovando. Tarcísio de Freitas, porém, acabou limitado à disputa pela reeleição em São Paulo.
Segundo Ovando, a senadora atravessa a turbulência interna do partido sem romper pontes. “A Tereza sabiamente contorna a situação”, resume.
A musa do agro
De um estado eleitoralmente pequeno, Tereza Cristina não agrega densidade de voto nacional nesse momento. Compensa isso, porém, com trânsito raro entre a elite do agronegócio, o mercado financeiro e o setor industrial ligado à exportação de commodities. Dentro da FPA (Frente Parlamentar Agropecuária), é vista como um dos nomes mais sólidos do agro institucional.
Esse capital político ajuda a explicar por que a senadora passou a ser tratada, dentro do Progressistas e de setores do PL, como uma alternativa de centro-direita menos ideológica e mais previsível para o mercado.
A trajetória nacional de Tereza Cristina se consolidou em 2018, quando presidiu a comissão especial que aprovou o projeto apelidado por ambientalistas de “PL do Veneno”, que flexibilizava regras para registro de agrotóxicos. Foi ali que nasceu o rótulo de “Musa do Veneno”, apropriado por críticos e incorporado, em certa medida, pelo próprio setor ruralista como símbolo de resistência ao que chamam de criminalização do agro.
Ao contrário de outros políticos que tentam suavizar o tema, Tereza sempre tratou a pauta de maneira frontal. Sustenta que o Brasil precisava modernizar a legislação, afirma que o termo “agrotóxico” carrega viés ideológico e argumenta que o excesso de restrições ameaça produtividade e competitividade internacional.
A postura a transformou numa das figuras mais atacadas por ambientalistas e organizações de saúde pública, mas também numa referência para o agronegócio exportador.
Ponte para o mercado
O que diferencia Tereza Cristina de figuras mais estridentes do bolsonarismo ruralista é o estilo político. Alheia a conflitos desnecessários e às lacrações das redes sociais, sua força está na articulação silenciosa.
Ela se consolidou como voz influente em disputas envolvendo marco temporal, demarcações de terras indígenas, expansão de áreas quilombolas e ações do MST. Críticos a classificam como anti-indigenista. Já os aliados preferem defini-la como defensora da segurança jurídica no campo.
Ao mesmo tempo, procura apresentar um ruralismo mais sofisticado que o discurso tradicional dos anos 1990. Em vez do embate aberto contra povos indígenas, defende integração produtiva, agricultura indígena em escala comercial e autonomia econômica nas aldeias dentro, é claro, da lógica do agronegócio. É uma proposta que arrepia o indigenismo.
Esse talvez seja um dos pontos centrais de sua personagem política: ela representa um agro mais empresarial, profundamente conectado ao comércio exterior, às tradings e às cadeias globais de commodities.
Durante o governo de Jair Bolsonaro, Tereza Cristina foi vista como uma das ministras mais pragmáticas da Esplanada. Enquanto Bolsonaro acumulava crises diplomáticas, ela trabalhava para preservar mercados estratégicos, especialmente China e Oriente Médio.
Essa combinação de previsibilidade política, capacidade técnica e baixo índice de confronto direto ajudou a ampliar sua influência para além da bancada ruralista. Hoje, interlocutores do Centrão, dirigentes partidários e setores do mercado enxergam nela uma ponte entre o agro exportador, o conservadorismo, a direita liberal e parte da Faria Lima.
Daniel Miranda avalia que Tereza continuará sendo lembrada para composições majoritárias da direita mesmo que parte dessas articulações não avance. “Desde que ela se tornou ministra do Bolsonaro, consolidou o nome dela no plano nacional”, afirma.
O cientista político também avalia que a senadora pode se fortalecer à medida que outros nomes do campo conservador enfrentem desgaste político ou jurídico. “A Tereza Cristina tem uma posição forte, é uma pessoa que sempre vai estar ali sendo cortejada, lembrada e testada nas pesquisas”, conclui.
A campanha eleitoral será oficialmente deflagrada depois das convenções partidárias, entre 20 de julho e 5 de agosto. Até lá, haverá especulações para todos os gostos. Mas alguns sinais podem surgir antes, especialmente entre grupos com forte influência política. Um deles, a poderosa FPA, pode se definir previamente e, caso a candidatura bolsonarista colapse, dois nomes hoje circulam com força na agenda ruralista: Tereza Cristina e Ronaldo.


