Vander aposta na conciliação para reduzir resistência ao PT em MS
Aliado de Lula, deputado tenta transformar força nos bastidores e polarização em competitividade ao Senado

Aos 62 anos, o deputado federal Vander Loubet chega à disputa pelo Senado diante da mais importante cartada de sua longa trajetória política. Depois de seis mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, período em que construiu fama de negociador paciente, habilidoso e operador de resultado do PT em Mato Grosso do Sul, o parlamentar tenta agora romper uma barreira histórica: transformar o capital acumulado nos bastidores em densidade eleitoral suficiente para vencer uma eleição majoritária num dos estados mais conservadores do país.
RESUMO
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É o campeão de mandatos federais no Estado ou, como observou o cientista político Daniel Miranda, da UFMS, “o Londres Machado" da Câmara dos Deputados. "Ele construiu, desde muito jovem, uma carreira longa e bem sucedida”. Miranda destaca como marcas a capacidade de articulação e o pragmatismo, com os quais o deputado pavimentou caminho próprio a partir da primeira eleição, em 2002.
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Fundador do PT, aliado histórico e amigo pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Vander deu curso a uma trajetória longe do perfil incendiário que marca parte da política contemporânea. Seu estilo, como o do presidente, sempre esteve mais próximo da conciliação do que do confronto. “Para mim, a matéria-prima da política é a conversa”, costuma dizer. Outra frase, repetida desde os tempos de militância sindical e organização partidária, ajuda a resumir seu método: “A política é algo que comporta o conflito e o consenso”.
O político das pontes
Nascido em Porto Murtinho, às margens do Rio Paraguai, Vander gosta de recorrer às metáforas pantaneiras para explicar a própria visão de mundo. “Animal que anda só pode virar comida de onça”, afirma ao defender alianças políticas amplas e permanentes. A frase ajuda a entender um personagem moldado pela construção paciente de redes políticas, acordos e convivência entre divergentes.
Foi justamente essa capacidade de mediação que lhe deu espaço dentro do PT desde os anos 1980. Enquanto o tio, o ex-governador e atual deputado estadual Zeca do PT, consolidava liderança popular e perfil mais combativo, Vander se especializava no chamado “varejo” político: montar chapas, administrar correntes internas, conversar com prefeitos, acomodar aliados e construir pontes entre grupos rivais.
Em entrevistas reunidas no livro Diálogos Políticos, ele admite ter aprendido cedo a conviver com o contraditório, primeiro dentro da própria família, dividida entre conservadores e opositores da ditadura militar, depois no movimento estudantil, no sindicalismo bancário e na construção do PT sul-mato-grossense.
“Para mim, ação política, em muitos casos, é criar pontes entre os atores”, afirmou no livro lançado em 2014. A definição talvez seja a melhor síntese de um político que ajudou a organizar o PT no Estado ainda durante a ditadura militar, participou da construção da CUT (Central Única dos Trabalhadores) em Mato Grosso do Sul e se tornou um dos principais operadores políticos do campo lulista na região.
O ex-deputado João Leite Schimidt (PDT) definiu Vander, na apresentação do livro, como um “político habilidoso e paciente”, alguém que aprendeu cedo “que a ciência da vida não é viver, mas sim conviver”. Na mesma apresentação, João Leite sustenta que Vander sempre acreditou em alianças e o descreve como um estrategista capaz de antecipar movimentos políticos antes de boa parte dos adversários e aliados.
Do varejo ao Senado
A disputa de 2026, porém, coloca Vander diante de um desafio diferente daquele que enfrentou ao longo da vida parlamentar. Reeleger-se deputado federal tornou-se, nos últimos ciclos, uma tarefa relativamente confortável para um político com forte capilaridade regional, presença municipalista e ampla rede de prefeitos e vereadores aliados.
O Senado, no entanto, exige outro patamar de atuação. Miranda avalia que o deputado vai precisar de Lula que, se estiver bem, seguindo a lógica de uma influência nacional no Estado, pode ajudá-lo muito. “Um candidato a presidente forte sempre elegeu senador em Mato Grosso do Sul. Mas ele vai precisar romper a barreira dos votos do PT ao Senado (300 mil) da última eleição”.
Além de trabalhar para ampliar o eleitorado tradicional do PT, Vander aposta numa combinação de fragmentação da direita e ampliação de alianças regionais para se tornar competitivo.
Em entrevista recente ao Campo Grande News, o deputado sustentou que a disputa interna no PL, que se come por dentro numa guerra envolvendo nomes como Reinaldo Azambuja, Capitão Contar e Marcos Pollon, também pode abrir espaço para sua candidatura ao Senado. Ele também aposta na construção de uma frente ampla capaz de reduzir o isolamento histórico do PT no Estado.
Esse movimento ajuda a explicar a aproximação do grupo lulista com partidos como PSB, PV, PCdoB e PDT, além da tentativa de consolidar a candidatura do ex-deputado federal Fábio Trad ao governo estadual. Nos bastidores, aliados enxergam na composição ampla uma repetição regional da estratégia nacional que levou Lula de volta ao Palácio do Planalto em 2022.
Rearranjo no tabuleiro
Vander tenta apresentar sua candidatura para além da militância histórica do PT. Ele tem reforçado o perfil municipalista construído ao longo de seis mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, argumentando que ajudou municípios “independentemente dos prefeitos”. A fala busca consolidar a imagem de um articulador pragmático, capaz de dialogar com aliados e adversários num estado em que o antipetismo ainda permanece eleitoralmente relevante.
A própria configuração da disputa mudou nos últimos meses. A decisão de Simone Tebet de concentrar seu projeto político em São Paulo reorganizou parcialmente o tabuleiro do Senado em Mato Grosso do Sul e abriu espaço para novas articulações no campo de centro e centro-esquerda.
A disputa para o Senado tem nessa eleição peso estratégico. Uma bancada conservadora fortalecida promete ampliar o embate com a Corte e pressionar ainda mais o governo federal. Para o PT, eleger nomes historicamente ligados ao lulismo tornou-se prioridade nacional.

O operador de bastidores
A capacidade de articulação política aparece como um dos principais ativos de Vander Loubet. Em entrevista ao Campo Grande News, Fábio Trad descreve o deputado como um político “extremamente trabalhador”, “muito bem-sucedido na viabilização de recursos” e reconhecido pela disposição “acima da média” de percorrer ministérios em busca de verbas para os municípios. Segundo Trad, “em todos os lugares” por onde passa no Estado encontra obras associadas a emendas viabilizadas por Vander.
A capacidade de dialogar além das fronteiras ideológicas aparece até em administrações alinhadas ao bolsonarismo. Prefeito de Pedro Gomes pelo PL, Delegado Murilo diz ouvir de outros gestores que Vander é “um dos deputados que mais atua para captação de emendas” no Estado.
Embora admita ainda não ter recebido recursos do parlamentar, afirma ter uma “imagem boa” do petista e relata que o deputado, com quem se encontrou pessoalmente na semana passada, comprometeu-se a ajudar o município, especialmente em demandas ligadas ao pequeno produtor.
Trad lembra ainda que a prefeita de Eldorado, Fabiana Lorenci, filiada ao PP, também abriu espaço para aproximação com o grupo petista. “Ele conversa com todos os partidos, inclusive com o PL. É muito habilidoso, tem um trânsito político interessante”, afirmou. A própria aproximação de Fábio com o PT é atribuída, nos bastidores, à atuação de Vander.
Ex-deputado federal pelo PSD de Gilberto Kassab, Trad afirma que o parlamentar teve papel decisivo tanto em sua filiação quanto no convencimento para disputar o governo do Estado. Vander também articulou a ida do PT para o governo Eduardo Riedel e, depois, o rompimento, mas sem deixar que as divergências virassem inimizade.
Nos bastidores do PT, Vander é visto como um operador político mais associado à articulação institucional e à construção de alianças do que à atuação de enfrentamento público. Trad atribui a ele papel importante na sustentação política do governo de Zeca do PT, especialmente no período em que comandou a Casa Civil. A aposta do grupo petista é que esse perfil, somado à associação com o presidente Lula, permita ao deputado ocupar o espaço do chamado “campo democrático”.

Ativo arriscado
Vander não responde atualmente a processos, mas ao longo da trajetória política precisou enfrentar suspeitas e citações em investigações sobre corrupção. Em entrevista ao Diálogos Políticos, em 2014, afirmou que havia sido alvo de inquéritos, mas negou irregularidades e destacou que “quase todos os inquéritos foram arquivados por falta de fundamento”.
Três anos depois, tornou-se réu no STF sob acusação de corrupção passiva e lavagem de dinheiro em investigação derivada da Lava Jato sobre a BR Distribuidora. Em 2020, porém, foi absolvido por unanimidade pela Segunda Turma da Corte, que concluiu que a Procuradoria-Geral da República não conseguiu comprovar as acusações.
Vander entra nessa disputa carregando simultaneamente um ativo e um risco: sua proximidade com Lula. Se o presidente recuperar popularidade e competitividade, Vander pode crescer junto. Se o governo continuar enfrentando desgaste, o petista terá de compensar nas alianças regionais aquilo que faltar em prestígio no plano nacional.
Hoje, as pesquisas colocam Vander no segundo pelotão da disputa. Mas aliados apostam justamente na característica que o acompanhou desde a juventude: a capacidade de construir caminhos improváveis por meio da negociação política honrando compromissos.
Um traço que, segundo ele próprio, aprendeu ainda menino, observando os conflitos familiares na velha Porto Murtinho. “Ninguém é obrigado a tratar. É obrigado a cumprir”, ensinavam seus pais, lição que ele transformou em método político ao longo de quatro décadas de vida pública.

