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Campo Grande, Sexta-feira, 22 de Junho de 2018

17/11/2017 13:57

"Bruxaria e Ciência"

Por Ronaldo Mota (*)

Anteriormente ao período conhecido como Renascimento na Europa, particularmente antes das contribuições de pensadores como Copérnico (1473-1543), Galileu (1564-1642) e Newton (1643-1727), a percepção dos indivíduos acerca de alguns fenômenos cotidianos era muito diversa da atual. Alguém imaginar que habitávamos um mundo que não fosse basicamente plano beirava a insanidade ou acreditar que um astro como a Lua pudesse interferir à distância no fenômeno das marés era crer em bruxaria.

A pergunta difícil de responder é quais fatos ou concepções atualmente negamos, desprezamos ou chamados de feitiçarias e que, talvez, em tempos adiante, fruto de avanços científicos, venhamos a aceitar como corretos ou verídicos. Adotamos que os limites entre bruxaria e ciência só se tornam mais claros à luz do método científico, aprimorado a partir do nascimento da ciência moderna, construída, entre outros, pelos mesmos personagens acima citados.

Um interessante exemplo de espaço difuso entre a ciência e o misticismo é a alquimia, a qual foi responsável por consideráveis avanços da química na Idade Média, anterior ao Renascimento. O principal objetivo da alquimia, além de obter o elixir da imortalidade, era a transmutação de metais não preciosos em ouro. Ainda que não tenham sido bem-sucedidos neste item, desenvolveram os principais processos de destilação, a técnica do banho-maria para aquecer lentamente soluções e criaram a porcelana, entre outras significativas contribuições.

Copérnico era cônego da Igreja e a ele foi encomendado que solucionasse o calendário Juliano em vigor. Este corrigia o ano solar de 365 dias adiantando um dia a cada quatro anos, o conhecido ano bissexto. Por ser excessiva esta correção, no século XVI havia uma defasagem acumulada de 10 dias, e o calendário oficial da Igreja estava trazendo reais prejuízos aos agricultores que nele se baseavam para seus plantios. Copérnico resolveu o dilema adotando o Sol como centro e a Terra girando em torno dele. Assim foi construído o calendário Gregoriano, adotado pela Igreja em 1582. Contraditoriamente, a Igreja permaneceu reafirmando o irracional geocentrismo, ainda que ciente da racionalidade do heliocentrismo.

As marés, antes do Renascimento, eram, em geral, associadas com animismos do tipo “respiração” do mundo. Galileu, tentando apoiar a tese heliocêntrica de Copérnico, procurou explicar, sem sucesso, as marés desenvolvendo uma comparação com a água em um vaso. Haveria três maneiras para a água do vaso se mover: a inclinação do vaso, causas externas (ventos, por exemplo) e o movimento do próprio vaso, sujeito a acelerações e desacelerações.

Aquilo que Galileu não resolveu, Newton, que nasceu alguns meses após a sua morte, elucidou, baseado na teoria gravitacional de atração entre os corpos. As marés são basicamente consequências de três fenômenos principais: a atração Terra-Lua, a atração Terra-Sol e a rotação da Terra em torno de seu eixo. Assim, Terra e Lua (ou Sol) se atraem mutuamente, sendo que os ponto da Terra mais afastados da Lua (ou do Sol) são atraídos mais fracamente do que os pontos mais próximos. A gravidade faz com a forma quase arredondada da Terra se achate, gerando uma protuberância externa na face voltada à Lua (ou ao Sol). Quando Sol, Lua e Terra se alinham (luas novas e cheias) as marés altas ocorrem, e quando Sol, Terra e Lua formam um ângulo reto (luas crescente e minguante) os efeitos da gravidade são mais neutros.

Em suma, devemos ser cautelosos acerca de, eventualmente, estarmos classificando certos fenômenos como bruxarias simplesmente porque os limites atuais de nossos conhecimentos ainda não permitem elucidar por completo. O que restará em comum a ser preservado, em qualquer dos tempos, será o método, o método científico moderno, este sim o grande legado do Renascimento.

(*) Ronaldo Mota é chanceler da Estácio de Sá

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