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O inglês de Wilton Pereira Sampaio e o preconceito linguístico

Por Kleber Aparecido da Silva (*) | 22/06/2026 09:30

Em uma Copa do Mundo, espera-se que os principais assuntos sejam os gols, as atuações memoráveis, as surpresas esportivas e os grandes personagens do futebol. Entretanto, durante a partida de abertura do torneio, realizada no último dia 11 de junho, outro tema acabou ocupando espaço significativo nas redes sociais brasileiras. O árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio tornou-se alvo de comentários, memes e críticas em razão do inglês utilizado para se comunicar com atletas e integrantes das comissões técnicas durante o jogo.

Em poucas horas, vídeos de suas interações circularam amplamente nas plataformas digitais. Milhares de comentários passaram a avaliar sua pronúncia, seu sotaque e sua forma de falar inglês. O que poderia parecer apenas mais um episódio de humor típico das redes sociais revela, na verdade, uma questão muito mais profunda e preocupante: a persistência de formas contemporâneas de preconceito linguístico e a dificuldade de parte da sociedade em reconhecer a legitimidade da diversidade linguística em um mundo globalizado.

O caso merece atenção porque não se trata apenas de um árbitro de futebol. Trata-se de um profissional brasileiro que atua em um dos maiores eventos esportivos do planeta e que, para desempenhar suas funções, utiliza uma língua adicional em contextos de alta complexidade comunicativa. Ainda assim, sua competência profissional acabou sendo eclipsada por avaliações superficiais acerca de sua pronúncia. O foco deslocou-se do conteúdo para a forma, da comunicação para o sotaque.

Esse episódio evidencia a permanência de uma ideologia linguística que continua associando prestígio, competência e inteligência à proximidade com determinados modelos de fala. Durante décadas, o ensino de inglês foi estruturado a partir da crença de que existiria um único padrão legítimo de uso da língua, normalmente representado pelas variedades britânica e estadunidense. Conforme observa Rajagopalan (2003), a figura do falante nativo foi historicamente construída como referência máxima de legitimidade linguística, produzindo hierarquias que classificam alguns falantes como mais competentes do que outros.

No entanto, essa concepção vem sendo amplamente questionada por pesquisadores da Linguística Aplicada (Crítica) e dos estudos sobre a internacionalização da língua inglesa. Crystal (2003) argumenta que o inglês tornou-se uma língua global, utilizada em praticamente todos os continentes e em contextos socioculturais extremamente diversos. Em consequência, a língua deixou de pertencer exclusivamente aos países historicamente associados à sua origem e passou a ser apropriada por milhões de usuários em diferentes partes do mundo.

Essa mudança de perspectiva foi aprofundada pelos estudos de Kachru (1985), que propôs compreender o inglês contemporâneo a partir de múltiplos círculos de uso, reconhecendo a legitimidade das diferentes variedades desenvolvidas em distintos contextos históricos e culturais. Em vez de um único inglês, existe uma pluralidade de ingleses. O inglês falado na Índia, na Nigéria, em Singapura, na África do Sul ou no Brasil não representa uma forma inadequada da língua, mas manifestações legítimas de uma realidade linguística global.

Na mesma direção, Jenkins (2015) e Seidlhofer (2011) demonstram que a maior parte das interações em inglês realizadas atualmente ocorre entre falantes que não têm o idioma como língua materna. Nesses contextos, o objetivo principal não é reproduzir o sotaque de Londres ou de New York, mas garantir a comunicação entre pessoas de diferentes nacionalidades. O inglês funciona, assim, como língua franca internacional, servindo de ponte entre sujeitos cujas histórias linguísticas são profundamente distintas.

Sob essa perspectiva, a pergunta relevante não deveria ser se Wilton Pereira Sampaio fala inglês como um estadunidense ou como um britânico. A questão central deveria ser outra: sua comunicação foi eficaz? Os jogadores compreenderam suas orientações? O jogo transcorreu normalmente? Se a resposta for afirmativa, o objetivo comunicativo foi plenamente alcançado.

O problema é que as avaliações sociais sobre a linguagem raramente se limitam à comunicação. Como demonstra Bagno (2015), o preconceito linguístico opera por meio da atribuição de valores sociais a determinadas formas de falar. Embora seja frequentemente associado às variedades regionais do português brasileiro, esse fenômeno também se manifesta quando sotaques estrangeiros são ridicularizados ou considerados inferiores. Nesse caso, a crítica aparentemente dirigida à pronúncia frequentemente encobre julgamentos relacionados à identidade, à origem social e ao pertencimento cultural dos falantes.

Nenhum indivíduo fala uma língua de maneira neutra. Toda fala carrega marcas da trajetória social, cultural e linguística de quem a produz. O sotaque não é um defeito nem uma falha de aprendizagem; ele constitui uma dimensão legítima da identidade linguística dos sujeitos. Exigir que todos falem inglês de acordo com padrões idealizados significa ignorar a diversidade que caracteriza as interações globais contemporâneas.

É precisamente nesse ponto que a Linguística Aplicada Crítica oferece contribuições fundamentais para a compreensão do episódio. Conforme argumenta Pennycook (2001), as línguas não podem ser entendidas apenas como sistemas abstratos de comunicação. Elas estão profundamente relacionadas a questões de poder, identidade, ideologia e desigualdade social. A linguagem participa ativamente da produção de hierarquias e da legitimação de determinados grupos em detrimento de outros.

Para a Linguística Aplicada Crítica, não basta perguntar se uma forma linguística está correta ou incorreta. É necessário questionar quem define os critérios de correção, quais interesses estão envolvidos nessa definição e quem é beneficiado ou prejudicado por tais classificações. Como destaca Moita Lopes (2006), as práticas linguísticas são práticas sociais e, portanto, estão inevitavelmente vinculadas às relações de poder presentes na sociedade.

Nesse sentido, a repercussão do inglês de Wilton Pereira Sampaio permite refletir sobre formas sutis de colonialidade que continuam presentes nas relações linguísticas contemporâneas. Mignolo (2000) argumenta que a colonialidade não se encerra com o fim das administrações coloniais. Ela permanece operando por meio de mecanismos simbólicos que estabelecem quais conhecimentos, culturas e formas de expressão devem ser considerados legítimos. Quando apenas determinadas variedades do inglês são reconhecidas como modelos aceitáveis, reproduzem-se hierarquias construídas historicamente a partir das relações de poder entre Norte e Sul Global.

Kumaravadivelu (2016) denomina esse processo de colonialidade linguística. Segundo o autor, a valorização excessiva de determinados padrões linguísticos produz a marginalização de outras formas de expressão igualmente legítimas. O resultado é a construção de uma lógica excludente que transforma diferenças em deficiências e diversidade em inadequação.

No contexto brasileiro, essa questão assume contornos particularmente relevantes. Milhões de estudantes convivem diariamente com o receio de falar inglês em público por medo de julgamentos relacionados ao sotaque ou à pronúncia. Muitas vezes, a ansiedade produzida por essas expectativas torna-se um obstáculo maior do que as próprias dificuldades linguísticas. Como observa Norton (2013), o medo da exposição e da avaliação negativa pode limitar significativamente a participação dos aprendizes em práticas comunicativas internacionais.

Ao ridicularizar a fala de um profissional brasileiro que atua em um cenário global, reforça-se a ideia de que somente aqueles capazes de reproduzir padrões específicos de pronúncia seriam usuários legítimos da língua inglesa. Trata-se de uma concepção incompatível com a realidade contemporânea e com os avanços produzidos pelas pesquisas linguísticas nas últimas décadas.

Talvez a principal lição desse episódio seja a necessidade de repensarmos nossas próprias crenças sobre língua, identidade e diversidade. O mundo contemporâneo caracteriza-se pela mobilidade, pelo contato intercultural e pela multiplicidade de vozes. Nesse cenário, a pluralidade linguística não constitui um problema a ser corrigido, mas uma riqueza a ser valorizada.

O inglês falado por Wilton Pereira Sampaio não deveria ser motivo de chacota. Ao contrário, deveria ser compreendido como exemplo de um profissional brasileiro que ocupa espaços internacionais sem abrir mão de sua história linguística e cultural. Como lembra Pennycook (2001), as línguas são espaços de negociação de sentidos, identidades e relações de poder. A questão, portanto, nunca foi apenas sobre inglês.

O verdadeiro problema não está na forma como um árbitro brasileiro fala uma língua global. O problema está na persistência de uma mentalidade que continua confundindo diferença com deficiência, sotaque com incompetência e diversidade com inadequação. Enquanto isso acontecer, o preconceito linguístico continuará encontrando maneiras de entrar em campo, mesmo quando a ciência já demonstrou que ele não deveria mais fazer parte do jogo.

(*) Kleber Aparecido da Silva é professor do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas e do Programa de Pós-Graduação em Linguística e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade de Brasília.

 

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