Uma música do Sá e Guarabyra – Isabela e o passarinho morto.
Estava aqui olhando para o monitor e ouvindo uma música do Sá & Guarabyra à espera de alguma ideia para escrever essa crônica. Tanta coisa para falar e nada me ocorre.
Lá longe, no quadro da minha memória, existe uma casa que hoje resiste apenas como lembrança. É uma imagem tão forte, consigo sentir até o cheiro da madeira e do telhado banhado de chuva. Já passou, já passou.
É outono lá fora e as folhas das árvores estão castanhas, da mesma cor dos olhos e dos cabelos de Isabela, a menina que me visitou em sonho implorando para que eu escrevesse uma história na qual ela seria a heroína.
“Deixe-me em paz, Isabela.”
Fui proibido de escrever na voz feminina. Não sei bem o motivo, mas parece que incomoda uma boa parte das mulheres o fato de eu, um homem bem vivido — termo que estou usando para não dizer que estou velho — ficar relatando na escrita os sentimentos de uma mulher.
Ocorreu-me, pouco antes de ligar o computador, a imagem de ontem, de quando vi um passarinho morto na calçada da esquina. Pobre bichinho. Deve ter sido o frio da noite passada.
Fiquei pensando naquele passarinho, voando sem destino, cruzando o céu da grande cidade em busca de comida. Se ele soubesse que seria o último voo, talvez fizesse algo diferente: viajasse até uma aldeia distante, desse uma pirueta no ar, depois o mergulho ligeiro bem no meio do rio e, de lá, subisse voando feliz, sentindo os raios do sol secando suas asas e cantarolando tão forte, como se o canto viesse de dentro da sua alma de uma forma irresistível. Algo assim.
Que coisa mais sem graça viver apenas para comer. Foi só falar isso e sentir fome. O maldito diabetes tem me incomodado muito ultimamente e a minha teimosia se transformou numa arma perigosa.
Deu vontade, eu como. Simples assim, mesmo ciente de que não devo exagerar. Alguém me disse sobre um chá que diminui a glicose, mas o nome me assustou: pata de vaca...
Amanhã corto o carboidrato... Talvez um pedaço de pão não me faça mal... Talvez...
Sá & Guarabyra cantam sobre uma cidade que acabou e imediatamente eu me vejo imerso nos escombros de um lugar que nunca vi, o chão que não pisei, a cor de barro que não está apenas no chão, mas passeia também no céu, bem acima da casa de uma moça de nome Isabela.
Pronto, Isabela. Cá estou na sua história, no começo dos anos cinquenta, muito provavelmente em Goiás. No acorde do violão, descubro que é para cima da Bahia.
“O sertão vai virar mar...”
Sá & Guarabyra estão cantando e eles me encantam desde que eu era criança.
A música me leva para uma estrada no sertão, reflete tanta poeira nos meus olhos, tudo se torna embaçado. É a mesma estrada que vai dar na tarde quente de suores e poucas lágrimas, o dia da morte do pai de Isabela, que ficou tão sozinha.
Pobre Isabela.
No começo ela até gostou da solidão, agradeceu o fato do cheiro de cachaça do pai ter ido embora, enterrado junto dele abaixo de um monte de terra vermelha, fofa e guardada por uma cruz de madeira. Mas logo a solidão se tornou um tormento e Isabela encontrou um caminho até os meus sonhos.
“Eu nem tinha nascido, Isabela! Por que eu?”
E ela me responde num sussurro:
“Você sonha e escreve...”
A música acaba e um medo infantil me ocorre: e se o Pantanal virar sertão?
Ainda corre na minha boca, no resto de saliva, o gosto do vinho de ontem, de anteontem, de sempre.
Isabela implora e não resisto. Como foi que não percebi antes? No exato instante em que olhei para aquele passarinho morto, vi o rosto de Isabela.
“Meu lar é onde estão meus sapatos”, cantam Sá & Guarabyra.
O meu é onde caminham meus sonhos, respondo em meio a um sorriso. Sonhar não é melhor que viver, mas é tão bom sonhar...
Ouço um estalo e vejo um cachorro correndo atrás de um pedaço de pau atirado por um menino sardento. O pau passa bem perto do rosto de Isabela. O cachorro late e empurra o corpo da menina, apanha o pedaço de pau com a boca escorrendo baba e retorna para entregar ao menino, mas o sardento desaparece.
Restam em meus ouvidos os latidos do cachorro. Era um sonho dentro de outro sonho, só agora percebi.
E logo vem outro: o caminhão carregado de toras de madeira deixa a estrada mais empoeirada. A casa de Isabela fica no final da primeira esquina e é dentro dela, através da janela, que o caminhão desaparece.
Preciso fazer alguma coisa urgente antes que essa crônica se transforme num conto.
Por enquanto sou um homem bem vivido e ciente das coisas, embora exista a certeza de que, quando ficar velho, vou confundir sonhos com realidade.
O medo me apanha, mas eis um rio correndo agitado, empurrando os camalotes, e lá na frente, até onde meus olhos enxergam, as garças apanham na beira uns peixes pequenos.
Já não tenho medo. Sou um homem bem vivido e sei o endereço da casa adormecida da minha infância.
Uiva lá fora o vento soprando as folhas das árvores, enchendo de castanho o ar, espalhando o outono pelo fio da estrada, o mundo após o muro de concreto. Eu sei que lá adiante existe uma ponte de madeira oca onde o menino que fui se deitava sobre o abismo. Apesar do abismo, se pudesse eu voltava àquele tempo.
E se o rio Aquidauana secar?...
Tudo bem, Isabela. Estou decidido a escrever um conto sobre você, mas antes preciso terminar essa crônica.
Não conto para ninguém sobre o breve prazer que a solidão me causa — é quando vejo passarinhos e ouço a desconhecida moça de outrora, de um tempo e lugar que não vivi —, mas é sentimento breve, porque logo quero algazarras, gente falando, música tocando e quem sabe o canto de um passarinho de nome Isabela.
O que dela restou: o corpo pequeno e rígido, o bico fechado para sempre. Nenhum canto há mais, apenas o frio do concreto aos pés de uma árvore de onde caem as folhas castanhas de outono.
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